Gabriel. Crime que chocou Espanha vai a julgamento

Gabriel Cruz, de oito anos, esteve desaparecido durante 12 dias. Companheira do pai, que participou nas buscas, foi intercetada com o corpo da criança na bagageira. Julgamento começou esta segunda-feira, sob forte dispositivo de segurança.

O caso deixou a Espanha em suspenso durante 12 dias. No final de fevereiro de 2018, Gabriel Cruz, de oito anos, saiu de casa da avó para brincar com os primos, perto de Níjar (na província de Almeria, no sul de Espanha), e desapareceu sem deixar rasto. O desaparecimento, que rapidamente suscitou uma enorme atenção mediática, suscitou uma onda de solidariedade, com muitas centenas de voluntários a juntarem-se às buscas, que chegaram a contar com mais de 1000 pessoas, entre autoridades e civis.

Ao fim de quatro dias, uma camisola interior da criança foi encontrada pela companheira do pai, a cerca de quatro quilómetros do local onde Gabriel tinha desaparecido. Mas, ao 12º dia, o caso teve o pior dos desfechos, quando a polícia intercetou o veículo em que seguia a madrasta da criança e encontrou o corpo de Gabriel na mala. O episódio da camisola interior - que apareceu num sítio que já tinha sido vasculhado pelas autoridades, sem que tivessem visto a peça de roupa - acabou por colocar a atenção das forças policiais sobre Ana Julia Quezada, que passou a ser vigiada de perto. A mulher de 45 anos, que acompanhava o pai da criança nas buscas e chegou a dar entrevistas sobre o desaparecimento, acabou por ser detida depois de se deslocar à fazenda onde estava a construir uma casa com o companheiro e de ter retirado algo de um poço, que envolveu numa manta e colocou na bagageira. Mas a polícia estava a ver.

A autópsia revelou que Gabriel morreu asfixiado, por estrangulamento, no próprio dia em que desapareceu.

Ana Julia Quezada começou esta segunda-feira a ser julgada pelo assassínio de Gabriel Cruz. Junto ao tribunal de Almería estão de serviço 40 agentes da Polícia e 130 jornalistas acreditados.

A acusação pede a pena máxima permitida pela lei espanhola - prisão perpétua com revisão (ao fim de 25 anos pode ser pedida a reavaliação da pena), e uma pena acessória de dez anos de prisão pelos danos psíquicos provocados aos pais. A defesa da mulher de 45 anos, de origem dominicana, alega que se tratou de um homicídio involuntário. A decisão será tomada por um tribunal de júri - nove pessoas que foram selecionadas a partir de um grupo inicial de 30. Para que Ana Julia Quezada seja declarada culpada é preciso que sete dos membros do júri concordem com esse veredicto. Para ser declarada inocente bastam cinco opiniões concordantes.

De acordo com o jornal espanhol El País , o julgamento deverá estender-se por nove sessões, até 18 de setembro, e vai concentrar novamente todos os holofotes mediáticos - estão guardados 50 lugares para os meios de comunicação social na sala onde vai decorrer o julgamento. Mas nem todas as sessões serão abertas. O depoimento dos pais de Gabriel, previsto para esta terça-feira, bem como o da avó e de uma prima menor da criança, vão decorrer à porta fechada. O mesmo sucederá com a audiência onde serão ouvidos os médicos legistas, em que deverão ser revelados pormenores sobre a morte da criança. Os pais já emitiram um comunicado, intitulado Pacto de Ética pelo Sorriso de Gabriel, a pedir "sensibilidade e responsabilidade" na cobertura mediática do julgamento.

Outra questão que tem sido levantada é se Ana Julia Quesada terá direito a um julgamento imparcial. Citada pelo El Periódico , a advogada de defesa, Beatriz Gámez, já veio dizer que Quezada "foi demonizada, é pior que o Diabo".

Fora deste julgamento, mas a pairar sobre ele, está a morte de uma outra criança, de quatro anos, filha adotiva do ex-marido de Quezada, que morreu há 22 anos depois de cair por uma janela da casa onde morava. O caso chegou a ser investigado pela polícia, que acabou por considerar que se tratou de um acidente. Os pais de Gabriel Cruz têm tentado que este caso seja reaberto.