Esta empresa de Maputo transforma as ideias das mulheres em negócios

O empreendedorismo feminino é uma realidade promovida pela ideialab, empresa que quer criar impacto social. A economista Sara Fakir, de 38 anos, é uma das mentoras

Para chegar à moradia amarela onde fica a ideiaLab, empresa de consultoria para jovens empreendedores, na Avenida Paulo Samuel Kankhomba, na zona sul de Maputo, cruza-se com vários negócios de rua. Há vendedores de roupa e sapatos em segunda mão, vendedores de cartões telefónicos, comerciantes de amendoim, marmitas de almoço. "Em Moçambique há aqueles empreendedores ainda na base da necessidade que não têm alternativa, porque faltam competências e habilidade para desenvolver o seu negócio", diz Sara Fakir, 38 anos, mentora da empresa ideiaLab, fundada em 2010, com Tatiana Pereira.

Foi a primeira empresa moçambicana focada no empreendedorismo social para "apoiar o desenvolvimento de startups, acelerar o crescimento de micro, pequenas e médias empresas e promover a inovação". Em Moçambique, a taxa de desemprego é de 23% (ONU). Sobrevive-se essencialmente do trabalho informal, embora nos últimos cinco anos, negócios empreendedores como o serviço biscate.pt, Maputo Living Labs e as ações da ideiaLab estejam a abrir caminho para mudar o ecossistema laboral. Como? As duas amigas de infância - Sara estudou em Lisboa e Tatiana na Austrália e Lisboa - perceberam que o mercado moçambicano oferecia, então, oportunidades subvalorizadas. "Temos uma camada jovem que sai das universidades, que não tem colocação no mercado de trabalho", afirma Sara, "mas que têm um conjunto de competências para fazer mais qualquer coisa e esse qualquer coisa tem um potencial para crescer." Centraram-se, então, no "empreendedor de crescimento", contribuindo para introduzir no vocabulário moçambicano as palavras "empreendedorismo", "incubadoras de negócios" e "startups".

Primeiro pro bono, depois com uma empresa que ajuda a transformar ideias em negócios sustentáveis. Em 2013, fizeram o primeiro concurso de ideias. Surgiram 186 propostas. Fakir garante que esse número tem uma abrangência maior pelas mais de 600 subscrições recebidas e que, "pela primeira vez", conseguiram "provar que havia massa crítica de empreendedores". Hoje, o empreendedorismo é considerado fundamental para a criação de riqueza e de postos de trabalho e, sobretudo, para o desenvolvimento económico e social. Em Moçambique, desde 2007, o Ministério da Educação e Cultura introduziu o Programa Curricular de Empreendedorismo nas escolas secundárias e vocacionais do país, com a ajuda da agência da ONU para o desenvolvimento industrial e com o apoio financeiro do governo da Noruega.

Entre consultoria e mentoria, eventos sobre empreender e formação, a ideiaLab, que conta com uma rede de parceiros, aposta sobretudo nas mulheres, através de programa de empreendedorismo feminino, o Femtech, importado de África do Sul. "São mulheres que estão já em negócio, mas querem fazê-lo crescer e não sabem como, porque faltam recursos, plano de negócios, desenvolvimento pessoal. Nós ajudamos a pôr em prática, com formação de seis meses e mentoria personalizada." Artesanato, alimentação, cosmética, vestuário, mercado de edição e mercearia são algumas das áreas empreendedoras. O programa custa nove mil meticais - 125 euros. E as participantes ficam ligadas numa rede de empreendedorismo feminino, a Femmie, que, segundo a economista, é inédita em Moçambique. "Esse é o grande diferencial do programa, que permite a partilha intensa entre elas, porque ser empreendedor é, por vezes, uma atividade solitária, e dessa forma há entreajuda e aprendizagem entre pares." O programa promove o empoderamento feminino, tendo em conta que no país persistem "barreiras" socioculturais para as mulheres, que "não têm suporte para fazer a vida nos negócios". Sara diz que o caso dela foi diferente. Deixou um emprego estável como consultora para se tornar empreendedora. "Sofri alguma crítica social, mas tive a sorte de ter o apoio de pessoas próximas como os meus pais, mas para alguns familiares e colegas de trabalho era estranho alguém que tinha a sua profissão querer deixar isso." Desvaloriza o facto de isto acontecer por ser mulher e que essa questão é transversal a qualquer empreendedor, embora não deixe de refletir no estigma. "Na altura havia pessoas que me perguntavam: Oh Sara! Porque não dizes a verdade e o que tu queres é deixar de trabalhar e ser dona de casa e ires cuidar dos filhos. Porque pensavam que poderia ser muitas outras coisas e não acreditavam que isto pudesse ser um caminho para mim." Acrescenta: "Ainda hoje encontro pessoas que foram minhas colegas de trabalho e que perguntam: eh pá então isso ainda sobrevive?"

Em Moçambique, apesar da discriminação, as mulheres começam a redefinir a natureza do que é preciso para estabelecer um negócio. E, num contexto em que a ONU definiu novos objetivos de desenvolvimento até 2030, reforça-se que "as empreendedoras femininas são peça-chave para esse desenvolvimento". Para Sara, isso passa não só por ter acesso ao financiamento mas a uma rede de contactos que "estão, ainda, concentrados nas mãos dos homens em posições de liderança". E mudanças para o setor? "Quero mais abertura, mais transparência. Quero menos "engraxadismo" e menos "lambe-botismo" e quero que haja uma força política que motive. Sabemos que nenhum governo vai poder fazer tudo, mas não é para ele fazer, nós queremos fazer."

Em Maputo

* com Tavares Cebola e A. Nhampossa
A jornalista viajou com a bolsa "Aquele outro mundo que é o mundo" (ACEP, Associação Coolpolitics, CEIS20, CEsA/ISEG, com o apoio da Fundação C. Gulbenkian).

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