Governo catalão pede a Portugal que oiça "ambas as partes"

Delegação do governo catalão em Lisboa foi inaugurada oficialmente pelo presidente da Generalitat, Quim Torra, e pelo conselheiro para a Ação Externa, Relações Institucionais e Transparência, Alfred Bosch.

O governo catalão pede ao governo português que oiça "ambas as partes" se quer ajudar a resolver o conflito entre Espanha e Catalunha, indicando que durante a visita a Lisboa do presidente da Generalitat, Quim Torra, e do conselheiro para a Ação Externa catalão, Alfred Bosch, para inaugurar a nova delegação, vão contactar "com todos os partidos políticos", incluindo alegadamente o do governo.

"É verdade que não temos uma relação, uma comunicação, com o governo de Portugal, mas a nós o que interessa é que a cidadania de Portugal veja que esta luta tem muito a ver com eles, com a luta dos portugueses, da Revolução dos Cravos, de pôr o povo no centro de tudo", disse Torra, que lembrou que o ex-presidente da Generalitat Artur Mas foi recebido em 2012 pelo então presidente português Cavaco Silva e pelo primeiro-ministro Passos Coelho.

"O governo espanhol reconhece-nos como governo legítimo da Catalunha. Mas também como a sua contraparte natural para resolver o conflito catalão", referiu o conselheiro para os Assuntos Externos. "Aos líderes de Portugal pedimos que entendam que se o governo espanhol nos reconheceu como interlocutores, então para colaborar para a resolução do conflito que interessa a Portugal, um país vizinho, que interessa à Europa toda, ao mundo, então devem ouvir as duas partes. A parte espanhola, reconhecida por nós, e a parte catalã, reconhecida por eles", acrescentou.

"A melhor maneira de ajudar [o primeiro-ministro espanhol] Pedro Sánchez é falar também connosco, colaborar, persuadir o governo espanhol que a ajuda internacional e a compreensão de Portugal estarão lá", indicou Bosch. "Quanta democracia é capaz de assumir Espanha? É a pergunta que fizemos [ao governo espanhol] e é a pergunta para a qual estamos à espera de resposta", referiu Torra, que no discurso oficial falou apenas em catalão e em inglês.

Reabertura da delegação

A delegação da Generalitat em Lisboa, na Avenida da Liberdade, foi reaberta ao princípio da tarde desta quinta-feira, mais de dois anos depois de ter sido encerrada pela aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola, que suspendeu a autonomia catalã -- depois do referendo independentista de 1 de outubro de 2017. Tinha aberto em 2015 e sido inaugurada em 2016 e o então delegado era o jornalista Ramon Font. O novo delegado é Rui Reis que falou no "restabelecimento da normalidade" com a reabertura oficial do espaço.

"Esta delegação não devia ter sido fechada", referiu Bosch na inauguração, lembrando que ela é "legal, legítima, reconhecida e é necessária" e dizendo que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, Josep Borrell, "perdeu a guerra" que desencadeou contras as delegações. Há 15 delegações do governo catalão espalhadas pelo mundo, sendo que a de Lisboa foi reaberta no mesmo edifício da que tinha sido fechada, onde estão as embaixadas do Japão e Malta.

"Ter voz própria em Lisboa era chave e prioritário e hoje é um dia de alegria", disse Torra num encontro com os jornalistas portugueses, alegando que "Portugal é um país importantíssimo, é um país amigo, é um país prioritário" para a Catalunha. "Um país que melhor pode entender este desejo de liberdade que tem a Catalunha", afirmou, recordando a Revolução dos Cravos e a luta dos portugueses "de por o povo no centro de tudo".

Na inauguração, já Bosch lembrara que catalães e portugueses partilham o espírito da revolução democrática, citando Grândola, Vila Morena, no verso que diz "Terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena"."Para nós, esse espírito da revolução democrática portuguesa é um espírito que partilhamos". Falando em português, disse que a Catalunha quer que a relação com Portugal seja mais forte, melhor, e que não cesse nunca mais".

Torra e Bosch estiveram na quarta-feira em Madrid, na reunião inaugural da mesa de diálogo com o governo espanhol. Em relação a esse encontro, o presidente da Generalitat valorizou "o reconhecimento que faz o governo espanhol do governo catalão" e de que já "um conflito político que é preciso resolver politicamente". Contudo, continuam a exigir uma proposta clara da parte de Espanha. "Se este tem que ser um diálogo honesto e sincero, o governo espanhol tem que pôr em cima da mesa qual é a sua proposta", reiterou Torra.

"A proposta catalã baseia-se em dois pontos: o exercício do direito à autodeterminação da Catalunha através de um referendo validado e pactuado, com valor internacional, e o fim da repressão", acrescentou, dizendo que esta passa não só por uma lei da amnistia para todos, não só os que estão presos e exilados, e por "uma reparação da dor e do dano causado".

Questionado pelo DN sobre se há um prazo limite para ouvir a proposta espanhola, Bosch disse que "a próxima reunião é no mês que vem, vamos reunir-nos as vezes que forem necessárias. Vamos continuar o tempo que for necessário, devemos isso às pessoas, mas quanto mais rápido melhor".

Mas Torra pode já não ter muito tempo. É que o próprio presidente da Generalitat anunciou que irá convocar eleições antecipadas após a aprovação do orçamento regional, que deverá ocorrer nos próximos meses. Questionado sobre se mantém a ideia de não ser candidato à reeleição, apesar da abertura da mesa de diálogo com o governo espanhol, reiterou que é isso que tem dito desde o primeiro dia. "Foi uma grande honra", afirmou, dizendo que achava que tinha um dever como cidadão catalão de assumir o cargo, mas que sempre considerou que quando houvesse novas eleições já tinha feito o seu "serviço pelo país" e não voltará a apresentar-se como candidato.

Durante a visita, Torra inaugura também na tarde desta quinta-feira uma exposição sobre a língua catalã na Biblioteca Camões, organizada pela Plataforma per la Llengua.

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