G7. A cimeira em que as primeiras-damas foram usadas para atacar os presidentes

A agenda era intensa, do Irão à Amazónia, passando pela Rússia e pela paz em África. Mas não houve foto de família. Em vez de Trump a falar com Macron, a mais partilhada é a foto de Melania a olhar para Trudeau

Em Biarritz, reunidos num farol do século XIX, os líderes das sete economias mais fortes do Mundo chegaram a um consenso facilitador: não fariam nenhum comunicado final da cimeira. Esta foi uma medida preventiva, sugerida pelo anfitrião, o Presidente francês Emmanuel Macron. Afinal, na última cimeira, no Quebeque, Canadá, o Presidente americano tomara a decisão de sair antes do fim, ordenando aos diplomatas americanos que não aceitassem qualquer resumo consensual dos trabalhos.

Desta vez, à chegada de Trump, Macron decidiu furar o protocolo e "convidar" o Presidente americano para um almoço que não estava no programa. Continuando este jogo de improváveis factos diplomáticos, Trump usou o Twitter (para se vingar?) chamando "Macrone" ao Presidente francês, e fazendo uma ligação para uma página satírica que o visa ("erros" entretanto corrigidos).

Um dos resultados foi o cancelamento, súbito, da foto de família que juntaria os sete líderes: Angela Merkel (Alemanha), Boris Johnson (Reino Unido), Donald Trump (EUA), Emmanuel Macron (França), Guiseppe Conte (Itália), Justin Trudeau (Canadá) e Shinzo Abe (Japão).

Sem foto de família, oficial, começaram a ganhar espaço as fotos da família. A primeira surgiu, claramente, como contraponto a um dos temas fortes na agenda da cimeira. Macron quis discutir as alterações climáticas - que Trump considera um tema de "nicho" - e fê-lo quando os fogos na Amazónia se tornavam uma notícia mundial. Jair Bolsonaro, o Presidente do Brasil, não gostou. E resolveu comentar uma foto no Facebook, colocada por um apoiante.

Na foto estão dois casais presidenciais - Bolsonaro e a sua mulher, Macron e a sua mulher. Entre os dois casais há sensivelmente a mesma diferença de idades: Brigitte Macron tem 66 anos, mais 24 que Emmanuel Macron, enquanto Michelle Bolsonaro, tem 37 anos, menos 27 que Jair Bolsonaro. Para o apoiante de Bolsonaro isso parece ser uma estranha competição. Escreveu: "Agora entende por que Macron persegue Bolsonaro?"

O próprio Bolsonaro reagiu de imediato: "Rodrigo Andreaça não humilha cara. Kkkkkkk"

Numa conferência de imprensa da cimeira, em Biarritz, Macron comentou a frase de Bolsonaro com um adjetivo simples: "triste". "As mulheres brasileiras deverão sentir-se envergonhadas do seu presidente. É triste, é triste, sobretudo para ele e para os brasileiros", disse Macron.

Depois de ter sido chamado de "idiota" por um dos filhos de Bolsonaro, Macron afiançou esperar, "muito rapidamente", que os brasileiros "tenham um presidente que esteja à altura do cargo".

Na noite de sábado, 24, Brigitte e Michelle foram usadas para levar para um outro nível o debate sobre a defesa da Amazónia - e as consequências internacionais de um conflito internacional sobre o combate às alterações climáticas. Mas ainda não estava concluída a história das fotos das primeiras-damas.

Se os sete não quiseram posar juntos, não se opuseram a uma foto mais alargada. Com o Atlântico em fundo, de costas para o Golfo da Biscaia, até um português lá está, atrás de Angela Merkel: António Guterres, secretário-geral da ONU, é um dos muitos convidados da cimeira, tal como os representantes do FMI, do Banco Mundial, da OUA, da OIT e os chefes de Estado da Austrália, Índia, Espanha, África do Sul, Ruanda, Senegal, Burkina Faso e Chile.

Não esteve na foto, mas passou também por Biarritz o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros. Trump afirmou qualquer coisa de simpático sobre o Irão - que pode desdizer no Twitter com a mesma rapidez com que ameaçou, na véspera da cimeira, taxar a importação de vinhos franceses, para depois garantir que é amigo de Macron há muito tempo.

Fontes diplomáticas garantiram aos jornalistas que um dos temas mais difíceis da cimeira foi a proposta, de Donald Trump, para que o G7 volte a ser G8, incluindo a Rússia (que está suspensa desde a anexação da Crimeia, em 2014).

Putin pode vir a ser um dos convidados da próxima cimeira, que será organizada pelos EUA, mesmo que Boris Johnson, Angela Merkel, Justin Trudeau e Emmanuel Macron se tenham oposto à ideia de incluir a Rússia na fotografia.

Mas o Kremlin não parece ter ficado convencido pelos relatos do esforço de Trump. E foi a RT, a televisão pública russa, uma das primeiras a difundir a última foto de uma primeira-dama em Biarritz.

"Toda a gente devia ter alguém que olhe para si da maneira que Melania olha para Justin", é a frase escolhida pelo canal russo para, também ele, sugerir que há qualquer coisa de errado num casal presidencial com uma notória diferença de idades. A vítima, desta vez, tem o apelido Trump.

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.