Extrema-direita irrompe no Bundestag, vitória agridoce de Merkel

Chanceler ganha quarto mandato, mas com o SPD na oposição, tem de negociar uma aliança com os liberais do FDP e os Verdes.

Quando Berlim acordou a festa era de todos. Alemães, de diferentes estados federados, estrangeiros, falando inglês, francês, chinês, espanhol ou italiano, seguiam apressados e bem dispostos para a zona da partida da maratona junto à Porta de Brandemburgo. A corrida durou grande parte do dia, durante horas ouviram-se nas ruas aplausos, apitos, batuques. Apesar da chuva. Em paralelo, outra maratona, a eleitoral, decorria em milhares de assembleias de voto. Günther e Conny vieram de Osnabrück para a corrida e já votaram pelo correio. "Não digo em que partido votei, mas com certeza que não foi na Alternativa para a Alemanha (AfD)", afirma ao DN o atleta de 62 anos que já fez 20 vezes a maratona de Berlim. Não votou ele, mas votaram muitos eleitores alemães e o partido de extrema-direita, que em 2013 falhou a entrada no Bundestag, foi este domingo a terceira força política mais votada nas legislativas com cerca de 13%, segundo projeções realizadas à boca das urnas pela televisão ARD.

"Espero que a AfD faça as coisas melhor. Angela Merkel fez coisas boas e más. Abrir as portas aos refugiados foi uma das coisas que fez mal", afirma ao DN Victoria, uma artista de 25 anos, à porta de uma assembleia de voto no N.º 115 da Wilhemstrasse. Waad e Wafaa discordam. Oriundos do Iraque, chegaram à Alemanha há 20 anos, fugidos do regime de Saddam Hussein. "Merkel está certa em ajudar os refugiados. Eles são jovens. No futuro isso será bom para a democracia", afirma o antigo padeiro, de 52 anos, enquanto a mulher, de 51 anos, repete de forma entusiasmada: "Merkel merece ganhar, ela é muito boa, é a melhor, é muito famosa". Sven Vehma, de 49 anos, também acha que, nos últimos 12 anos, a chanceler conservadora fez um bom trabalho. "Eu odeio a AfD. Eles são fascistas. Concordo quando dizem que quem comete crimes deve ser expulso. Mas noutros aspetos eles não têm razão. Merkel é boa líder. Não vejo outros serem melhores. A nível da economia ela trabalhou bem e as coisas estão bem nessa área". Mas a boa prestação da maior economia da União Europeia, de que fala este construtor, parece não ter convencido todos. Como se isso, só por si, já não bastasse.

A vitória de Merkel, com 32,9% dos votos para a CDU/CSU, teve um sabor agridoce. A chanceler conquistou um quarto mandato, sim, mas viu-se abandonada pelo SPD. Este teve apenas 20,6%. Será, se não o pior, um dos seus piores resultados de sempre. O líder e candidato dos sociais-democratas, Martin Schulz, decidiu de imediato não reeditar a Grande Coligação que governou a Alemanha nos últimos quatro anos e optou por ficar na oposição. Com a AfD. Assim, resta apenas a Merkel negociar com os liberais do FDP e os Verdes para formar uma coligação Jamaica (assim chamada porque as cores dos partidos são preto, amarelo e verde). FDP teve 10,6% e Verdes 8,9%. Apesar de a Alemanha ser um país habituado a coligações, esta composição nunca foi testada, mas tanto os líderes do FDP como dos Verdes não descartaram que possa vir a ver a luz do dia. Seria preciso limar muito bem as diferenças ideológicas e programáticas entre partidos: o FDP é contra a consolidação da união bancária europeia ou os resgates financeiros na zona euro, por exemplo, enquanto os Verdes são os maiores críticos do dieselgate e da atitude do governo face ao escândalo de emissões poluentes da Volkswagen. De fora da equação fica o Die Linke, A Esquerda, com 9,1%. O Bundestag passa agora de quatro para seis partidos com assento parlamentar.

"Não somos racistas, somos patriotas, queremos a reconquista da nossa terra. Há zonas na Alemanha em que não há alemães, nem cristãos, só muçulmanos. Abrir as fronteiras aos muçulmanos foi um erro, mas também um crime, somos contra imigrantes de fora da UE", diz ao DN Jörg Sobolewski, de 28 anos, na varanda do Traffic Club. Foi nesta discoteca da Alexanderplatz que se reuniram à tarde para festejar os militantes da AfD. Antes, Jörg era do SPD, mas deixou o partido porque, diz, este não quer saber dos trabalhadores. "O SPD só se preocupa com quem trabalha para o governo ou com os estrangeiros". Lá dentro, o espaço torna-se pequeno para militantes, convidados, dezenas de jornalistas, operadores de câmara, técnicos de som e fotógrafos. "Isto é um sinal para Merkel", diz face às primeiras projeções Alexander Gauland, o candidato a chanceler que defendeu que os alemães deveriam orgulhar-se dos feitos da II Guerra Mundial. "Estão a protestar lá fora e a chamar-nos nazis. Olho à volta e não vejo aqui nenhum. Só queremos que Merkel pare a invasão, as fronteiras devem ser fechadas, quem está aqui tem que respeitar as nossas regras. Também não gostei das vossas portagens em Portugal, para ir de Albufeira a Fátima, mas se são as vossas regras então tenho que cumpri-las", afirma, por seu lado, Roland Andres, um empresário com negócios na Polónia que, há cinco meses, se uniu à AfD.

No exterior do Traffic Club, dezenas de agentes da polícia de intervenção, dezenas de manifestantes gritam "Vocês são racistas" ou "A AfD não é alternativa a nada". Ari, designer, de 31 anos, soube que a AfD estava ali reunida porque recebeu um SMS. "Vim porque acho aterrador ter um partido racista de novo no Bundestag. É assustador. Talvez voltemos a 1933". Ao admitir que "esperava um resultado melhor" Merkel classificou a AfD "como um desafio importante". Schulz falou, por seu lado, "num ponto de viragem que nenhum democrata pode ignorar". Noutra zona da cidade, na Konrad Adenauer Haus, onde fica a sede da CDU, os militantes vão saindo satisfeitos, mas sem grande ar de festa. Voltou a chover. "Esperava melhor. Estou um pouco desiludida. A AfD foi bem-sucedida, usou o medo dos muçulmanos, que pelos vistos muita gente tem. A AfD é uma grande questão que se coloca à CDU", refere Sara Kaiser, consultora política, de 33 anos. Este resultado da AfD "não é bom para a Alemanha", afirma Michael Klein, de 72 anos. "Eu sou um democrata. Acho que temos que falar com a AfD. Não isolá-los a um canto". E se quando Berlim acordou a festa era de todos, quando adormeceu, porém, ela já era só de alguns.

Enviada a Berlim

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