Ex-diretor do FBI acusado de violar regras ao divulgar conversas com Trump

Inspetor-geral do departamento de justiça dos EUA acusa James Comey de violar regras internas do FBI por ter, após ser despedido do cargo de diretor, divulgado memorandos das suas conversas com o presidente. Mas aquele organismo considera que Comey não deve ser processado, já que os conteúdos em causa não eram classificados como secretos. Comey já contratacou, exigindo desculpas aos que o acusaram de crime.

"A todos os que passaram dois anos dizendo que eu ia "para a cadeia" e que sou "um mentiroso e um bufo" -- perguntem-se por que motivo continuam a confiar em quem vos dá informação errada há tanto tempo, incluindo o presidente."

Foi assim que James Comey, o diretor do FBI que foi despedido em maio de 2017, reagiu à divulgação, esta quinta-feira, da posição do inspetor-geral do departamento de justiça, que o acusa de violar regras daquela polícia e de "dar um mau exemplo aos seus funcionários" mas reconhece que nada do que ele revelou estava classificado e que não deve ser processado, ou seja, que não cometeu qualquer crime.

Em causa está a divulgação de partes de sete memorandos que Comey escreveu após conversas com Trump, no início de 2017. Comey explicou que anotou o que fora dito pelo presidente porque considerou algumas das atitudes e declarações do presidente bizarras ou inaceitáveis.

Dos memorandos resulta claro que Trump tentou que a investigação federal ligada à alegada interferência da Rússia nas eleições de 2016, nas quais foi eleito, fosse parada. Num dos memorandos, é descrita a tentativa de Trump, numa conversa a sós com Comey, de o fazer abandonar a investigação a Michael Flynn, o antigo conselheiro de segurança nacional do presidente (Flynn viria a assumir, em dezembro de 2017, ter mentido ao FBI sobre as suas conversas com a Rússia e acabou por colaborar com a investigação).

A divulgação dos memorandos foi defendida por Comey como forma de desencadear uma investigação por um procurador especial que além de se debruçar sobre a interferência da Rússia tivesse também como objeto a alegada obstrução à justiça por parte do presidente -- o que veio a suceder.

Robert Mueller, que dirigiu o FBI de 2001 a 2013, foi a partir de maio de 2017 encarregado dessa investigação, tendo entregado o respetivo relatório em março de 2019 ao procurador-geral dos EUA. Questionado em julho no Congresso, negou que a investigação ilibasse o presidente embora também não concluísse que cometera algum crime. Mas frisou que segundo as regras do departamento de justiça um presidente em funções não pode ser acusado de crimes. E acrescentou: "É necessário um outro tipo de processo que não o judicial para acusar formalmente o presidente em funções de ter cometido alguma irregularidade. Seria injusto acusar potencialmente alguém de um crime quando não pode haver uma decisão judicial relativa à acusação."

Comey não podia ter os memorandos em casa

"Num Estado de direito é da maior importância que todos os funcionários do FBI respeitem as regras do departamento de Justiça e do FBI, particularmente se confrontados com o que lhes parecem circunstâncias extraordinárias ou convicções pessoais muito fortes", lê-se no relatório."Comey tinha muitas outras opções legais no sentido de desencadear uma investigação por um procurador-especial, que afirmou ser o seu objetivo. O que não podia ter feito era a divulgação não autorizada de informação sensível obtida enquanto ao serviço do FBI, de modo a obter um resultado que o servia pessoalmente."

Parte da violação dos protocolos do FBI de que Comey é acusado diz respeito à forma como manteve os memorandos na sua posse. De acordo com o relatório, ficou com quatro dos sete memorandos depois de ser despedido, guardados num cofre em sua casa, e não comunicou esse facto ao FBI. Viria a entregá.los ao gabinete do procurador-especial Muller em junho de 2017.

"A política do departamento de Justiça é de que os funcionários não podem manter documentos do FBI em sua posse, enquanto estão ao serviço ou após deixarem de estar. E as regras do FBI não diferem dessas."

Não é a primeira vez que a Inspeção-Geral do departamento de Justiça critica James Comey; num relatório divulgado no verão de 2018, algumas das ações de Comey na investigação do FBI no caso do uso de um endereço privado de email por Hillary Clinton nas suas funções de secretária de Estado de Obama foram apelidadas de "extraordinárias e insubordinadas."

De criminoso e mentiroso a "desgraçado" -- as acusações de Trump a Comey

Recorde-se que Donald Trump insistentemente acusou Comey de ter divulgado informação classificada como confidencial ou secreta (embora afirmasse também que os excertos dos memorandos que o ex diretor do FBI divulgou eram falsos) e que este seria preso por isso. Fê-lo por exemplo num tuite de 13 de abril de 2018, após a publicação do livro de Comey (A Higher Loyalty: Truth, Lies, and Leadership).

"James Comey é um mentiroso e um bufo comprovado. Praticamente toda a gente em Washington acha que ele devia ser despedido pelo péssimo trabalho que fez -- até ser, de facto, despedido. Ele divulgou informação classificada, pelo que deve ser acusado criminalmente (...)"

E voltou a repetir a acusação a 15 de abril: "As grandes questões sobre o livro de Comey são como é que ele divulgou informação classificada (cadeia), porque é que mentiu ao Congresso (cadeia). (...), porquê os memorandos falsos (...)?"

Agora, Trump reage ao relatório do inspetor-geral ignorando as suas acusações anteriores: "Talvez nunca na história do nosso país alguém tenha sido mais desonrado e anatemizado que James Comey no relatório do inspetor-geral. Devia ter vergonha!"

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