Extrema-direita pode vencer presidenciais na Áustria

As presidenciais austríacas podem eleger o primeiro chefe de Estado de extrema-direita no Velho Continente desde a II Guerra Mundial, dando assim um claro sinal da força do populismo, como já se viu com a vitória do brexit e com o facto de todas as sondagens porem Marine Le Pen na segunda volta em França

A repetição da segunda volta das presidenciais austríacas, marcada para hoje, é mais um teste à popularidade da extrema-direita nacionalista na Europa. Frente a frente estão o independente Alexander Van der Bellen e Norbert Hofer, do Partido da Liberdade, que, se ganhar, tornar-se-á no primeiro chefe de Estado da extrema-direita na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de, na Áustria, o cargo de presidente ser maioritariamente cerimonial, atuando sob os conselhos do chanceler o do governo, há que ter em conta que tem o poder de nomear o chefe do governo e dissolver o Conselho Nacional (a câmara baixa do parlamento). Uma vitória folgada de Hofer poderá também ser um indicador das possibilidades que o Partido da Liberdade tem de se tornar na força política mais votada, ou numa das mais votadas, nas legislativas de setembro de 2018. O que daria à extrema-direita um poder mais efetivo.

Hofer, de 45 anos, ganhou a primeira volta das presidenciais, com 35% dos votos. Contestou o resultado da segunda volta, alegando que os votos postais de 94 dos 117 distritos do país eram ilegais ou tinham sido processados de forma imprópria. O tribunal deu-lhe razão, levando à repetição desta votação, marcada para hoje.

O outro candidato é Alexander van der Bellen, 72 anos, antigo líder de Os Verdes mas que concorre como independente. Na segunda volta original, a 22 de maio, ganhou por 30 863 votos, o equivalente a 0,7%. A última sondagem, publicada pela Unique Research/Heute/ATV no dia 17, dá-lhe 51% das intenções de voto e 49% para Hofer, seguindo a tendência de empate técnico dos estudos anteriores.

"As pessoas que estão permanentemente a falar do oexit [saída da Áustria da UE] e acusam os outros de prejudicar o país com conversas sobre o oexit deveriam olhar para si mesmas e pensar no facto de que são elas que estão a prejudicar mais a Áustria", declarou Hofer num evento de campanha. E acrescentou que a União Europeia está em crise, garantindo não querer ceder mais poder a Bruxelas. "Não quero ser o governador da Áustria", disse o candidato da extrema-direita, sem deixar claro se apoia ou exclui um referendo semelhante ao do brexit no Reino Unido.

Hofer defende para o país uma melhoria das relações comerciais, nomeadamente com a Rússia, e garantiu que os imigrantes, incluindo refugiados, não devem ter os mesmos direitos que os austríacos.

Numa simbólica demarcação da posição do seu concorrente, Alexander Van der Bellen escolheu o bairro vienense de Favoriten, com uma forte população imigrante, para o fecho da sua campanha. "Isto é sobre o rumo que a nossa terra, a Áustria, é suposto tomar", declarou, pedindo aos eleitores para o deixarem ser um "presidente do centro".

Europa respondeu com sanções

Hofer não é o primeiro líder da extrema-direita austríaca numa posição de destaque. As legislativas de 1999 foram ganhas pelo Partido da Liberdade, então liderado por Jörg Haider, tendo conquistado 27% dos votos. Considerado demasiado polémico para liderar um executivo, foi pedido ao segundo partido mais votado, o conservador democrata-cristão ÖVP, para tentar formar governo - não conseguiu renovar a sua ligação com os sociais-democratas, acabando por chegar a um acordo com o FPÖ. Face aos resultados das eleições, Haider deveria ter-se tornado chanceler, mas cedeu o lugar a Wolfgang Schüssel, o líder do ÖVP.

Mesmo assim, a presença de um partido de extrema-direita no governo levou a UE a impor sanções diplomáticas informais à Áustria, um facto inédito. As relações bilaterais entre Viena e os então restantes 14 países do bloco foram suspensas, incluindo contactos a um nível inter-governamental e os candidatos austríacos deixaram de ser apoiados para cargos internacionais como representantes da UE. A Áustria, em contrapartida, ameaçou vetar todas as candidaturas a Estado-membro da UE até ao levantamento das sanções, o que acabou por acontecer em setembro de 2000.

Uns meses antes, em fevereiro, Haider - que nunca integrou o governo, mantendo-se como governador da Caríntia (cargo que ocupou até à sua morte em 2008) - passou a liderança do partido à sua vice, o que foi apelidado de uma manobra para acalmar Bruxelas, pois continuava a mandar nos bastidores.

Nas legislativas de 2002, o ÖVP ganhou por uma larga maioria. Haider viu o seu partido cair para 10,6%.