De novo acordo a segundo referendo: cenários de Brexit para todos os gostos

A incerteza após a derrota do acordo de Brexit mantém-se, desconhecendo-se qual será o caminho a seguir pela primeira-ministra britânica, que enfrenta hoje uma moção de censura no Parlamento. Farage fala num segundo referendo e numa vitória ainda maior para o Brexit.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, pode ter que encontrar uma alternativa para o seu plano de Brexit para conseguir romper o impasse parlamentar e sair da União Europeia, disse a líder dos conservadores no Parlamento, Andrea Leadsom, à BBC, reiterando que não há planos para adiar essa saída nem para a cancelar. Nigel Farage, que liderou a campanha do Brexit, avisa que a vitória do Brexit será ainda maior caso haja um segundo referendo.

"Acho e temo que estamos a caminho de um adiamento do Brexit e provavelmente, sim, um segundo voto". As declarações foram feitas à Sky News. Mas Farage, ex-líder do UKIP, mostra-se confiante, dizendo que num segundo referendo, o Brexit ganharia com uma maioria ainda maior.

"Os britânicos podem ser um povo tranquilo, muito relaxado, mas prometo-vos: se foram pressionados, será um leão que rugirá. Seremos ainda mais desafiadores se tivermos que lutar num segundo referendo e vamos ganhar com uma maioria ainda maior", referiu mais tarde no Parlamento Europeu.

Farage defende uma saída sem acordo e deixou o aviso aos eurodeputados e ao presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani. "Senhor presidente, você diz que não há apoio para uma saída sem acordo, mas vocês todos pensavam que não havia apoio para um Brexit em primeiro lugar. Você ficaria surpreendido ao ver quão rapidamente a opinião está a mudar", acrescentou.

Um grupo de 71 deputados trabalhistas já pediu ao líder do Labour, Jeremy Corbyn, para apoiar um segundo referendo sobre o Brexit, admitindo que as suas exigências para uma renegociação com a União Europeia "não são realísticas".

Negociar um novo acordo e deixar cair linhas vermelhas

"O que precisamos de fazer é encontrar uma forma de o acordo de May ou alguma parte dele ou um acordo alternativo que seja negociável possa ser levado depois à União Europeia para conseguirmos o Brexit a 29 de março", afirmou Leadsom, cujo cargo equivale ao de ministra para os Assuntos Parlamentares.

"A primeira-ministra não vai necessariamente estar à procura de novas ideias que ninguém pensou antes, mas à procura de um consenso, uma nova iniciativa para encontrar uma solução que é negociável com a União Europeia e que consiga uma maioria no Parlamento", acrescentou à BBC, criticando o líder da oposição, Jeremy Corbyn, por não apresentar alternativas.

"Ele teve a oportunidade de apresentar as suas propostas. Ele não tem nenhuma e o que procura é perturbar o governo e o país num momento crucial, ao procurar eleições gerais", disse Leadsom. "A primeira-ministra vai procurar contactar com as pessoas de vários âmbitos que querem falar de forma construtiva", acrescentou.

A ideia de que May poderá não tentar chegar a acordo com Corbyn está a ser criticada pelos trabalhistas. O ex-líder do Labour, Ed Miliband, escreveu no Twitter: "Recusar falar com o líder da oposição e manter as linhas vermelhas será uma falha lamentável. Insto firmemente a primeira-ministra a tentar fazê-lo."

Também o principal negociador do Brexit no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt, defende o diálogo. "Não me cabe a mim, um simples belga, dar lições aos britânicos sobre o que fazer, mas penso que é hora de o interesse nacional se sobrepor a políticas partidárias e redefinir as linhas vermelhas do Partido Conservador. Estamos prontos para isso", escreveu no Twitter.

Michael Dodds, líder do Partido Unionista Democrático no Parlamento britânico, disse acreditar que May ainda vai conseguir "resgatar" o seu acordo. E reiterou que o partido da Irlanda do Norte, que garantiu o apoio parlamentar necessário para May formar governo após ter perdido a maioria nas eleições de 2017, vai votar contra a moção de censura. Isto apesar de ter também votado contra o acordo de Brexit.

