Hillary e Trump têm 90 minutos para provar que merecem a Casa Branca

As televisões americanas esperam que perto de cem milhões de pessoas assistam ao primeiro debate entre os candidatos às presidenciais de 8 de novembro. Erro pode ser fatal para qualquer um.

Combativo e destemido. Foi por estas características que Hillary Clinton escolheu o seu antigo assistente no Departamento de Estado Philippe Reines para interpretar o papel de Donald Trump nos debates que encenou para se preparar para o primeiro frente-a-frente entre candidatos às presidenciais de 8 de novembro nos EUA, nesta noite em Long Island. Armada com um extenso perfil psicológico do rival republicano, a democrata ensaiou as suas respostas diante de um adversário que tanto pode apresentar-se de forma educada e profissional como estar ao ataque e até insultá--la. Do outro lado, apesar das pressões da sua equipa, Trump preferiu manter a agenda e recusou treinar as respostas com uma falsa Hillary.

"Não se pode ganhar umas eleições num debate, mas é fácil perder umas num debate", resumia no Chicago Tribune o consultor político Brett O"Donnell. Hoje, Hillary e Trump têm 90 minutos para evitar o erro que lhe pode custar a Casa Branca. Transmitido pelos principais canais de notícias americanos - da CNN à ABC, passando pela FOX News -, o debate terá lugar na Universidade Hofstra e deverá ser visto por cem milhões de telespectadores, pulverizando o recorde do frente-a-frente entre Jimmy Carter e Ronald Reagan em 1980. E será moderado por Lester Holt, apresentador do jornal da noite da NBC, o mais visto dos EUA. Dividido em segmentos de 15 minutos, sem interrupção para publicidade, vai centrar-se em três temas: rumo da América, prosperidade e segurança.

Senadora por Nova Iorque, candidata às primárias democratas em 2008, Hillary é muito experiente em debates. Conhecedora dos grandes dossiês, as suas respostas são sempre cheias de informação. Mas a ex-primeira-dama, que está a recuperar de uma pneumonia, sabe que não pode parecer demasiado fria e distante se quer conquistar os 8% de indecisos que podem fazer pender a balança para um dos candidatos, praticamente empatados nas sondagens nacionais. É verdade que 88% dos americanos a consideram uma mulher inteligente, mas há 65% que a veem como desonesta e 52% têm opinião negativa dela.

O objetivo de Hillary é claro: surgir calma e relaxada, dar respostas simples, pressionar Trump e fazê-lo explodir, provando que o milionário não tem o temperamento certo para a presidência.

O republicano, que hoje se estreia num debate a dois, não é muito mais apreciado pelos eleitores do que a rival - 61% têm opinião negativa sobre ele. Imprevisível, terá de provar que consegue manter a concentração e esconder a irritação diante de uma só adversária e do moderador. O objetivo da sua equipa é mantê-lo centrado nos grandes temas - emprego, terrorismo, segurança e imigração - sem entrar em pormenores que não domina.

"Para Hillary [os assuntos mais delicados são] tudo o que se relacione com a imagem de que não é de confiança - os e-mails [usou o servidor privado quando era chefe da diplomacia], o ataque a Bengazi, os problemas de saúde", explica ao DN Nuno P. Monteiro. Para o português que dá aulas de Ciência Política em Yale, no caso de Trump, o mais complicado será lidar com "a ideia de que está impreparado e tem uma personalidade explosiva que pode ser perigosa na Casa Branca".

A menos de mês e meio das eleições, nada parece decidido. A última sondagem ABC News/Washington Post dá 49% das intenções de voto a Hillary e 47% a Trump. Uma vantagem mínima longe de deixar a ex-primeira-dama ao abrigo de um erro se quer ser a primeira mulher presidente dos EUA. "[Se correr mal] não será o fim, mas pode ser visto como o princípio do fim" para a democrata, recorda Nuno P. Monteiro.

Depois do susto provocado pelo desmaio nas cerimónias do 11 de Setembro e da pneumonia, Hillary chega ao debate reforçada pelo apoio do The New York Times. Em editorial, o jornal garante que o seu apoio "se baseia no respeito pelo intelecto, experiência e coragem" da democrata. Há 15 anos na América, Nuno P. Monteiro admite que a ex-primeira-dama é "o candidato mais bem preparado que já concorreu à presidência". Para o professor, a democrata não pode é cair na armadilha do rival: "Se ele conseguir dominar o debate e fazer que o moderador deixe passar respostas cheias de falsidades, pode irritar Hillary, o que é especialmente danoso para ela por ser mulher." Denunciando o sexismo da política americana, o académico garante: "As mulheres pagam um preço mais alto por parecem autoritárias."

Quanto a Trump, que na sexta-feira recebeu o apoio do ex-rival Ted Cruz, "o principal ponto forte é ser carismático para certa parte do eleitorado e parecer um homem forte", explica Nuno P. Monteiro. Desde que consiga controlar o mau feitio.

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