"Vai Joe, vai". Foi gafe ou Biden anunciou que quer ser candidato contra Trump?

"Sou o mais progressista de todos os que estão na corrida", disse o ex vice-presidente dos EUA. Joe Biden, num jantar-comício no Delaware este sábado. Perante o clamor da sala, emendou-se: "De quem quer que concorra." E, sorrindo, acrescentou: "Não queria dizer aquilo." Disse o suficiente, porém, para adensar as suspeitas de que vai mesmo concorrer à nomeação com que sonha desde 1974.

Vai, Joe, vai. Os gritos de encorajamento da audiência de cerca de mil militantes democratas que na noite de sábado se juntaram num jantar-comício em Dover, no Delaware, o estado que o vice de Obama, Joe Biden, representou durante mais de três décadas no Senado, não deixaram dúvidas sobre a interpretação da frase.

"Dizem que sou criticado pela nova esquerda. Sou o mais progressista de todos os candidatos à presidência." De facto, não haveria muitas interpretações possíveis: Biden estava a dizer ser o mais progressista dos candidatos, o que teria de significar que aos 76 anos ia entrar na corrida, depois de em 2016 não o ter feito devido à morte de um filho. Mas mal a sala veio abaixo retificou: "De todos os que serão candidatos." Acrescentando, com um sorriso, "não fiz de propósito."

Desde 2017 que Biden está a repetir que acha que teria ganhado a presidência a Trump se não tivesse desistido da corrida devido à morte do filho mais velho em 2015.

Não é a primeira vez que Biden fala de si como o melhor candidato. Há dois anos, disse, num encontro numa universidade nova-iorquina, que crê que se tivesse entrado na corrida para a nomeação democrata em 2016 tê-la-ia ganhado -- e à presidência. "Acho que poderia ter ganhado", respondeu à pergunta do reitor da universidade sobre se lamentava não ter concorrido. Afirmando ser "mais qualificado que os outros candidatos", acrescentou: "Estava bastante confiante de que se fosse o candidato do Partido Democrata teria uma boa chance de ser presidente." O filho mais velho, Beau Biden, morreu de cancro cerebral em maio de 2015; em outubro, Biden, que terá ponderado entrar na corrida, chamou a imprensa à Casa Branca para anunciar que não se candidatava.

O sonho desde 1974 e a promessa ao filho morto

Segundo o Washington Post , Biden, que já concorreu duas vezes, sem sucesso, à nomeação democrata (em 1988 e 2008, quando acabou por ser escolhido por Obama para o seu "ticket"), tem a ambição de ser presidente desde 1972, quando conquistou um lugar no Senado. "Sei que posso ser um bom presidente," disse numa entrevista à Washingtonian magazine em junho de 1974. Aos 31 anos, não tinha sequer idade para concorrer (o mínimo é 35). Agora, se concorresse e ganhasse, seria o mais idoso de todos os presidentes a ocupar a Casa Branca -- terá 78 anos pouco depois da data das eleições. O que é mais do que Reagan tinha após terminar os seus dois mandatos. Mas menos do que terá Bernie Sanders que, nascido em setembro de 1941, tem 77 e já lançou a sua candidatura.

Sendo candidato e ganhando, Biden seria, com 78 anos, o mais velho presidente a entrar na Casa Branca. Não tanto como Sanders, que teria 79.

E a verdade é que se desde 2017 que Biden parece perfilar-se como candidato. Nesse ano lançou um livro de memórias dedicado ao filho morto, cujo título - Promise me, Dad -- parece insinuar a existência de uma promessa a cumprir. Aliás, numa entrevista à Vanity Fair a propósito do livro, ele e a mulher falam insistentemente de que Beau (fruto do primeiro casamento de Joe, que terminou tragicamente em 1972, com a morte da mulher e de uma filha de 13 meses num acidente de automóvel, pouco depois de ele ser eleito senador; Beau e a irmã mais nova Hunter também iam no carro, mas ficaram apenas feridos) quereria que "andassem para a frente".

No final do texto, lê-se: "Jill Biden disse-me que, por estes dias, ela e o marido estão focados em avançar. Parte disso é, diz, perguntarem-se "que quereria Beau que fizéssemos? Ele não quereria que o chorássemos todo o tempo, embora o façamos. Portanto, avançando, que quereria Beau que Joe fizesse? Pode provavelmente responder a essa questão." O jornalista contrapõe com o facto de terem uma bela casa de praia e de parecerem saborear poderem voltar a ter vida privada. E pergunta se, na capacidade de esposa, Jill não está inclinada a dizer ao marido, "toma conta de ti. Goza a vida. Talvez devas abrandar." A última linha do artigo é a descrição da reação dela: "Fixou em mim um olhar significativo: "Compreende o que "gozar a vida" significa para Joe?""

"Ele tem quase a certeza de que vai concorrer"

Certo é que acordo com os relatos do comício de sábado Biden teve um discurso muito "pré-candidatura", atacando repetidamente o presidente Trump por fomentar divisão e ódio e lamentando que a "nova esquerda" do seu partido o critique por ser cordial com os republicanos: "A única coisa capaz de destruir a América é a própria América, e estamos a ver o início disso", afirmou. Frisou que Trump está a abandonar os aliados e a retirar os EUA do seu lugar de líder no palco mundial e que não é coincidência que a expressão "fake news", que o presidente adora usar, se tenha tornado "a frase preferida de todos os déspotas que aterrorizam os seus povos.". E concluiu: "Estamos literalmente numa batalha pela alma da América."

Antes do discurso de Biden, Chris Coons, o senador democrata pelo Delaware, tinha dito aos repórteres que Biden lhe confidenciara que "tem quase a certeza de que vai concorrer". E no seu próprio discurso, antes do do principal convidado, afirmou estar certo de que "daqui a 598 dias estaremos juntos a comemorar a eleição de um novo comandante supremo das forças armadas."

Já o governador do Delawere, John Carney, garantiu: "Não parece só que voltou. Parece que está pronto para a luta."

Recorde-se que mais de uma dúzia de democratas lançaram já a sua campanha formal à nomeação do partido para as presidenciais de 2020. Além do candidato derrotado por Hillary Clinton em 2016, Bernie Sanders, e da senadora do Massachusetts Elizabeth Warren, ambos considerados da esquerda democrata, contam-se ainda na corrida Kamala Harris, senadora pela California, a primeira mulher de origem afroamericana e índia a chegar ao Senado, e o recém anunciado Beto O'Rourke, ex congressista pelo Texas que surge como um "moderado". Ou seja, do campo de Biden, cujo tabu está a arrastar-se.

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