"Estas eleições irão aumentar desigualdades"

Investigador timorense independente, especialista em economia política, a realizar um mestrado em Políticas Públicas na Universidade Nacional da Austrália, Guteriano Neves pensa que o consenso entre a classe política timorense e os seus interesses próprios estão a prejudicar o país.

Qual é hoje o principal desafio para Timor-Leste?

Tem pela frente muitos desafios. Entre eles, destacaria dois: manter instituições democráticas baseadas no princípio dos freios e contrapesos e criar oportunidades económicas para todos os timorenses. Em minha opinião, o funcionamento dos freios e contrapesos, parte fundamental do sistema democrático, está quase ausente da vida política. Desde 2014, com o chamado consenso político e a autoproclamada união nacional, todos parecem estar de acordo com todos, o que levou à formação do governo de unidade nacional.

Isso não é positivo?

Este governo de "unidade nacional" é considerado condição necessária para a paz e a estabilidade. Mas esta é uma noção estreita de unidade nacional, sendo, como é, baseada só no consenso das elites. Esta "unidade nacional", de algum modo facilitada pela renda do petróleo, mantém todos contentes, não havendo ninguém para criticar a forma como os recursos são usados ou o caminho seguido.

Há desigualdade na distribuição de recursos entre Díli e o resto do país?

É óbvio para todos que tudo o que é recurso e oportunidades económicas estão concentrados em Díli e que as áreas rurais continuam na pobreza. O problema é que esta realidade não é referida e, menos ainda, posta em causa.

E há ainda a questão do fim da renda da exploração petrolífera.

Esse é um problema que Timor-Leste vai enfrentar a longo prazo. O governo gasta muito mais dinheiro em megaprojetos do que em necessidades básicas como a educação, a saúde e a agricultura. Ao mesmo tempo, cerca de 70% dos timorenses têm menos de 30 anos e estão a aumentar as desigualdades entre ricos e pobres, entre as áreas urbanas e as rurais. Assim, a questão é como criar uma economia que proporcione oportunidades para a maioria da população e torne mais eficaz e justa a distribuição de recursos. O governo insiste que quer a diversificação da economia, diminuindo a dependência do petróleo. Mas a estratégia não parece bem definida e, assim, não vamos a lado nenhum.

Quanto às presidenciais, que ilações se poderão retirar consoante a vitória de um ou outro dos candidatos?

Lu-Olo surge como o mais forte de todos. Em 2007 e 2012, Lu-Olo foi o mais votado na primeira volta, mas derrotado na segunda. Muitos acreditam que vai ganhar desta vez. Ele apresenta-se sob a plataforma "Um presidente para todos" e representa a mensagem da "unidade nacional". É um candidato apoiado pela Fretilin e pelo CNRT e tem passado político: foi presidente da Assembleia Nacional e do primeiro Parlamento. A dúvida é se tem de ir à segunda volta.

Para enfrentar António da Conceição?

O seu principal adversário é António Conceição, que tem o apoio do Partido Democrático e de outros grupos políticos e que se apresenta sob a plataforma Maubere [os mais pobres], o que tem claro significado político. Mas há outro candidato a reter, José Neves, um antigo comissário do organismo de luta contra a corrupção. Ele candidatou-se sob a plataforma O Povo É Que É Senhor do Estado e defende como prioridade o combate contra a corrupção.

Uma nova geração devia ter papel mais ativo na vida política?

Se olharmos para a campanha, Lu-Olo, António da Conceição e José Neves afirmam-se representantes da nova geração. Se pensarmos na velha geração como os dirigentes de 1975, então eles não estão na eleição. Mas o resultado continua a ser determinado por eles.

E estão à frente dos partidos.

Os partidos deviam permitir o aparecimento de jovens dirigentes com qualidades. Este é um desafio real e atual. Mas, por outro lado, independentemente de novos ou velhos, penso que Timor-Leste necessita de uma liderança alternativa, pessoas que conheçam não só a história timorense mas que compreendam e saibam resolver os problemas atuais.

O que não parece viável...

Um ator importante em democracia é uma sociedade civil forte. O que abrange organizações não governamentais, think tanks, a universidade e o ensino em geral, os grupos religiosos e os movimentos sociais, que podem funcionar, por exemplo, como instrumentos de vigilância extraparlamentar e de supervisão. Mas atendendo à conjuntura atual, não vejo grandes hipóteses de mudanças nos próximos cinco anos, tendo em atenção o modo como as instituições (Parlamento, Governo, Justiça) estão a funcionar. A dinâmica criada nos últimos cinco anos vai continuar e, muito provavelmente, não terá de enfrentar grandes desafios a nível do sistema político. O que quer dizer também que não irão verificar-se mudanças relevantes na esfera económica e na estratégia de desenvolvimento seguida.

As presidenciais não vão mudar nada?

Estas eleições irão aumentar ainda mais as desigualdades na sociedade, as políticas de favoritismo e a captura das instituições políticas pelas elites, que não têm adversários à altura. Espero estar enganado, mas é isto que me parece que vai suceder no futuro. Se assim for, entidades e mecanismos extraparlamentares terão de assumir um papel mais ativo na veiculação da voz e reivindicações populares para o sistema político e vigiá-lo de forma robusta, uma atuação necessária nos próximos cinco anos.

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