Há portugueses retidos na Praia, Sal, Bissau e São Tomé. TAP vai buscá-los para a semana

Numa altura em que ainda são muito poucos os casos de infeção com covid-19 nos países de língua oficial portuguesa (com exceção do Brasil), os cidadãos portugueses que desesperam por regressar Portugal vão poder fazê-lo no início da próxima semana.

A pandemia de coronavírus ainda não chegou em força aos países de língua oficial portuguesa, uma vez que se registam pouco mais de duas dezenas de casos confirmados de pessoas contaminadas, três das quais em Cabo Verde, duas em Angola e 19 em Timor. Isto se deixarmos de fora o Brasil, onde já se registaram mais de mil casos e 18 mortes.

Há, no entanto, uma grande preocupação, em Portugal com os vários cidadãos portugueses que se encontram sobretudo em Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe a aguardar voos de regresso. Nesse sentido, fonte do gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse este sábado à agência Lusa que a TAP prevê realizar "nos primeiros dias da próxima semana" voos para permitir o regresso dessas pessoas que estão retidas.

"O Ministério dos Negócios Estrangeiros garantiu junto das autoridades locais disponibilidade para a autorização de voos da TAP para permitir o regresso de cidadãos portugueses", garantiu a mesma fonte, acrescentando que "a TAP prevê viabilizar voos para Praia, Sal, Bissau e São Tomé e Príncipe num dos primeiros dias da próxima semana".

Estes esforços do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) visam permitir o regresso dos cidadãos portugueses que, devido ao cancelamento de voos ou suspensão de ligações aéreas decididos no âmbito das medidas tomadas para combater a propagação do novo coronavírus, ficaram retidos nesses países.

Portugueses à espera na Ilha do Sal

Cabo Verde, que teve todos os seus casos de contágio na ilha da Boa Vista, já adotou algumas medidas para precaver a propagação do vírus e uma das quais foi a interdição dos voos de entrada e saída do arquipélago até pelo menos ao dia 9 de abril, o que está a afetar várias centenas de portugueses que estão retidos na ilha do Sal, que não podem regressar a Portugal.

Uma das pessoas retidas, Mónica Pedrosa, disse à agência Lusa que "pelo menos" dois elementos do seu grupo "estão em situação clínica grave, dependentes de medicação, que tem de ser manipulada em contexto hospitalar em Portugal, unicamente". "A quantidade está a esgotar-se e termina segunda-feira", avisou, acrescentando que se trata de um doente cardíaco e uma grávida de risco. Por sua vez, Madalena Bonville explicou ainda que o hotel onde se encontra este grupo "fecha em princípio na segunda-feira e depois disso é cada um por si".

Neste momento, não há garantia de repatriamento, embora na quinta-feira, a embaixada portuguesa em Cabo Verde tenha anunciado que está para "breve" uma solução para repatriar as centenas de turistas (entre 200 a 300) nas várias ilhas.

Cabo Verde com ilha da Boa Vista isolada

O ministro cabo-verdiano da saúde Arlindo do Rosário confirmou este sábado, em conferência de imprensa, que a ilha da Boa Vista se encontra de quarentena, depois de terem sido identificados mais dois casos, que se acrescentam ao primeiro paciente, um turista inglês de 62 anos. O segundo caso positivo foi de um cidadão holandês, mas não foi revelada a origem do terceiro. Ainda assim, o ministro garante que todos os infetados apresentam "bom estado clínico".

"Já temos na Boa Vista uma equipa sanitária constituída por um epidemiologista, internista, infeciologista, também psicólogos e enfermeiros, para fazer o levantamento da situação reforçar o tratamento dos casos que vierem a ser confirmados", explicou Arlindo do Rosário, revelando ainda que foram mobilizados 40 militares. O governante manifestou ainda que a intenção é "conter a epidemia na ilha da Boa Vista", embora tenha deixado uma garantia: "Temos de estar preparados para eventuais casos que podem vir a aparecer noutras ilhas."

São Tomé: último voo pôs 110 pessoas de quarentena

Ainda sem registo de qualquer caso, o governo de São Tomé e Príncipe já fechou as fronteiras durante 15 dias, obedecendo a um plano apertado que vista impedir a entrada do vírus no território.

Este sábado aterrou o último avião comercial no arquipélago, com um total de 110 passageiros oriundos de Lisboa, entre são-tomenses e portugueses, que foram de imediato colocados em regime de quarentena obrigatório durante 15 dias.

"Tomámos todas as medidas para que eles tenham um período de quarentena normal. O hotel vai estar fechado, isolado com equipa médica durante 24 horas, ainda hoje vão ser testados e vai haver segurança para impedir que entrem e saiam pessoas", revelou Wando Castro, ministro da presidência do Conselho de Ministros e assuntos parlamentares.

