Governo Temer culpa Dilma pela pior recessão de sempre

Analistas não esperam melhorias já em 2017. Contração de 3,6% face a 2015 superou registo negativo do ano de 1931

O Brasil está a passar pela pior recessão da sua história, de acordo com os números do produto interno bruto (PIB) de 2016, divulgados ontem. No ano passado a queda foi de 3,6 face a 2015 que, por sua vez, havia sido de 3,8 em relação a 2014. Só nos anos 1930 e 1931 havia registo de duas contrações consecutivas mas, ainda assim, de 2,1% e 3,3%, respetivamente. No total, são 12 trimestres seguidos de quedas, as duas últimas, de 0,7% e 0,9%, já sob gestão do presidente Michel Temer, dizem os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O ministro das Finanças, Henrique Meirelles, entretanto, atribuiu o resultado "a políticas que conduziram o país para a crise", numa crítica ao executivo de Dilma Rousseff.

"Olhar para estes números é olhar pelo espelho retrovisor", disse Meirelles em discurso no Conselho de Desenvolvimento Económico e Social, que reúne dezenas de notáveis de diversas áreas. O ministro indicou ainda que o país está "claramente a sair da crise". Para o governo, com o seu núcleo duro debaixo do fogo da Operação Lava-Jato e com índices de popularidade negativos, a prometida recuperação económica é vista como uma tábua de salvação.

Mas analistas esperam, na melhor das hipóteses, um crescimento tímido - ou nulo - em 2017, o primeiro ano civil inteiro sob administração de Temer. "Deixar 2016 para trás não faz a conta desaparecer, principalmente para os mais de 22 milhões de brasileiros em situação de desemprego ou subemprego porque os dados divulgados dão muitas pistas do que esperar dos próximos trimestres, já que como o recuo nos últimos três meses de 2016 foi maior do que o esperado, o risco de vermos mais um número negativo no primeiro trimestre do ano aumentou", escreve Thais Heredia, editora de economia da GloboNews.

"Os dados mais desalentadores dos números de 2016 são os do consumo das famílias e dos investimentos, o primeiro fala da qualidade de vida dos brasileiros e o outro da construção do futuro, perdemos muito no primeiro, com queda de 4,2%, e recuamos demais no segundo com perdas acima de dois dígitos, 10,2%, ambos devem recuperar, mas não o suficiente para fecharem positivos em 2017", continuou.

"Como caímos em todos os trimestres de 2016, partimos de um nível deprimido de atividade económica", sublinha o professor de economia do Insper Juan Jensen. Outro analista, João Borges, do portal G1, aborda a questão do PIB per capita. "É a medida do empobrecimento da população: se o PIB caiu 3,6%, a renda per capita, que é o PIB dividido pelo número de habitantes, caiu 4,4% no ano passado, depois de ter caído 4,6% em 2015. Em dois anos, essa perda anulou os ganhos acumulados nos quatro anos anteriores, de 2011 a 2014."

As consequências da recessão nas famílias é ainda mais dramática se levarmos em consideração que no início da década o país vivia situação inversa. "Em 2010, fui à Europa pela primeira vez, Paris e Lisboa, comprei carro e apartamento", conta ao DN a funcionária administrativa Maria Tomás. "Hoje ninguém consegue fazer isso", acrescenta. Ouvido pela Globo, o técnico de computadores Oswaldo Frausto conta que nesse período recebia bónus salarial "a cada seis meses" e que "cursos de pós-graduação, viagens, idas semanais ao bar e ao cinema e concertos de bandas rock estrangeiras cabiam tranquilamente no orçamento". Em 2015 foi despedido e agora cortou todas as despesas em lazer para pagar as contas básicas.

Entre os fatores apontados para a crise abrupta está o fim do boom das commodities, que alavancou o crescimento brasileiro durante o governo de Lula da Silva, e a intervenção excessiva na economia da gestão Dilma quando as vacas magras chegaram.

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