Gülen recusa ser extraditado e Ancara prende mais jornalistas

Total de elementos da imprensa detidos é de quase 90. Dirigente muçulmano insiste nada ter a ver com movimento golpista falhado e acusa Erdogan de "polarizar a população".

As autoridades turcas ordenaram ontem a detenção de mais 47 jornalistas, a somar aos 42 presos no início da semana, sob suspeita de ligação ao movimento do clérigo muçulmano Fethullah Gülen que Ancara acusa de responsabilidade na tentativa falhada de golpe no passado 15 de julho, que causou 265 mortos na mais recente estimativa.

Até ontem tinham sido presas cerca de 15 mil pessoas, das quais dez mil entre os militares, tendo oito mil destes sido já formalmente acusados. No total, mais de 60 mil pessoas foram presas, suspensas ou despedidas, verificando-se a maioria dos casos na Administração Pública e nos setores da Justiça e Educação.

Gülen, que vive exilado nos Estados Unidos desde 1999, tem negado qualquer tipo de participação no golpe e publicou no The New York Times um artigo reafirmando essas declarações ao mesmo tempo que pede aos Estados Unidos para resistirem à "chantagem" do presidente Recep Tayyip Erdogan. Ancara solicitou a extradição de Gülen, que fundou e dirige o movimento Hizmet ("Serviço" em turco), bastante influente no seu país e com relevante número de seguidores e instituições noutras partes do mundo.

De acordo com fontes americanas, foi apresentada documentação referente a quatro casos em que Gülen surge como acusado perante os tribunais turcos, mas Ancara ainda não apresentou um pedido formal de extradição. Está em vigor desde 1981 um tratado de extradição entre os dois países, que regula este procedimento.

No texto do The New York Times, Gülen escreve que o objetivo do presidente turco é a sua extradição, "apesar da falta evidente de provas e, na prática, impossibilidade de um julgamento justo". O dirigente muçulmano considera existir "a tentação" de conceder a Erdogan "tudo o que ele pretende. Mas os Estados Unidos devem resistir a isso". Gülen sublinha ainda que irá resistir por todos os meios legais ao pedido de extradição. O aspecto determinante, como tem sido referido por fontes dos departamentos de Estado e da Justiça, é que a extradição tem de ser aprovada por um juiz federal e, por último, pelo Departamento de Estado, isto é, por John Kerry.

Mais adiante no mesmo texto, o fundador do Hizmet escreve que o presidente turco, que classifica como "autocrata", "está a transformar numa ditadura o regime" no seu país, a "incentivar os fanáticos" e a "polarizar a população".

Num desenvolvimento relacionado com o caso, o primeiro-ministro Binali Yildirim declarou "existirem provas evidentes. Sabemos que esse culto terrorista é responsável pelos terríveis ataques contra [o governo] e o povo turco" e insistiu na necessidade absoluta de Gülen ser extraditado, mostrando perplexidade pelas reticências americanas na questão. "Estamos desiludidos com a forma como os Estados Unidos estão a abordar o caso", afirmou Yildirim, citado pelo The Wall Street Journal.

Ainda ontem, soube-se que a casa dos pais de Gülen em Korucuk, na província de Erzurum, e onde este nasceu em 1941, vai ser arrasada e, em seu lugar, vai ser erguida uma instalação sanitária pública. A iniciativa teria partido da população local, segundo se lê nos media turcos.

Na passada semana, o governo de Ancara já tinha cancelado uma pensão de reforma, a que Gülen tinha direito pela sua atividade como clérigo muçulmano ao serviço do Estado, e a sua inscrição na Segurança Social.

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