Segundo ano da morte de Marielle. Muito resta por esclarecer

Rio de Janeiro, a cidade onde a vereadora nasceu e morreu, será palco de atos simbólicos no "dia de luta contra o genocídio da mulher negra". Com dois supostos autores materiais detidos, ainda ninguém sabe responder à pergunta "quem afinal a mandou matar?"

O Rio de Janeiro é palco na noite desta sexta-feira e ao longo do dia de sábado, pelo segundo ano seguido, do "Dia Marielle Franco, dia de luta contra o genocídio da mulher negra". Convocados pelo PSOL, o partido da vereadora assassinada a 14 de março de 2018, e de outros partidos de esquerda, como o PT e o PC do B, os atos anunciam-se neste ano, sob a presidência de Jair Bolsonaro, como "uma luta contra a escalada autoritária da extrema-direita" e a favor da ordem democrática.

Marielle e o motorista, Anderson Gomes, foram executados no centro do Rio, segundo as autoridades, por Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, dois ex-polícias com ligações à milícia [máfia do Rio de Janeiro] Escritório do Crime, liderada por Adriano Nóbrega, um outro ex-agente morto em circunstâncias suspeitas no mês passado, após troca de tiros com a polícia.

Lessa terá disparado contra o carro em que seguiam as vítimas de uma viatura conduzida por Queiroz. Fernanda Chaves, assessora de imprensa da vereadora, que seguia sentada ao lado dela, sobreviveu aos 13 disparos sem ferimentos.

Mas se as detenções em causa respondem, em princípio, à pergunta sobre "quem matou Marielle e Anderson", falta ainda apurar "quem mandou matar Marielle e Anderson".

O facto de Lessa ser vizinho de condomínio de Bolsonaro, de um porteiro ter dito que foi o próprio presidente a autorizar a entrada de Queiroz no local no dia do crime, de Queiroz ser seu apoiante declarado, de Nóbrega ter sido homenageado pelo próprio presidente da República e de familiares seus terem feito parte do gabinete do seu filho Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro levantam especulações incómodas - e nada mais do que isso, por enquanto - para o governo.

Eis algumas perguntas e respostas sobre o caso

COMO FOI MORTA MARIELLE?

Marielle Franco, vereadora do Rio pelo PSOL, partido de extrema-esquerda, e o motorista, Anderson Gomes, foram mortos no dia 14 de março de 2018, após um debate no centro da cidade. Por volta das 21.00, quando ela, o motorista e a assessora, Fernanda Chaves, deixaram o local de carro, outro veículo seguiu-os. Cerca de 30 minutos depois, foram disparados 13 tiros desse veículo. Marielle foi atingida por quatro tiros na cabeça, Anderson por três tiros nas costas e Fernanda sobreviveu sem ferimentos graves.

QUAL A MOTIVAÇÃO?

Colaboradora de Marcelo Freixo, deputado federal do PSOL que investigou as milícias no Rio de Janeiro, Marielle foi morta por supostamente ameaçar essas milícias, disse, em dezembro de 2018, o secretário de Segurança do Rio, general Richard Nunes.

E QUE ARMA FOI USADA?

A arma usada para assassinar Marielle e Anderson era uma submetralhadora de uso restrito no Brasil. Cinco unidades desse modelo desapareceram do arsenal da Polícia Civil, segundo recontagem efetuada em 2011. As balas eram de um lote que foi vendido à Polícia Federal em 2006. As autoridades dizem ter provas de que a arma foi deitada ao mar - até agora as buscas no local revelaram-se inconclusivas.

COMO DECORREU A INVESTIGAÇÃO?

Após muitas atribulações no comando das operações, dois dias antes de o crime completar um ano, Ronnie Lessa, apontado como o autor dos disparos, e Élcio Queiroz, suspeito de ser o motorista do carro usado no crime, foram presos. Lessa é um polícia reformado, Queiroz foi expulso da corporação. Os dois foram denunciados por homicídio qualificado de Anderson e Marielle e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves. Ambos têm ligação à Escritório do Crime, milícia liderada por Nóbrega.

ONDE A FAMÍLIA BOLSONARO ENTRA NA HISTÓRIA?

