Forças internacionais e afegãs mataram mais civis que os talibãs em 2019

O relatório das Nações Unidas sobre o primeiro semestre deste ano revela que a maioria das baixas civis decorreram de operações da Aliança Atlântica e das forças nacionais contra os extremistas.

O número de civis afegãos mortos pelas forças da NATO e de Cabul é superior às vítimas dos talibãs e de outros grupos extremistas no Afeganistão, refere um relatório das Nações Unidas sobre o primeiro semestre de 2019.

A maior parte das baixas entre os civis ocorreram durante operações da Aliança Atlântica e das forças nacionais contra os extremistas, nomeadamente, em bombardeamentos aéreos e operações noturnas. O relatório da ONU indica que os extremistas se escondem frequentemente em zonas habitadas por civis.

De acordo com o documento elaborado pela missão das Nações Unidas no Afeganistão, 403 civis foram mortos pelas forças afegãs nos primeiros seis meses do ano e 314 pessoas pelo contingente militar internacional. No mesmo período 513 civis foram mortos pelos talibãs e pelos grupos ligados ao Estado Islâmico e outras forças extremistas.

O relatório indica que 300 pessoas foram "diretamente alvejadas" pelos extremistas frisando que os talibãs atuam diariamente, sobretudo contra as forças de segurança afegãs. Os talibãs rejeitam os pedidos de cessar-fogo no quadro das conversações com os Estados Unidos que pretendem uma solução para o conflito que se prolonga há 18 anos.

No terreno, o grupo extremista Estado Islâmico lançou recentemente uma série de ataques que atingiram as forças de segurança afegãs e a população da minoria xiita.

Ainda não se conhece qualquer reação nem do governo de Cabul, nem dos militares afegãos ou da coligação internacional sobre o relatório das Nações Unidas.

Apesar de os Estados Unidos terem anunciado em 2014 o fim das missões de combate no país ainda se encontra envolvido em ações aéreas além do apoio prestado às forças nacionais e à coligação internacional. "As partes envolvidas no conflito vão explicar de forma diferente os recentes números. Cada uma das partes vai justificar-se com as táticas militares adotadas", disse Richard Bennet, chefe do departamento de Direitos Humanos da Missão da ONU no Afeganistão, que elaborou o relatório.

O mesmo responsável acrescentou que devem ser criadas condições para reduzir a intensidade dos combates que acabam por afetar os civis afegãos.

O relatório refere também que reduziu o número de civis mortos e feridos, entre janeiro e junho de 2019, comparando com igual período de 2018, um ano marcado pelo aumento da violência. Este ano, o número de civis atingidos pelos talibãs reduziu 43% em relação ao primeiro semestre de 2018.

O relatório especifica que uma em cada três baixas civis foi provocada por combates terrestres e que um quinto das baixas foi causado pela explosão de engenhos explosivos colocados geralmente junto às estradas.

As operações aéreas são responsáveis por 14% das baixas entre a população civil.

Entretanto, continua por reivindicar o ataque de domingo à noite que aparentemente tinha como objetivo atingir o gabinete do candidato às presidências afegãs, antigo chefe dos serviços de informações de Cabul.

O candidato, Amrullah Saleh, foi retirado da zona do ataque que fez pelo menos 20 mortos e cerca de 50 feridos. Saleh é conhecido pelas ações contra os talibãs.

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