Mexicanos pedem justiça para Fátima, quer em manifestações de rua, quer nas redes sociais.

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Fátima, 7 anos, abusada e torturada. A morte que está a chocar o México

Criança foi levada da porta da escola por uma mulher que terá dito às autoridades que o marido queria uma "namorada jovem". E para evitar que ele não abusasse das próprias filhas.

Fátima tinha sete anos, feitos em janeiro, e estava à espera da mãe à porta da escola. Mas a mãe ficou presa no trânsito, não chegou a tempo, e a menina foi levada por uma mulher que supostamente conhecia. Não havia câmaras de videovigilância em todo o percurso que as duas fizeram e a criança esteve desaparecida até sábado passado, dia em que foi encontrada morta dentro de um saco de plástico com sinais de tortura. Mas as imagens que existem mostram as duas a caminhar tranquilamente, de mão dada, a mulher a carregar a mochila da menina. O homicídio de Fátima chocou o México, como chocam todos os homicídios de crianças, e acendeu ainda mais o debate e os protestos contra os feminicídios que assolam o país, onde o assassinato diário de mulheres e raparigas é uma trágica realidade.

Os dois suspeitos do crime foram detidos na noite de quarta-feira, dia 19. Trata-se de um casal - Gladis Giovana Cruz Hernández e Mario Alberto Reyes Nájera. A mulher terá dito às autoridades que raptou a menina porque o marido queria uma "namorada jovem". Segundo Giovana, depois de lhe entregar a criança, Mario vestiu-a com roupas que havia comprado e pintou-lhe as unhas.

Giovana deu outra razão para ter raptado Fátima: impedir que o marido cumprisse as ameaças de abusar sexualmente dos seus próprios filhos - o casal tem três filhos pequenos, duas são raparigas. E dois deles frequentam a escola primária Enrique Rébsamen, no bairro de Xochimilco, no sul da Cidade do México, a mesma escola de Fátima.

Na sua confissão, a mulher terá ainda dito que estrangulou Fátima com um cinto. O corpo foi abandonado perto da escola de onde foi levada, que é próxima da casa da família de Fátima, no bairro de Tulyehualco, a sul da Cidade do México.

Mãe diz que mulher lhe alugou um quarto

A mãe da menina, Magdalena Anton, contou que Giovana alugou um quarto na sua casa - não se sabe há quanto tempo - para escapar à violência que o marido exercia sobre ela. Também não se sabe se foi um estratagema para se aproximar da criança. A polícia está a investigar a veracidade desta informação e se houve problemas entre as duas mulheres.

"Ela morava aqui em casa. Não acho que ela fosse capaz de o fazer. Tem duas meninas e nunca a vi maltratá-las. Por isso, duvido que tenha tirado a vida da minha filha. Não conhecia o marido dela e não sei por que razão ela retaliaria contra a minha filha", disse na quinta-feira a mãe de Fátima, citada pelo El Universal.

A polícia difundiu as imagens de Giovana a caminhar pela rua de mão dada com Fátima, o que permitiu que fosse identificada pelo seu senhorio, que a denunciou. E foi depois disso que as autoridades revistaram um apartamento, na zona de Xochimilco - embora o casal já tivesse fugido, foram encontradas fotografias, os sapatos e a camisola de Fátima, bem como as roupas que a suspeita vestia no dia em que sequestrou a criança à porta da escola, segundo a BBC.

Foi também anunciada uma recompensa de cerca de 100 mil euros para quem denunciasse o seu paradeiro.

Manifestações de rua e nas redes sociais

O caso comoveu o país, houve manifestações e as redes sociais foram invadidas por uma campanha ainda na esperança de encontrá-la viva. Depois de o seu corpo ter aparecido, as hashtags #Fátima e #JusticiaparaFatima invadiram o Twitter. Com muita gente a criticar a atuação da polícia no caso.

A família de Fátima critica as autoridades por se terem recusado a receber a queixa do desaparecimento da criança antes de terem passado 24 horas. Argumentam que, se as buscas tivessem começado logo, Fátima poderia ter sido encontrada com vida.

"Se eles nos tivessem dado mais apoio, a minha filha ainda estaria viva", censurou a mãe de Fátima, acrescentando que só conseguiu registar a queixa no dia seguinte ao sumiço.

Dez mulheres mortas todos os dias

A trágica morte de Fátima aconteceu numa altura em que os mexicanos protagonizam uma forte onda de indignação pelo assassinato, na semana passada, de Ingrid Escamilla, de 25 anos, morta e desmembrada pelo parceiro.

De acordo com a BBC, uma média de 10 mulheres ou meninas são assassinadas todos os dias no México.

O país vive ainda a braços com um elevado número de desaparecidos - o mais recente balanço governamental apontar para mais de 60 mil mexicanos com paradeiro incerto. Muitos destes casos têm ligação ao crime organizado.

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