"Há um saldo negativo de 2624 empresas na Catalunha"

O presidente dos Empresários da Catalunha traça um cenário negro causado pela "instabilidade política" que se vive. Josep Bou acredita que será possível negociar, mas não com o atual governo catalão, criticando algumas "frases de verdadeiro fanatismo" do líder da Generalitat.

Qual é o impacto do que está a acontecer para as empresas catalãs?

Mesmo antes de qualquer consulta, o processo até à construção de um futuro estado com forma republicana já está a ter um impacto negativo para as empresas e para as famílias da Catalunha. Os investidores são os que se portam um bocadinho melhor, porque só há um mês é que pararam totalmente os investimentos à espera do que vai acontecer. Mas o grande dano está a ocorrer nas empresas catalãs. Desde 2008 há uma fuga de empresas, que se acentuou em 2012. Desde 2008 perdemos quase oito mil empresas. É verdade que entraram pouco mais de cinco mil, mas há um saldo negativo de 2624 empresas para o tecido empresarial de Catalunha devido à instabilidade política que estamos a viver nestes momentos. Porque o que está a acontecer tem sido patrocinado pelo governo da Generalitat, não é um grupo revoltoso, é o próprio governo, e isso cria uma instabilidade muito grande.

A Catalunha tem uma das economias mais ricas de Espanha. Isso está em risco?

Espanha tem um desequilíbrio económico importante, como outras nações europeias. Há grandes núcleos de produção que fazem crescer a economia, permitindo tributar mais e ser solidários com o resto de Espanha. Nestes momentos, a Catalunha não pode ser solidária porque tem um problema enorme de liquidez, de credibilidade nos mercados. As obrigações catalãs estão ao nível das do Ruanda por isso os cofres estatais catalães estão a ser apoiados mediante o Fundo de Liquidez Autonómico, permitindo equilibrar as contas da Generalitat e sem o qual entraríamos em falência.

E o que acontece se depois do referendo se declara a independência?

Entramos no mundo das suposições. Mas primeiro, referendo não vai haver, porque é uma ação ilegal, e um Estado que é a quarta potência europeia, um Estado moderno e ocidental como é a Espanha não pode dar-se ao luxo de serem feitas coisas ilegais, atacando o Estado de Direito, o Estatuto e a Constituição. O que acontecer não terá qualquer tipo de transcendência. Mas ninguém sabe é o que pode acontecer depois. Uma declaração unilateral de independência seria muito lamentável porque o governo espanhol teria que atuar com a justiça nas mãos e corrigir este caminho errático que a Catalunha percorreu por culpa do seu governo.

Do ponto de vista dos empresários, o que se pode fazer para voltar a uma situação normal?

Até agora não se podia fazer nada, porque não podemos pactuar sob pressão e ameaças. A Espanha aprendeu isto muito bem com a ETA. Sob ameaça de secessão, de referendo ilegal, não se pode negociar. Depois temos que reconduzir a Catalunha a um caminho de constitucionalismo Os empresários acreditam que se pode dialogar, negociar, mas dentro do marco da lei, do estatuto e da constituição. Fora não se pode negociar nada, fora é a anarquia.

Madrid parece disposta a negociar mesmo no âmbito fiscal...

Achamos que seria justo uma nova lei de financiamento autonómico, mais justa e solidária. Depois há uma série de questões a nível de infraestruturas que é preciso avançar, como o Corredor Mediterrânico. Podem fazer-se gestos ao povo da Catalunha. Mas acho que com as caras que temos neste momento é muito complicado, porque escutamos frases de verdadeiro fanatismo por parte de Puigdemont. Entendemos que essas caras tinham que se afastar, tinham que vir novas, mesmo que tenham uma ideologia nacionalista, para ver como podemos arranjar as coisas para o bem da Catalunha e do resto da Espanha.

Enviada a Barcelona

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