"Facada nas costas" de Trump aos curdos ajuda Erdogan mas também Assad

A especialista em Médio Oriente, Maria João Tomás, lembra ao DN que esta situação interessa aos turcos, mas também ao próprio presidente sírio, Bashar al-Assad, porque "sem mexer uma palha" consegue controlar um dos seus principais inimigos, os curdos.

Uma "facada nas costas". Foi desta forma que as forças curdas que ajudaram os EUA a combater o Estado Islâmico no norte da Síria apelidaram a decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de retirar os seus militares da região. Uma jogada que abre caminho a uma ofensiva turca, que o presidente Recep Tayyip Erdogan já disse ser iminente. Ancara considera os curdos como terroristas.

Trump defendeu no Twitter o anúncio da retirada feito no domingo pela Casa Branca (contra os conselhos do Pentágono e do Departamento de Estado) e que já está em marcha desde segunda-feira. O presidente norte-americano disse que "é hora de sair destas ridículas guerras intermináveis", alegando que os curdos "receberam quantidades enormes de dinheiro e equipamento" para combater ao lado dos EUA. E que cabe agora à Turquia, à Europa, à Síria, ao Irão, ao Iraque, à Rússia e aos curdos "resolver a situação" na região.

"O anúncio foi uma surpresa e podemos dizer que foi uma facada nas costas para as Forças Democráticas da Síria", disse um dos porta-vozes do grupo Kino Gabriel à estação de televisão Al-Hadath, lembrando que Washington tinha garantido que não iria permitir operações militares turcas contra a região. Com a ajuda dos EUA, a FDS reconquistaram em março o último bastião da Síria.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, já reiterou que uma ofensiva no norte da Síria pode acontecer a qualquer momento e nas últimas semanas tinha vindo a reforçar o contingente na fronteira. "Há uma frase que repetimos o tempo todo: podemos entrar não importa que noite sem avisar. Está absolutamente fora de questão para nós tolerar mais as ameaças provenientes destes grupos terroristas", afirmou.

Para Ancara, a principal milícia curda dentro das Forças Democráticas da Síria (FDS), a YPG (Unidade de Proteção do Povo), é um grupo terrorista, uma extensão do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). O PKK, que luta há anos por um estado autónomo dentro da Turquia, também está na lista das organizações terroristas da União Europeia (desde 2002).

A aliança curda diz que irá defender o seu território e que a saída dos EUA arrisca tornar a região uma zona de guerra, abrindo caminho ao renascer do Estado Islâmico. Na luta contra o ISIS, terão morrido 11 mil combatentes curdos em cinco anos de combates, segundo a FDS. As Nações Unidas temem uma nova crise humanitária.

"Os curdos têm razão para estar preocupados", disse ao DN a especialista em Médio Oriente, Maria João Tomás. "As tropas norte-americanas eram um garante da sua própria segurança, porque Erdogan está muito interessado e sempre mostrou declaradamente que quer controlar ou até anexar o Curdistão da Síria, porque é um empecilho para a política dele, uma ameaça em termos políticos e securitários", acrescentou a professora da Universidade Autónoma.

Da mesma forma, a situação interessa ao presidente sírio, Bachar al-Assad, explica Maria João Tomás, já que afasta os EUA e mantém na mesma os curdos, seus inimigos, controlados. "Só os curdos é que perdem, mais ninguém", referiu.

Os curdos são um dos povos mais antigos de que há memória, sendo já mencionados nos registos escritos da Suméria, há mais de cinco mil anos, lembrou a especialista Maria João Tomás num artigo publicado em 2014 no DN.

A região histórica do Grande Curdistão divide-se atualmente entre Síria, Iraque (onde têm um estado autónomo), Turquia e Irão, tendo os curdos a sua própria língua, cultura e identidade. Após várias guerras sangrentas de procura pela independência, os curdos foram perdendo terreno até a nível político, com a ilegalização de partidos. Na Síria, nem sequer eram reconhecidos como etnia.

