Hollande quer unir Rússia e EUA para derrotar jihadistas

A polícia vai ter mais cinco mil efetivos nos próximos dois anos e o encerramento de mesquitas radicais vai ser discutido em breve. Valls não descarta perigo de novos atentados

"A França está em guerra", voltou ontem a dizer François Hollande, desta vez no Palácio de Versalhes, numa reunião histórica do Congresso do Parlamento, a primeira em seis anos, que junta Senado e Assembleia Nacional. No seu discurso, o presidente francês apelou a uma grande coligação internacional com Rússia e Estados Unidos para derrotar os jihadistas da Síria e anunciou uma alteração constitucional para fortalecer a luta contra a "guerra terrorista".

No seu discurso, que durou cerca de 50 minutos, Hollande anunciou que vai encontrar-se nos próximos dias com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em Washington, e o líder da Rússia, Vladimir Putin, em Moscovo, "para que possamos unir as nossas forças para conseguir um resultado que está a demorar tempo demais".

Neste sentido, o socialista apelou à criação de uma "coligação internacional" e disse que vai pedir "no prazo mais breve possível" uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para aprovar uma resolução contra o Estado Islâmico.

"Vamos erradicar o terrorismo", garantiu Hollande, adiantando que na quinta-feira o porta-aviões Charles de Gaulle irá navegar para o Mediterrâneo oriental, "que vai triplicar a nossa capacidade de ação".

O presidente francês reclamou ainda uma reforma constitucional - a ser adotada "o mais rápido possível" - que melhore as formas de luta contra o terrorismo, de modo a permitir ao país dispor de "uma ferramenta apropriada para adotar medidas excecionais durante um período de tempo limitado".

Hollande apresentou também medidas que endurecem o tratamento jurídico do radicalismo e do terrorismo, começando pela retirada da nacionalidade a quem tenha dupla nacionalidade e seja condenado por delitos que atentem contra o Estado. Bem como impedir a entrada em França aos portadores de dupla nacionalidade que representem risco de terrorismo e expulsar "mais rapidamente" os estrangeiros que se suponha serem uma ameaça.

Para ajudar nestes processos, serão criados "5 000 postos de trabalho na polícia nos próximos dois anos", o Ministério da Justiça "terá 2 500 postos adicionais para a administração penitenciária e serviços judiciais" e as autoridades aduaneiras "serão reforçadas em 1000 postos", disse Hollande. As autoridades francesas detiveram 23 pessoas para interrogatório e apreenderam 31 armas nas vastas operações de busca desde domingo à noite.

Cimeira sem festa

Vamos viver muito tempo com esta ameaça, temos de estar preparados

Manuel Valls afirmou ontem que a França tem de se preparar para a possibilidade de novos atentados "nos próximos dias, nas próximas semanas". "Vamos viver muito tempo com esta ameaça, temos de estar preparados", disse o primeiro-ministro francês à RTL, acrescentando que os atentados de Paris de sexta-feira foram "pensados e planeados a partir da Síria".

Uma das preocupações, a curto prazo, em termos de segurança para o governo francês é a Cimeira do Clima, que começa dia 30 em Paris. O evento, que vai receber cerca de 200 de líderes mundiais, mantém-se, mas vai concentrar-se nas negociações e os "concertos e iniciativas festivas" paralelas serão "sem sombra de dúvida canceladas", anunciou Valls.

Na mesma entrevista Valls falou, mais uma vez, em encerrar as mesquitas ligadas ao extremismo. Uma ideia da qual já tinha falado em finais de junho. "O que é que ele está à espera?", disse o imã de Bordéus, Tareq Oubrou. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, já tinha anunciado no domingo que o fecho de mesquitas radicais será debatido numa das próximas reuniões do Conselho de Ministros.