"Não acho que uma extensão do Artigo 50 seja inevitável e não é na minha opinião necessário porque a União Europeia pode atuar quando quer. Acho que pode ser feito e lembre-se, no backstop [mecanismo de salvaguarda], as pessoas querem garantir que não estamos presos a ele", afirmou à BBC.

Nicola Sturgeon pede adiamento do prazo do Brexit

A líder do governo escocês e líder do Partido Nacionalista Escocês, Nicola Sturgeon, defende que a primeira-ministra britânica deve pedir o adiamento do prazo do artigo 50 do Tratado de Lisboa, de forma a evitar um Brexit sem acordo. Sturgeon revelou, numa entrevista à Sky News, que falou com May ao telefone, mas que a primeira-ministra não parece saber o que vai fazer.

"Não me parece que May tenha uma ideia clara do caminho a seguir, nem me pareceu estar aberta a uma mudança fundamental na abordagem, de deixar cair as suas linhas vermelhas e abrir espaço para alternativas", indicou.

O SNP vai votar a favor da moção de censura ao governo de May, que Sturgeon apelida de "o mais incompetente da sua vida". Contudo, admitindo que esta pode não ser bem sucedida, a líder do governo escocês disse esperar que sirva pelo menos para alguma clarificação em relação à posição do Partido Trabalhista e voltar a pedir o voto dos deputados.

"O que é importante para já, porque não há tempo a perder, é um pedido para alargar o artigo 50 e evitar o risco de um Brexit sem acordo", afirmou Sturgeon.

"Cabe aos britânicos dizerem o que querem"

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, avisou que o tempo está a contar e apelou aos britânicos para tomarem uma decisão. "Cabe agora aos britânicos dizerem o que querem", disse aos jornalistas em Haia. "Ainda temos um pouco de tempo, mas vai ser mesmo até à última", acrescentou, dizendo esperar ainda ser possível um acordo antes de 29 de março.

Para Rutt, um Brexit sem acordo é pior do que um com acordo. "O que a Holanda está a fazer é a tentar garantir que os danos são minimizados", afirmou.

Na Alemanha, o ministro da Economia, Peter Altmaier, defende que "a União Europeia deve permitir mais tempo para encontrar uma posição clara da parte do Parlamento e do povo britânico", dizendo que pessoalmente acha que esse é um pedido razoável.

Já o chefe da diplomacia, Heiko Maas lembrou que "o tempo para brincadeiras acabou", acrescentando contudo que a União Europeia deve lidar de forma "construtiva" com qualquer pedido do Reino Unido em relação ao adiar do Brexit.

Moção de censura

Após a derrota histórica do seu acordo, a primeira-ministra britânica enfrenta hoje uma moção de censura no Parlamento britânico, pedida pelo líder do Labour e por outros pequenos partidos.

Apesar de 118 deputados conservadores terem votado contra o seu acordo, os media britânicos apostam que May sobreviverá a este desafio, visto que até o grupo que quis afastá-la da liderança do partido já ter dito que a vai apoiar. "Vou apoiar a primeira-ministra", disse Jacob Rees Mogg, líder do European Research Group, grupo conservador pró-Brexit.

Também o DUP, que votou contra o acordo, vai apoiar May. Nesse caso, a primeira-ministra já disse que irá manter encontros com membros de outros partidos para determinar como avançar no Brexit, depois de o seu acordo ter sido rejeitado. May vai apresentar na segunda-feira a sua alternativa.

No entanto, se a moção de censura vingar, há 14 dias para os conservadores apresentarem novo governo. Theresa May tanto pode tentar formar novo executivo como pode passar o testemunho a outra pessoa do partido. Nesse caso, os partidos da oposição também poderiam apresentar alternativas, embora não se vislumbre, perante o atual quadro de deputados, que essa hipótese vingue.

May pode também pedir novas eleições, mas para tal precisa do apoio de dois terços dos deputados. Até agora, a líder dissera que convocar novas eleições não era solução.

(Notícia atualizada às 11.20 com declarações de Nicola Sturgeon e pedido de deputados trabalhistas para que Jeremy Corbyn apoie um segundo referendo)

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