O nome do hoje presidente da República tem sido associado ao caso porque há evidências de ligação próxima da sua família à de Adriano Nóbrega, mas também a Ronnie Lessa, autor material dos disparos, que é vizinho de condomínio de Jair e Carlos Bolsonaro, segundo filho do presidente. E a filha de Lessa namorou Renan, o quarto dos filhos de Bolsonaro. Élcio Queiroz, por sua vez, partilhou nas redes sociais foto sua abraçado a Jair Bolsonaro em campanha. Finalmente, o porteiro do condomínio em causa disse em depoimento que, no dia do crime, foi Bolsonaro quem autorizou Élcio a entrar no local para visitar Ronnie pelo intercomunicador. Mais tarde o porteiro disse que pode ter-se confundido.

QUEM ERA ADRIANO NÓBREGA?

Ex-capitão do BOPE, a tropa de elite do Rio de Janeiro, foi exonerado da polícia em 2014 por atuar em paralelo como segurança da máfia do jogo ilegal carioca. Foi, entretanto, preso três vezes, acusado de homicídio e tentativa de homicídio, e solto outras três. É considerado o chefe da milícia (máfia que em troca de oferta de proteção à população pratica extorsão) mais antiga e mais letal do Rio, a Escritório do Crime, especializada em assassínios por encomenda. Estava foragido, não por causa do caso Marielle, mas por ser um dos alvos de uma operação contra milicianos em janeiro do ano passado.

COMO FOI MORTO?

De acordo com informações de quem o matou, ou seja, as polícias da Bahia e do Rio em operação conjunta, morreu já num hospital perto de Esplanada, onde ficava a propriedade rural que lhe servia de esconderijo, depois de se envolver em tiroteio com agentes. Na propriedade rural, que pertencia a Gilson de Dedé, vereador local pelo partido de Jair Bolsonaro à época da sua eleição, o PSL, a polícia encontrou 13 telemóveis e quatro armas.

QUAL A LIGAÇÃO DELE À EXECUÇÃO DE MARIELLE?

Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, os autores materiais do crime segundo a polícia, são membros da Escritório do Crime, a milícia controlada por Nóbrega.

QUAL A LIGAÇÃO DELE À FAMÍLIA BOLSONARO?

Nóbrega foi colega no 18.º batalhão da polícia militar carioca de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro suspeito de comandar um esquema de corrupção chamado "rachadinha" - desvio do salário dos outros assessores -, no gabinete do então vereador do Rio e hoje senador. Entre os assessores de Flávio, que é o primogénito de Jair Bolsonaro, estavam a mãe e a filha de Nóbrega. Flávio distinguiu Nóbrega em 2005 com a medalha Tiradentes - a mesma que Jorge Jesus, treinador português do Flamengo, recebeu há dois meses - e elogiou-lhe "a galhardia e o brilhantismo" dois anos antes durante a apresentação de uma moção de louvor em sua honra. Em 2005, na Câmara dos Deputados, em Brasília, o então deputado Jair Bolsonaro foi ao palanque defender Nóbrega, a enfrentar acusação de homicídio: "Um dos coronéis mais antigos do Rio de Janeiro compareceu fardado, ao lado da Promotoria, e disse o que quis e o que não quis contra o tenente [Nóbrega], acusando-o de tudo o que foi possível, esquecendo-se até de o facto de ele [Nóbrega) sempre ter sido um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar."

O QUE DIZ O ADVOGADO DELE?

Paulo Catta Preta afirma que recebeu, pela primeira vez, um telefonema do seu cliente na última quarta-feira (5 de fevereiro). Na conversa, Nóbrega disse temer que a ação policial das polícias baiana e carioca não era para o prender mas sim para o matar. "Falou em queima de arquivo", segundo o advogado. Maurício Barbosa, superintendente da polícia da Bahia, disse que essa versão era "estapafúrdia".

MAS QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?

É a pergunta que toda a gente ainda se faz - agora que passam dois anos sobre o crime - e que pode ter ficado mais difícil de ser respondida após a morte de Nóbrega às mãos da polícia. Em setembro de 2019, a procuradora-geral da República cessante Raquel Dodge disse haver "indícios de autoria intelectual de Domingos Brazão", conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio, no assassínio de Marielle. De acordo com ela, suspeitava-se que Brazão tivesse ligações com a milícia Escritório do Crime. Ele nega. Mas essa é apenas uma linha de investigação.

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