Fugiram do Boko Haram e agora andam na universidade

Universidade Americana da Nigéria ofereceu bolsas de estudo às jovens que conseguiram escapar depois de terem sido raptadas em 2014 pelo grupo islamita na sua escola em Chibok.

Quando um colega pediu a Margee Ensign para ajudar a irmã, que fora sequestrada pelo Boko Haram do dormitório da sua escola na aldeia de Chibok e escapara, a presidente da Universidade Americana da Nigéria não podia recusar. Ensign decidiu oferecer bolsas de estudo às raparigas que conseguiram fugir aos militantes do grupo islamita depois de este ter raptado mais de 270 alunas em abril de 2014 - a sua ação de maior envergadura em sete anos de rebelião para tentar criar um califado islâmico.

Das 57 raparigas que fugiram depois do ataque noturno no Nordeste da Nigéria, 24 aceitaram a oferta da universidade.

Mas nem todos em Yola, a capital de Adamawa, o estado vizinho de Borno, onde as jovens foram sequestradas, celebraram o seu regresso ao sistema de ensino. "As pessoas (em Chibok) disseram-nos que somos estúpidos por mandarmos as nossas filhas de volta para a escola depois do que aconteceu", disse o pai de uma das raparigas que aceitou uma bolsa, num vídeo gravado no seu primeiro dia de aulas. Assustado com o que acontecera à filha, foi um dos vários pais que ficaram com as raparigas nos dormitórios nas primeiras semanas.

O Boko Haram raptou centenas de homens, mulheres e crianças, matou milhares e obrigou mais de dois milhões a abandonar as suas casas para escapar à rebelião. Mas foi o sequestro das raparigas de Chibok que causou indignação em todo o mundo e esteve na origem da campanha #bringbackourgirls (que popularizou o hashtag "tragam as nossas raparigas de volta"), apoiada por celebridades como a primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama.

Em outubro, os militantes islamitas libertaram 21 raparigas, depois de a Cruz Vermelha e o governo suíço terem chegado a um acordo com o grupo, mas cerca de 200 continuam desaparecidas.

Receios e dúvidas

Margee Ensign, uma académica americana que antes trabalhou como conselheira dos governos do Uganda e do Ruanda, contou à Reuters como algumas raparigas chegaram ao campus em agosto de 2014, muitas delas nervosas e com dúvidas sobre voltar a estudar. "Levámo-las até à praça do mercado e elas estavam muito assustadas", recordou agora à Reuters a americana que ainda não esqueceu a ida ao centro comercial com as raparigas no autocarro da escola. "Elas não queriam sair do autocarro sozinhas... por isso levámos umas quantas de cada vez."

Enquanto as raparigas se iam gradualmente habituando à vida na universidade - mantendo-se juntas à procura de conforto e apoio, e usando os telemóveis e computadores para manterem o contacto com as famílias -, voltar às aulas foi um desafio para muitas delas. "Quando cheguei aqui, fiquei em choque", conta Glory, de 18 anos. "Perguntei: "isto é a Nigéria?" Achei que não ia conseguir por causa do que aconteceu em Chibok", disse à Reuters por Skype.

A adolescente, que com 56 colegas de sala saltou de um camião usado pelos combatentes do Boko Haram, persegue agora o sonho de estudar Medicina. "Quero ser médica para ajuda a minha comunidade em Chibok... não temos médicos qualificados", explica Glory.

Mas muitas das raparigas de Chibok não sabiam ler e escrever de forma fluente quando chegaram à universidade, explicam os funcionários. "Era como se precisassem de apoio especial", afirma Ensign.

"O passado é o passado"

Para compatibilizar as habilitações literárias diferentes, a universidade criou um programa especial para as raparigas - em vez de as enviar simplesmente de volta à sua escola secundária - e dividiu-as em aulas de vários níveis: iniciado, intermédio e avançado.

Na New Foundation School (NFS), as raparigas são testadas frequentemente para avaliar se estão prontas para ir para a universidade. Mas também são incentivadas a falar em público, fazer desporto e outras atividades extracurriculares. "Não queremos que continuem a ser chamadas raparigas de Chibok", afirma Reginald Braggs, vice-reitor da universidade. "Inventámos este nome para elas perceberem que o passado é o passado."

As raparigas têm o seu próprio dormitório e um piso só para elas, mas têm convivido com os outros estudantes. "Ninguém nos trata de forma estranha", garante Martha, de 19 anos, que em setembro saiu da NFS para a universidade onde está a tirar a licenciatura em Ciência Naturais. "Tenho muitos amigos."

Mas acontecimentos como a morte de familiares às mãos do Boko Haram e o aniversário do seu sequestro acabam por reabrir velhas feridas e perturbar as raparigas. "O primeiro aniversário foi difícil... elas estavam inconsoláveis", explicou Ensign, acrescentando que a universidade oferece apoio psicológico às raparigas. "Mas no final estávamos todos de mãos dadas e a rezar."

As raparigas - seis das quais já passaram da NFS para a universidade para estudar Direito, Medicina ou Informática - garantem todas quererem regressar a Chibok e ajudar a reconstruir a comunidade quando terminarem os estudos.

Mas os amigos e familiares na aldeia acham que a forma como as raparigas agem e falam mudou. "As pessoas têm inveja e perguntam-nos: "Porque estás a agir assim? Não és de Chibok? Estás a portar-te como se fosses americana"", conta Glory, antes de acrescentar: "Nós explicamos que é para isso que andamos na escola!"

Jornalista da Reuters

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG