Google à escuta: "Desculpa amor, não posso falar mais. O meu namorado chegou a casa"

Revisores de áudio que trabalhavam para empresa contratada pela Google ouviram milhares de horas de conversas em vários idiomas, até em português e em espanhol, supostamente para melhorar o serviço do assistente de voz da empresa.

"Alô, estou cinco minutos atrasada. Espera por mim. Já estou a caminho"; "Qual é o melhor site pornográfico?"; "Já sabes as últimas notícias sobre o caso Neymar?"; "Desculpa amor, não posso falar mais. O meu namorado já chegou a casa".

Será que alguém se reconhece nestes diálogos? Todos foram captados de telemóveis, de mensagens de voz ou de quem usou o assistente do Google. Pois é, nada está protegido. Segundo explicaram técnicos de transcrição ou de revisão de áudios ao jornal espanhol El País, "tudo o que seja áudio e fique gravado está ao alcance de qualquer empresa de tecnologia que faça a revisão dessas gravações".

Hoje, alertam, um telefone já não é apenas um telefone que se pode usar para falar com os outros. É muito mais do que isso. E quem usa o Google Assistente pode ter sido gravado. A notícia estoirou há poucas semanas e a empresa já veio assumir oficialmente que estas gravações estavam a ser trabalhadas por revisores de áudio, supostamente para que o Google pudesse melhorar os seus serviços.

Isto mesmo assumiu a Google numa nota oficial, na qual referia que a revisão das gravações realizadas através do Google Assistente é feita para "melhorar o funcionamento do seu assistente virtual. Ou seja, para que o software seja capaz de entender melhor o que os utilizadores estão a dizer".

Os revisores de áudio afirmam que os projetos que lhes eram dados iam mudando, pois tanto lhes passavam gravações para serem revistas obtidas através do Google Home como do Google Maps. Mas o pior mesmo, segundo estes técnicos, era a revisão dos áudios em mensagens, mais longos. "Nestas mensagens encontra-se tudo", referiram ao jornal.

Quando a polémica rebentou, os revisores de áudio garantiram que 0,2% das gravações registadas pela Google em todo o mundo eram auditadas. A multinacional admitiu que tinha especialistas em idiomas a trabalhar para si para fazerem a revisão das mensagens.

Até agora, não se sabe quantos técnicos poderia ter a Google a trabalhar nesta área, quantos projetos foram realizados ou quantas gravações foram auditadas por dia, semanalmente ou mensalmente.

Técnicos revelam que transcreviam 0,2% das conversas de todo o mundo

Os técnicos que falaram ao El País revelaram que cada um tinha a seu cargo a transcrição de cerca de seis mil áudios por semana. E que além de os transcreverem, tinham de os categorizar e classificar. Ou seja, identificar se eram de crianças, de adultos, de homens ou de mulheres e se eram ofensivos ou não. "Eram consideradas gravações ofensivas se contivessem insultos ou conteúdos sexuais", explicaram.

"Havia muitas pesquisas sobre sexo. Algumas pessoas procuravam vídeos de sexo de crianças, o que se tornou muito desagradável", admitiram. Ou seja, todos estes utilizadores recorriam ao Google e solicitavam não por texto mas por áudio a busca que pretendiam fazer. Tudo ficava gravado.

Mas a polémica com a Google desvendou um outro problema, refere o El País: os contratos precários a que estavam submetidos os técnicos de áudio que trabalhavam para a empresa que prestava serviços à Google. Uma situação que levou a que muitos deles tivessem sido dispensados de imediato.

"Muitos trabalhavam como freelancers e nem sequer recebiam o salário mínimo exigido para um técnico qualificado e com formação superior", relataram ao El País. "Ganhavam 600 euros em média, quando por cada hora que trabalhavam tinham de rever 200 áudios."

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?