Estado Islâmico tem um plano B em caso de derrota na Síria e no Iraque

Grupo islamita começou a preparar plano há mais de um ano. Oposição a Assad está cética sobre acordo de cessar-fogo anunciado por EUA e Rússia que entra em vigor amanhã.

Pouco depois de ter capturado as cidades de Ramadi, no Iraque, e Palmira, na Síria, em maio de 2015, o Estado Islâmico (EI) começou a fazer planos para a eventualidade de sofrer importantes reveses militares naqueles dois cenários de guerra. A revelação é feita por um militante do grupo sunita extremista em declarações divulgadas ontem pelo The Independent.

Identificado sob o nome de Faraj (não a sua verdadeira identidade), este sírio de 30 anos garante que, em agosto do ano transato, a liderança do grupo islamita começou a "tomar medidas" prevendo "uma derrota militar no Iraque e na Síria". Uma dessas medidas seria a criação de bases, especificamente na Líbia e também noutros pontos de África e Médio Oriente. Para o militante, o EI tem "uma capacidade de resistência" e um nível de atração que não são entendidos no Ocidente e o seu discurso mobiliza "aqueles que querem combater a tirania e a injustiça".

Para este árabe sunita, que foi entrevistado via WhatsApp e se encontra fora da Síria, as últimas décadas na Síria e no Iraque motivaram um profundo sentimento de injustiça em setores significativos das populações em ambos os países e facilitaram o recrutamento de grupos como o EI e a Frente Al-Nusra, a que Faraj pertenceu inicialmente. Para ele, o EI é "a melhor solução para corrigir as injustiças" criadas pelos "regimes autoritários na região".

No que respeita à presença de combatentes estrangeiros - especialmente os provenientes da Europa - nas fileiras do EI, o extremista sírio considera-os inúteis, desconhecedores de regras básicas do islão e dos costumes locais. Só servem como veículos de propaganda e para atentados suicidas, afirma.

Faraj revela detalhes sobre uma alegada cumplicidade ou, pelo menos, neutralidade da Turquia face ao grupo islamita até certo momento no conflito. Dá como exemplo o facto de, em maio de 2015, os islamitas que defendiam a cidade síria de Tell Abyad, junto da fronteira, terem recebido uma importante quantidade de armas e munições sem interferência turca.

Em 2015, em diferentes circunstâncias, grupos curdos e fontes dos serviços de informações ocidentais afirmaram haver provas "inegáveis" de alguma cumplicidade entre círculos do poder turco e o EI. Por exemplo, a 26 de junho daquele ano, "fonte sénior" de um serviço de informações ocidentais dizia ao The Guardian, a propósito da captura de material informático na posse de um líder do EI, que "as relações são tão evidentes que não poderão deixar de ter implicações nas relações entre nós e Ancara". A Turquia sempre negou qualquer cumplicidade com o EI.

Olhando para os acontecimentos de 2015 na guerra civil síria, a intervenção turca faz-se sentir, em especial a partir de julho, e começa a visar de modo particular posições defendidas pelo EI após o ataque bombista em Ancara, a 10 de outubro, quando foram detonadas duas bombas junto da estação central de comboios da capital turca.

O atentado sucedeu pouco antes do início de um comício organizado pelo principal partido pró-curdo na Turquia, organizações laicas, sindicais e de esquerda, em protesto pela intensificação dos combates entre o exército turco e a guerrilha independentista curda. O atentado, que causou mais de cem mortos, não foi reivindicado, mas Ancara apontou o EI como responsável. A 20 de julho, na localidade fronteiriça de Suruç, uma caravana organizada por um partido de extrema-esquerda que se preparava para partir para a cidade síria de Kobane (então reconquistada ao grupo islamita) fora alvo de um ataque suicida que causou 32 mortos.

Em 2016, a 12 de janeiro, um bombista suicida fez-se explodir no centro histórico de Istambul, matando 12 turistas, seguindo-se o ataque ao principal aeroporto de Istambul, a 26 de junho, com 45 mortos. Nenhum foi reivindicado.

Cessar-fogo

Após uma maratona negocial de 13 horas, os responsáveis pela diplomacia dos EUA e da Rússia, John Kerry e Serguei Lavrov, anunciaram na noite de sexta para sábado, em Genebra, um cessar-fogo para a Síria a entrar em vigor amanhã.

O acordo prevê a cessação das operações das forças do regime de Bashar al-Assad em determinadas áreas sob controlo das milícias da oposição, a criação de um centro de operações russo-americano para a coordenação de ataques a alvos islamitas - que só serão realizados em certas áreas, atuando a força aérea de Assad nos restantes - e a criação de condições para a entrega de ajuda humanitária de emergência em locais onde esta é indispensável.

Responsáveis militares da oposição mostraram-se muitos céticos sobre a real aplicação do cessar--fogo. Um dos comandantes do Exército Sírio Livre, Fares al-Bayoush, notou que anteriores acordos não foram respeitados nem pela Rússia nem pelo regime de Damasco; um outro chefe militar, Abdul Salam Abdul Razak, afirmou ao The Guardian que um acordo nos termos em que foi delineado o agora anunciado em Genebra apenas favorece as forças de Assad, permitindo-lhes uma pausa para descanso e para motivar unidades para frentes de batalha em que estão em desvantagem.

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