No meio da guerra civil da Síria, as Forças Democráticas Sírias (SDF, dominadas pela milícia curda YPG) expandiram o seu controlo ao longo do norte e leste da Síria, ajudando a coligação norte-americana contra o Estado Islâmico. Os curdos criaram os seus próprios órgãos de governo, insistindo que querem autonomia (não independência).

Na Síria, os grandes aliados eram até agora os EUA e Israel, disse Maria João Tomás ao DN, lembrando que este último enfrenta os seus próprios desafios internos neste momento, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sem conseguir formar governo e a responder por corrupção.

"É uma situação que também é um fator de grande preocupação", indicou a professora, explicando que por isso o que está a acontecer no Curdistão não é mais preocupante para um país que tem laços económicos com os curdos. "Há muito petróleo do Curdistão iraquiano, mas também do sírio, que é vendido diretamente para Israel", referiu, dizendo que haverá uma reação com cautela da parte de Israel devido aos problemas internos.

O objetivo de Erdogan é lutar contra os combatentes curdos na região fronteiriça entre os dois países e criar uma "zona segura" para os refugiados sírios que atualmente vivem na Turquia. No total, vivem neste país cerca de 3,6 milhões de sírios, sendo a ideia do presidente turco reenviar dois milhões para a "zona segura". Erdogan mostrou um mapa dessa região na última Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Erdogan explicou na Assembleia Geral da ONU, em setembro, que quer uma "zona segura" de 32 quilómetros a partir da sua fronteira para os refugiados sírios, aproveitando também para afastar a milícia curda YPG (Unidades de Proteção do Povo). E não afastou a hipótese de ir até mais longe na sua incursão.

O presidente turco queria o apoio de Washington para o estabelecimento da "zona segura" (e Trump chegou a apoiar essa ideia), mas disse que avançaria sozinho caso os EUA não tomassem uma posição. Trump decidiu que devem ser os turcos a criar essa "zona segura".

A confirmar-se uma ofensiva turca na Síria seria a terceira desde 2016. Nesse ano, os turcos agiram contra o Estado Islâmico. Na segunda, em 2018, contra a YPG.

Até onde os norte-americanos vão recuar pode ditar o eventual avanço dos turcos, abrindo caminho ao reaparecimento do Estado Islâmico ou de forças a ele associadas, assim como das forças apoiadas pelos iranianos e russos de ganhar terreno na Síria.

Russos e iranianos apoiam o presidente sírio, Bashar al-Assad, ao contrário dos EUA e da Turquia que têm pedido que se afaste e apoiaram os rebeldes que o procuraram derrubar. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse nesta segunda-feira que a integridade territorial da Síria tem de ser preservada e que todas as forças militares estrangeiras "com presença ilegal" devem deixar a Síria. Assad, com o apoio dos russos, pode tentar controlar de novo a região.

"Temos de olhar com a visão da águia, de cima, para perceber o que se está a passar. Para Assad é importante ter paz com a Turquia e também lhe interessa que o Curdistão esteja controlado, porque o Curdistão é um fator de estabilização em termos securitários e estabilização política", disse Maria João Tomás.

"Estando lá as forças norte-americanas era um fator de maior preocupação para Assad, porque as tropas norte-americanas mantinham os interesses curdos. Agora, abrindo caminho para os interesses turcos controlarem aquela zona, vai facilitar que um dos inimigos de Assad, que são os curdos, fique controlado", acrescentou.

"Os russos ou iranianos só vão interferir se for para ajudar a silenciar os curdos, porque a nenhum deles lhes interessa os curdos", explicou. "Assad, sem mexer uma palha, está a controlar um dos seus principais inimigos, os curdos. Inimigo político e económico", concluiu.

Esta não é a primeira vez que Trump diz que vai retirar as tropas do norte da Síria. Em dezembro, o anúncio que fez nesse sentido levantou vozes sobre o abandono dos curdos e levou à demissão, em protesto, do secretário da Defesa, Jim Mattis, assim como do enviado especial dos EUA para a coligação contra o Estado Islâmico, Brett McGurk. O conselheiro de segurança nacional, John Bolton, que defendia que qualquer retirada implicaria um acordo dos turcos de proteção aos curdos, também já saiu. E Trump avança para a retirada.

