Futuro do Líbano refém do conflito entre Riade e Teerão

Interesses estrangeiros apoiam diferentes partidos. Primeiro-ministro demissionário, Saad Hariri, diz-se disposto a regressar ao país.

Na principal praça de Beirute, painéis com o rosto do primeiro-ministro demissionário Saad Hariri foram erigidos contendo a inscrição "À tua espera" e sucedem-se as manifestações da generalidade das formações políticas pedindo o regresso do governante que apresentou a demissão no dia 4 a partir da capital da Arábia Saudita, Riade.

Um desejo que poderá (ou não) concretizar-se a breve trecho. Numa entrevista divulgada na noite de domingo para segunda-feira, Hariri disse estar pronto para regressar "nos próximos dias", a concretizarem-se "certas condições políticas". Condições que, contudo, não detalhou de uma forma clara. Num Líbano tradicionalmente atravessado por muitas linhas de divisão e alvo de interesses e influências regionais vive-se um momento classificado por muitos analistas internos e externos como de unidade nacional. O regresso de Hariri devolveria uma aparência de normalidade a um país que, em curtos cíclicos, vive sob quase permanente instabilidade política. De que a formação do governo do agora demissionário é exemplo. Após quase dois anos sem executivo, o Líbano passou a ser governado desde dezembro de 2016 por uma coligação de dez partidos e frentes, quase todos adversários entre si.

O executivo de Hariri integra muçulmanos sunitas, como ele próprio, xiitas, cujo principal representante é o movimento Hezbollah - por alguns considerado um estado dentro do Estado, possuindo forças armadas próprias e entidades que duplicam o papel das instituições oficiais. O Hezbollah é também o maior partido político libanês. O governo integra ainda cristãos maronitas e a minoria drusa; qualquer destas comunidades é representada por mais de um partido.

Outro exemplo a sublinhar a complexidade da política libanesa e a política de alianças a ela subjacente é o do atual presidente, o cristão maronita Michel Aoun, um antigo general que combateu de armas na mão a influência síria e dos seus aliados xiitas no Líbano, foi eleito com os votos destes últimos e o seu partido está aliado a formações políticas desta denominação do islão. A linha de atuação de Aoun mantém-se muito próxima das posições xiitas, tendo sugerido que Hariri teria sido "condicionado" pelos sauditas a apresentar a demissão. Num encontro com embaixadores, terá chegado a dizer que o primeiro-ministro, cuja demissão se recusou a aceitar, fora "raptado" por Riade.

Se o cenário interno é complexo, o duelo político-religioso entre a Arábia Saudita e o Irão (respetivamente, principais representantes do islão sunita e xiita), que se trava em toda a região, veio adicionar um fator de perturbação adicional. Como se pode atestar pelo facto - inédito - de um primeiro-ministro de um país anunciar a demissão num país terceiro. Saad Hariri anunciou a demissão a 4 de novembro em Riade, a capital da Arábia Saudita, onde se encontrava em visita oficial, invocando a conjuntura interna e as repercussões da longa guerra civil na Síria no seu país. Para Hariri, a intervenção do Hezbollah no conflito sírio é um fator inadmissível e corresponde a um envolvimento libanês nesta guerra.

Na ocasião, Saad recordou o assassínio do pai, Rafic Hariri, num atentado em 2005, num outro momento tenso da conjuntura política libanesa, e afirmou estar a ser alvo de tentativa semelhante. Um tribunal organizado pelas Nações Unidas concluiu pelo envolvimento de elementos do Hezbollah (partido no governo de coligação de Hariri, recorde-se) no atentado que matou Rafic Hariri.

Em território da potência sunita, Saad Hariri acusou o Irão xiita e o seu aliado Hezbollah de desestabilizarem o Líbano e a região. As forças de Teerão e do Hezbollah são um dos pilares militares da resistência do regime de Bashar al-Assad às milícias da oposição. No plano interno, a primeira passagem de Hariri pelo governo de Beirute, em 2011, terminou quando os ministros do Hezbollah apresentaram a demissão, forçando a queda daquele.

A sucessão de acontecimentos em torno do anúncio de Hariri demonstra como muito daquilo que se passa no Líbano e o alinhamento dos principais atores políticos internos estão condicionados por agendas de países terceiros. Na atualidade, das estratégias antagónicas de Riade e Teerão. Os sauditas há anos que insistem não ter o Irão "direito a interferir nos assuntos do mundo árabe" enquanto Teerão procura mobilizar as comunidades xiitas, dos Estados do Golfo ao Líbano, para redesenhar novos equilíbrios regionais.

O conflito intensificou-se com o reforço da influência do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman (conhecido pelas suas iniciais, MbS), nos últimos tempos. Para Bin Salman, a participação, em posição destacada do Hezbollah no governo de Hariri seria o equivalente a aceitar uma forma de hegemonia política do movimento xiita no Líbano, algo inaceitável para a Arábia Saudita. País que é um importante apoio financeiro para Beirute.

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