Liberais da Holanda sob pressão de novo rosto populista nas europeias

O futuro escrutínio europeu acontece na Holanda dois meses depois de o país ter organizado eleições provinciais, votação de má recordação para o governo do liberal Mark Rutte que viu a extrema-direita entrar em força plena no Senado.

Os resultados das provinciais agitaram o cenário político holandês, mas também fizeram soar sinais de alerta na Europa, devido à aproximação das eleições europeias -- a Holanda é um dos primeiros dos 28 Estados-membros da União Europeia (UE) a votar, a 23 de maio -- e à crescente influência de partidos populistas na zona comunitária.

Thierry Baudet, 36 anos, o novo rosto da direita populista holandesa, foi o nome que marcou os resultados das eleições provinciais realizadas no passado dia 20 de março.

Este escrutínio tem peso na política holandesa, uma vez que são os membros dos conselhos provinciais que nomeiam a composição do Senado (câmara alta do parlamento e órgão legislativo do país). E, pela primeira vez, um partido populista de direita está na dianteira.

O Fórum pela Democracia (FvD), que Thierry Baudet fundou como um 'think-tank' (grupo de reflexão) e que transformou num partido anti-imigração e eurocético em 2016, tornou-se em março na principal força política do Senado, destronando a atual coligação governamental de centro-direita formada desde 2017 por quatro partidos, incluindo o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD) do chefe do governo, Mark Rutte.

Até então ausente do Senado, e apenas com dois lugares na câmara baixa do parlamento holandês conquistados nas legislativas em 2017, o FvD obteve em março 13 mandatos (num total de 75), contra os 12 eleitos do VVD de Rutte (primeiro-ministro desde 2010).

Com este resultado, Baudet superou igualmente o rival político e líder do Partido pela Liberdade (PVV), Geert Wilders, deputado conhecido pela sua retórica anti-islâmica e agora também caracterizado como a "antiga cara" da extrema-direita holandesa.

Um dado a reter nestas recentes eleições é que estas aconteceram dois dias depois de um atentado num elétrico na cidade de Utrecht (centro).

Thierry Baudet, ao contrário de todos os outros partidos, recusou-se a suspender a campanha eleitoral após o ataque e apontou críticas às "fronteiras abertas" e aos "recordes de imigração" dos governos sucessivos de Mark Rutte.

Defensor de um potencial 'Nexit' (a saída da Holanda da UE), Baudet é conhecido por ter um discurso dirigido às elites e por afirmações polémicas sobre a imigração, a igualdade entre homens e mulheres ou as alterações climáticas.

Mas também é falado pela sua aparência física ou pela sua constante presença nas redes sociais, tendo mesmo conquistado o cognome de "'dandy' [alguém quem se preocupa muito com a aparência] político".

Recentes projeções divulgadas pelo Parlamento Europeu (PE) davam conta que a nova direita populista da Holanda poderá vir a ser o segundo partido holandês mais votado nas eleições europeias realizadas este mês.

O FvD surgia nestas projeções com 11,6% dos votos, o que lhe permitiria eleger quatro eurodeputados, atrás apenas do partido do primeiro-ministro Mark Rutte, que obteria 16,4% e elegeria cinco deputados ao PE.

Outras projeções, citadas pelos 'media' internacionais, chegam a dar vantagem ao FvD, que poderá mesmo conseguir quase 18% dos votos, ou seja, cinco a seis representantes no PE que deverão integrar o grupo das forças eurocéticas e nacionalistas.

Segundo os mesmos dados, o VVD de Rutte seguiria atrás com pouco mais de 15% dos votos, o que representaria quatro a cinco eurodeputados para o grupo parlamentar europeu Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (ALDE).

Os Verdes (GL) seriam a terceira força mais votada nas eleições europeias holandesas, com 11% dos votos, alcançando assim a eleição de três a quatro eurodeputados, indicaram as mesmas projeções, que apontaram ainda que os parceiros de coligação de Rutte, como é o caso do D66 (liberal) ou do CDA (democratas-cristãos), não deverão ultrapassar a fasquia de dois eurodeputados eleitos.

A formação do atual executivo holandês foi um processo difícil e demorado, que refletiu a fragmentação da cena política naquele país.

Foram necessários 208 dias depois das legislativas de 15 de março de 2017 (o período mais longo de negociações na Holanda desde a II Guerra Mundial) para Mark Rutte anunciar um acordo para um governo de coligação entre quatro partidos: VVD, D66, CDA e a União Cristã (conservadora).

Apesar de tensões ocasionais, a coligação é relativamente estável.

Segundo analistas, e numa altura em que a Holanda se prepara para as europeias, Mark Rutte não enfrenta apenas os desafios de uma direita populista em crescendo, mas também se vê confrontado por reptos da esquerda holandesa, nomeadamente a propósito da agenda do executivo para o combate das alterações climáticas.

Também não passaram indiferentes os rumores de que Rutte estaria a considerar ir para Bruxelas e assumir uma posição de topo nas instituições europeias, neste caso, a presidência do Conselho Europeu.

Hipótese que o primeiro-ministro holandês afastou quando em abril passado esteve em Lisboa e se encontrou com o homólogo português, António Costa.

"Não sou candidato, quero ficar na Holanda", respondeu então Rutte a uma pergunta sobre referências ao seu nome para próximo presidente do Conselho Europeu, constituído pelos chefes de Estado e de Governo da UE, cargo atualmente ocupado pelo polaco Donald Tusk.

As eleições europeias 2019 vão ter lugar de 23 a 26 de maio.

Neste escrutínio, os cerca de 13 milhões de eleitores inscritos na Holanda (um dos países fundadores da UE) vão eleger 26 eurodeputados (ou 29 caso o Reino Unido deixe, entretanto, o bloco comunitário).

A maioria dos holandeses parece ter uma perspetiva positiva sobre a UE, uma vez que 78% (a quarta maior percentagem dentro do bloco europeu) consideram que ser Estado-membro é uma coisa boa.

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