Os passageiros saíram do aeroporto em quatro autocarros escolares, escoltados por batedores da polícia e vigiados por agentes da segurança de estado. "É uma quarentena em regime de isolamento e esperamos que todos colaborem e entendam que é para o bem comum", sublinhou o ministro, empenhado em "evitar a todo o custo que o coronavírus entre em São Tomé".

Este último voo leva para a Lisboa 235 passageiros que estavam retidos em São Tomé à espera de regressar aos países de origem.

Angola com dois infetados oriundos de Portugal

Entretanto, em Angola, a ministra da saúde Sílvia Lutucuta anunciou este sábado os dois primeiros casos positivos de infeção por coronavirus.

Tratam-se de dois cidadãos angolanos que regressaram ao país nos dias 17 e 18 de março, depois de terem estado em Portugal.

O espaço aéreo angolano foi fechado esta sexta-feira, mas Sílvia Lutucuta referiu que o governo angolano decidiu autorizar voos adicionais de Lisboa e do Porto para repatriar os seus cidadãos, mas garantiu que estão a ser preparadas condições para que os seus passageiros entrem em quarentena institucional.

De Luanda estão também autorizados a sair alguns voos para que os portugueses regressem ao seu país, embora isso só abranja as pessoas que estejam transitoriamente em Angola, como turistas e empresários, bem como doentes com carências graves ou outras situações humanitárias.

Nesse sentido, cerca de 500 pessoas contactaram entre quinta-feira e sexta-feira os serviços consulares em Angola, manifestando a intenção de regressar a Portugal.

Moçambique sem atividades religiosas

Apesar de não haver registo de casos de coronavírus em Moçambique, o presidente Filipe Nyusi anunciou um conjunto de medidas que entram em vigor esta segunda-feira, que incluem a suspensão de vistos de entrada no país, o encerramento de escolas, a suspensão de todos os eventos sociais com mais de 50 pessoas e o alargamento da quarentena domiciliária a todos os viajantes.

A juntar a estas decisões, este sábado a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) anunciou também a suspensão de todas as atividades da igreja católica no país, a partir de segunda-feira e durante 30 dias para prevenir infeções pelo novo coronavírus.

Em comunicado assinado pelo bispo de Xai-Xai, Lúcio Andrice Muandula, presidente da CEM, é ainda suspensa a aglomeração de pessoas para celebração de funerais, admitindo apenas o apoio logístico para a realização das exéquias fúnebres, nas quais podem participar "apenas de alguns familiares, não superando 50 pessoas".

As celebrações da Semana Santa, de 4 a 11 de abril, que antecedem o domingo de Páscoa, deverão decorrer à porta fechada, sem a participação de fiéis, indica a CEM.

Neste momento, as autoridades consideram que, tendo em conta o que se passa em países vizinhos, o risco é elevado para Moçambique.

Timor suspende missas em Díli e Dare

Com 19 casos confirmado de contaminação de covid-19, Timor-Leste também viu suspensas todas as missas presenciais nas igrejas e capelas da capital Díli e da zona de Dare.

A decisão foi da Arquidiocese de Díli, cujo arcebispo Virgílio do Carmo da Silva justificou como medida para "para proteger o povo do ataque do coronavírus".

Estão também suspensos todos os encontros e retiros previstos, bem como a Via Sacra do próximo 27 de março, sendo as missas nas capelas limitadas a residentes das casas religiosas.

Guiné com medicamentos ilimitados

A Guiné-Bissau está também a preparar-se para o combate ao coronavírus, apesar de ainda não ter qualquer caso identificado.

E os primeiros sinais de o país estar avisado foram dados por David Peixoto, responsável por uma empresa de importação de medicamentos na Guiné-Bissau, que disse à Lusa ter "capacidade ilimitada" de abastecer o país e fazer face à covid-19, desde que "exista organização e sinergia" entre as entidades.

"Há um estoque bastante grande para alguns meses dos principais produtos que estão a ser usados para o combate ao novo coronavírus", garantiu, revelando ainda assim "algumas preocupações relativamente às medidas que foram tomadas no que diz respeito ao fecho das fronteiras, principalmente aéreas, neste período", disse, lembrando que é essa a forma de a sua empresa "fazer reposição de medicamentos urgentes".

A Guiné-Bissau ainda não registou qualquer caso da covid-19, mas dado as fragilidades sanitárias do país, as autoridades decidiram pelo encerramento de fronteiras, com exceção para abastecimento de produtos de primeira necessidade e urgências médicas.

Foram ainda encerradas as escolas públicas e privadas, mercados nacionais e todo o comércio, que não forneça bens de primeira necessidade. Os locais de culto foram igualmente encerrados, bem como as piscinas, praias e complexos de lazer e desportivos.

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