Evo Morales: dez anos no poder de olhos postos na próxima década

No dia 21 deste mês, o presidente enfrenta um referendo que irá decidir se pode ou não candidatar-se a um quarto mandato

No centro cerimonial pré-incaico de Tiahuanaco, a 80 km de La Paz, Evo Morales recebeu com as mãos estendidas os primeiros raios de sol do dia 21 de janeiro. À sua frente, como sinal de bom augúrio, estava acesa uma enorme pira de madeira, onde tinha depositado folhas de coca. O primeiro presidente indígena da Bolívia celebrava o décimo aniversário da chegada ao poder com a cerimónia de agradecimento à deusa Pachamama (Mãe Terra). A 21 de fevereiro, os eleitores dizem em referendo se permitem que concorra a um quarto mandato que lhe permitirá ficar no poder até 2025 - quando se festeja o bicentenário da declaração da Independência.

O ex-cocalero sindicalista de raízes aimarás tomou posse há dez anos depois de ter sido eleito com menos de 54% dos votos e não teve um percurso fácil. "Macaco", "índio", "comunista" eram apenas alguns dos epítetos que ouvia dos opositores, a quem tratava de "separatistas", "terroristas" ou "neoliberais", recordou o correspondente da BBC Boris Miranda. Mas o presidente percebeu que não era só com protestos que iria conseguir "refundar" o país, era também preciso fazer alianças. Assim, esses "neoliberais" passaram a ser "companheiros confundidos que era preciso resgatar". E muitos acabaram do seu lado.

A vitória de 2006 foi só a primeira. Dois anos depois, Morales conquistou 67% dos votos num referendo revogatório - que convocara após as regiões mais ricas do país porem em marcha um processo separatista. Seria reeleito em 2009, com 64% dos votos, já depois de aprovada a nova Constituição do Estado Plurinacional da Bolívia. Em 2014, nova vitória, com 61% dos votos (deixou o adversário a 37 pontos percentuais) e conquistou uma maioria de dois terços na Câmara dos Deputados.

Sondagens

Essa maioria abriu caminho para um eventual quarto mandato, em 2019, mas são vários os obstáculos que tem de enfrentar. Nas sondagens que privilegiam as áreas urbanas, como a ATB (de 14 de janeiro), o "não" está à frente no referendo de 21 de fevereiro por oito pontos percentuais. Já a da Mori, com maior peso da população rural, o "sim" ganha, mas só por quatro pontos. Pouco para o presidente cuja popularidade (69%) é a mais alta entre os líderes latino-americanos.

Essa popularidade já tinha sido posta em causa nas eleições regionais de março de 2015. Nelas, o Movimento ao Socialismo manteve-se como principal força política do país, mas o partido do presidente sofreu derrotas em municípios que eram considerados seus bastiões (El Alto ou Cochabamba) e nos governos de La Paz ou Tarija. A oposição espera continuar a ganhar força, aproveitando as viragens à direita no continente - a eleição de Maurício Macri como presidente da Argentina e a derrota do chavismo nas parlamentares venezuelanas - ou o mau momento da esquerda, nomeadamente as dificuldades de Dilma Rousseff no Brasil.

Morales, de 56 anos, também enfrenta o desgaste de uma década no poder e as consequências da aproximação aos empresários da rica região de Santa Cruz - que após terem planeado a independência, aparecem hoje como grandes defensores do presidente. Nas sonda-gens, o "sim" ao referendo ganha nestas zonas. Isso não é bem-visto entre aquela que foi a sua base eleitoral, a população indígena das zonas rurais, tendo começado a surgir alternativas de oposição à esquerda.

O presidente não esquece as suas bases, continuando a reunir-se com os cocaleros (depois de ter expulsado em 2008 a agência antidroga norte-americana) e a defender nas Nações Unidas o cultivo da folha de coca - que tem um papel tradicional na cultura andina. Contudo, aos poucos, para se manter em alta, Morales teve de abandonar a ideia de que era apenas mais um entre muitos camponeses e indígenas, para acentuar a ideia de que é um líder excecional. "Há um só Fidel, um só Gandhi, um só Mandela e um só Evo", resumiu o chefe da diplomacia boliviana, David Coquehuanca (aimará como o presidente), numa entrevista há dias ao jornal El País.

Altos e baixos

Ao estilo do líder cubano, Morales pediu "paciência" antes de discursar durante cinco horas na cerimónia oficial no Congresso dos Deputados para festejar o aniversário no poder, na qual fez um balanço destes dez anos. O presidente falou do positivo, referindo o crescimento do PIB ou a redução da pobreza (graças aos preços altos das matérias-primas conseguiu investir em programas sociais). Mas a queda do preço do petróleo - Morales renegociou os contratos com as companhias estrangeiras quando chegou ao poder - poderá trazer problemas.

No discurso, o presidente não esqueceu também o negativo, como a crise na justiça e a corrupção. Esta última atingiu há poucos meses vários dirigentes camponeses, alguns próximos de Morales, que estão a ser investigados pelo desvio de 2,5 milhões de dólares de um fundo de desenvolvimento. Mas as queixas contra o presidente não se ficam por aí, havendo quem critique as "obras faraónicas" - entre elas o novo palácio presidencial que esperava poder ter inaugurado no décimo aniversário, mas sem sucesso.

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