Exército marroquino entra no sul do Saara para acabar com bloqueio à circulação

Um corredor de militares marroquinos permitirá a passagem de camiões e todo o tipo de veículos nos cinco quilómetros de faixa que separa a alfândega marroquina da fronteira com a Mauritânia

O exército marroquino entrou na área desmilitarizada no sul do Saara para acabar com o bloqueio ao tráfego imposto há três semanas por manifestantes saarauís da Frente Polisário, disseram esta sexta-feira fontes diplomáticas marroquinas à agência de notícias EFE.

Um corredor formado por militares das Forças Armadas Reais (FAR) marroquinas permitirá a passagem de camiões e todo o tipo de veículos nos cinco quilómetros de faixa que separa a alfândega marroquina da fronteira com a Mauritânia.

No entanto, não vão proceder à retirada dos manifestantes porque "os civis não são o alvo" e é "uma operação pacífica", disseram as fontes.

Os militares, que não se sabe se estão armados ou não, vão criar uma barreira entre a estrada e os civis saarauís, mantendo-os a uma distância tal que não possam interferir no trânsito rodoviário como têm feito.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Marrocos divulgou um comunicado no qual indica que Marrocos "deu todo o tempo necessário" ao secretário-geral da ONU, António Guterres, e a MINURSO para solucionar o bloqueio, mas os seus esforços "foram em vão e Marrocos decidiu agir (...) em plena conformidade com o direito internacional".

Por seu lado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros marroquino divulgou um comunicado no qual indica que Marrocos "deu todo o tempo necessário" a Guterres e à Missão das Nações Unidas para o referendo no Saara Ocidental (MINURSO) para solucionar o bloqueio, mas os seus esforços "foram em vão e o país decidiu agir (...) em plena conformidade com o direito internacional".

Já o secretário-geral da Frente Polisário, Brahim Ghali, denunciou esta quinta-feira à ONU o "ataque marroquino" ao posto fronteiriço em Guerguerat, considerando-o uma "flagrante violação ao acordo de cessar-fogo" assinado em 1991.

Em Argel, as autoridades argelinas lamentaram já as "graves violações" ao cessar-fogo no Saara Ocidental e apelou ao fim "imediato" das operações militares após a intervenção do exército marroquino.

"A Argélia apela às duas partes, Marrocos e Frente Polisário, para darem provas de sentido de responsabilidade e de contenção", lê-se num comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Argélia, país que apoia tradicionalmente o movimento independentista saarauí.

Em Nouakchott, a Mauritânia apelou à "preservação do cessar-fogo" no Saara Ocidental e, tal como a Argélia, pediu "contenção" às duas partes, convidando-as a trabalhar na estabilização da situação.

A zona desmilitarizada onde está localizada Guerguerat é regida pelo chamado "Acordo Militar número 1", anexo ao acordo de cessar-fogo em vigor desde 1991 e assinado por Marrocos e o grupo Frente Polisário, que proíbe a entrada de militares, entre outras coisas.

No entanto, tanto Marrocos como a Frente Polisário são constantemente acusados de não cumprir o acordo com ações que violam o cessar-fogo.

A causa da independência do Saara Ocidental surgiu em 1968 com a fundação do Movimento Nacional de Libertação Saarauí, liderado por Mohamed Sidi Brahim Basiri, o primeiro que utilizou a luta armada contra o então colonialismo espanhol.

Em 1973, porém, o movimento foi refundado e foi criada a Frente Popular da Libertação de Saguia El Hamra e Rio de Oro, mais conhecida como Frente Polisário, que continuou, após Espanha abandonar o território, a lutar contra a ocupação marroquina, a norte, e mauritana, no sul.

A anexação do Saara Ocidental surgiu do então rei de Marrocos, Hassan II, que, ao defender a ideia de que nenhum saarauí queria ser marroquino, decidiu que a melhor forma de "marroquinizar" o Saara Ocidental era invadi-lo, mesmo que ilegalmente, o que começaria a 06 de novembro de 1975.

Nesse sentido, 350.000 cidadãos marroquinos, civis, começaram uma marcha, conhecida por "Marcha Verde", que, acompanhados por 20.000 militares, entrando pelo território dentro, estando ainda por contabilizar quantas vítimas já morreram no conflito, cujas estimativas são totalmente díspares, com Rabat a minimizar e a Frente Polisário a falar em genocídio de saarauís.

A Espanha, por seu lado, nunca se envolveu na questão, decidindo simplesmente abandonar o território que, em 16 de outubro de 1975, viu o Tribunal Internacional de Justiça (TIC) de Haia negar as pretensões marroquinas e mauritanas, considerando que o Saara Ocidental, à época da colonização espanhola, era uma área "sem dono" (ou Terra Nulius), e sem quaisquer vínculos jurídicos.

Guterres lamenta "fracasso" dos seus esforços no Saara Ocidental

O secretário-geral da ONU, António Guterres, lamentou esta sexta-feira o que considerou ser um "fracasso" seu nos esforços feitos para criar um status quo na disputa entre Marrocos e a República Árabe Saarauí Democrática (RASD) no Saara Ocidental.

"[Guterres está] profundamente preocupado pelas possíveis consequências dos últimos desenvolvimentos" em Guerguerat, no Saara Ocidental, afirmou um porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, acrescentando que o secretário-geral "continua empenhado [...] em evitar uma escalada [militar] e o fim do cessar-fogo", em vigor desde 1991, entre Marrocos e a Frente Polisário.

A Frente Polisário denunciou à ONU que o "ataque" de Marrocos "viola cessar-fogo".

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