Fidel inspirou uma lista de livros que rivaliza com a de Jesus Cristo

O líder cubano gostava de fazer discursos de sete horas que davam para vários livros. Mas a mística de um passado verdadeiramente revolucionário foi matéria-prima suficiente para uma hagiografia que forjou a sua imagem para a posteridade, mesmo que a lista de livros críticos seja gigantesca.

Fidel Castro há muito seduz os autores de livros, sejam investigadores e historiadores sejam jornalistas ou, na maior parte, escritores que se sentiram tocados pela mística do revolucionário cubano que depôs Fulgencio Batista em 1959 e pôs a ilha sob o regime socialista.

Se há figura pública que seja devassada constantemente em livros é Castro, que estará no grupo de personalidades que rivalizam com Jesus Cristo - o mais biografado - na quantidade de obras que inspirou. Uma situação que, após a sua morte, decerto será palco de um revivalismo a nível editorial dos volumes que mais sucesso têm tido e que deverá ver, finalmente, serem publicados os livros mais cáusticos no balanço de décadas à frente do poder nas Caraíbas.

A lista infindável de livros sobre El Comandante pode dividir-se em três grandes áreas: a favor, contra e honestos. Neste último caso, a lista não será tão extensa como nos apologéticos ou críticos, já que Fidel Castro sempre inspirou mais amor ou ódio do que verdadeiro interesse investigatório. E mesmo obras com uma profundidade como a que o governante cubano escreveu a meias com o jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet passaram pelo seu crivo censório. Nada que obste a que Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes não se torne o grande livro sobre o político, só traído na importância com as declarações posteriores e hiperpolémicas sobre a desilusão cubana que Oliver Stone lhe conseguiu extorquir.

A Biografia a Duas Vozes resulta de cem horas de entrevistas, concedidas quando Castro ia a caminho de completar os 80 anos, nas quais Ramonet debate com o entrevistado muitas das questões fundamentais para um desenho mais exato da posteridade do líder cubano. Por estas páginas passa toda a vida de Castro, desde a sua educação nos jesuítas e o ser filho ilegítimo de um grande latifundiário cubano, antes de abraçar a guerrilha. Se o entrevistado comenta a relação conturbada com Che Guevara e descreve a história da revolução, é na defesa das acusações sobre a perseguição a dissidentes e na proibição de emigração de cubanos insatisfeitos que se encontram novidades nas suas declarações. Existem também esclarecimentos definitivos sobre a relação com a ex-União Soviética, desde a "crise dos mísseis" até à derrocada do URSS; a relação com os países vizinhos da América Latina e do inimigo norte-americano, bem como a atuação em países africanos para se tornarem independentes e as tentativas de assassínio de que foi vítima.

Entre os relatos que desmitificam Fidel há um que se destaca, o de Norberto Fuentes, um seu companheiro de armas que ficou desiludido com o descaminho da revolução. O seu testemunho intitula-se Autobiografia de Fidel de Castro e pretende refazer a vida do dirigente como se o autor falasse em nome do próprio. Mesmo sendo o olhar de quem escapou a ser fuzilado e fugiu da ilha, o facto de ter sido um dos mais próximos de Fidel permitiu-lhe escrever aquele que muitos consideram ser a biografia definitiva. O que Fuentes descreve na primeira pessoa percorre a vida de Fidel desde a infância até há pouco anos, mas ressalta os lados obscuros desde a concentração em Sierra Maestra, o ataque final ao quartel de Moncada e o longo dia-a-dia da revolução cubana. O autor não esconde que, para lá do conhecimento próprio, teve acesso a muitos documentos dos serviços secretos cubanos e das agências norte-americanas, tal como aos bastidores das grandes decisões do líder para alterar o quadro geopolítico mundial.

Outra investigação a ter em conta é o romance realista de Serge Raffy, Fidel Castro, em que os casos pessoais dominam, quer sobre as suas paixões anónimas, os filhos não assumidos e o ódio à família e aos homossexuais. Também o ex-embaixador inglês Leycester Coltman, que privou com o dirigente, publicou O Verdadeiro Fidel Castro, um volume que opta por mostrar as contradições do líder no que respeita à vida pública e à privada. Outro diplomata que teve acesso a Fidel foi o português José Manuel Fafe, que escreveu um livro sobre os tempos passados na ilha e conta os pormenores de encontros com o dirigente, como os de quando era chamado a meio da madrugada para conversar.

Se o número de livros sobre Fidel Castro é grande, há um título do próprio que é incontornável para entender o líder: A História Absolver-Me-á. Trata-se de um livro que deriva da sua autodefesa em tribunal, aquando da sua prisão por tentar derrubar o governo cubano de então, e que desde 1954 teve dezenas de edições - muitas clandestinas - na ilha e em todo o planeta. Outro livro seu, de 2010, intitula-se Por Todos os Caminhos da Sierra: A Vitória Estratégica, um calhamaço de memórias com quase mil páginas, que aguarda um prometido segundo tomo. Não esquecer o da filha Alina Fernández, que em Memórias da Filha de Fidel Castro revela como só soube que Fidel era seu pai aos 10 anos. Relata a sua própria vida num cenário de um pai prepotente e de uma mãe que passa de burguesa a revolucionária por interesse do regime, num ótimo exemplo da história privada.