No Twitter, Trump justificou a sua decisão (tomada após um telefonema com Erdogan) numa série de mensagens. "Era suposto que os EUA estivessem na Síria por 30 dias, isso foi há muitos anos. Ficámos e fomos ficando cada vez mais embrenhados numa guerra sem objetivos à vista", escreveu.

"Quando cheguei a Washington, o Estado Islâmico estava à solta na área. Nós rapidamente derrotámos 100% do Califado do ISIS, incluindo a captura de milhares de combatentes, a maioria da Europa. Mas a Europa não os queria de vota, disseram que os mantivéssemos nos EUA. Eu disse: "não, nós fizemos-vos um grande favor e agora querem que fiquem em prisões norte-americanas com grandes custos. São vossos para julgar", explicou o presidente dos EUA.

Há cerca de 12 mil alegados ex-combatentes do Estado Islâmico em centros de detenção nos campos de detenção controlados pelos curdos. Pelo menos quatro mil são estrangeiros.

"Eles voltaram a dizer 'não', pensando, como habitual, que os EUA são sempre os "idiotas" na NATO, no comércio, em tudo. Os curdos combateram connosco, mas receberam quantidades enormes de dinheiro e equipamento para o fazer. Têm estado a combater a Turquia há décadas. Adiei este combate por quase três anos, mas é hora de sairmos destas ridículas guerras intermináveis, muitas delas tribais, e trazermos os nossos soldados para casa", acrescentou Trump.

"Nós vamos combater onde nos convém e apenas lutar para ganhar. A Turquia, a Europa, a Síria, o Irão, o Iraque, a Rússia e os curdos agora têm de resolver a situação e o que querem fazer com os combatentes do ISIS capturados na sua "vizinhança". Todos odeiam o ISIS, têm sido inimigos há anos. Estamos a sete mil milhas de distância e vamos esmagar o Estado Islâmico outra vez se ele se aproximar de nós!", indicou o presidente norte-americano.

Mais tarde ameaçou a economia turca. "Se a Turquia fizer qualquer coisa que eu, na minha grande e incomparável sabedoria, considere estar fora dos limites, eu destruirei e obliterarei totalmente a economia da Turquia (já o fiz antes!)", escreveu também no Twitter.

"Eles devem, com a Europa e com outros, vigiar os combatentes do ISIS e famílias capturadas. Os EUA fizeram muito mais do que poderiam esperar, incluindo a captura de 100% do califado do ISIS. É tempo de outros na região, alguns de grande riqueza, protegerem os seus próprios territórios. Os EUA são grandes", concluiu.

A decisão de Trump é criticada mesmo entre os seus mais próximos aliados, como o senador Lindsey Graham, que considera que estamos perante um "desastre à espera de acontecer". E quer que o Senado trave a retirada norte-americana, ameaçando a Turquia com sanções caso invada a Síria e uma suspensão da NATO.

"Esta decisão de abandonar os nossos aliados curdos e entregar a Síria à Rússia, ao Irão e à Turquia vai pôr todos os islamitas radicais em esteroides", escreveu no Twitter, lembrando que "nunca é prudente abandonar um aliado que se sacrificou em nosso nome", nem "passar a segurança nacional norte-americana para a Turquia ou outra qualquer nação".

Já a ex-embaixadora das Nações Unidas na ONU Nikki Halley lembrou a importância dos curdos para a vitória contra o Estado Islâmico e avisou de que "deixá-los morrer" era "um grande erro".

Brett McGurk, ex-enviado especial dos EUA para a coligação contra o Estado Islâmico, defendeu que o anúncio revela "uma completa falta de compreensão sobre o que está a acontecer no terreno".

O senador Marco Rubio também considerou a decisão "um erro grave que vai ter implicações muito para lá da Síria".

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