Esqueça o grexit ou brexit. Merkel-exit é a maior ameaça à UE

Popularidade da chanceler está em queda por causa dos refugiados, minando a sua posição numa Europa onde tem menos amigos

Ela foi "Pessoa do Ano" do jornal britânico The Times em 2014 e da revista norte-americana Time em 2015. Mas 2016 pode ser o ano mais difícil para a chanceler alemã Angela Merkel, há mais de uma década no poder. Tudo por causa da crise de refugiados e da política de portas abertas, cada vez mais contestada internamente, que permitiu a entrada de 1,1 milhões de pessoas na Alemanha nos últimos 12 meses. Depois do fim da sombra do grexit (a saída da Grécia da zona euro) e em plena discussão sobre o brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), a maior ameaça para a Europa pode ser o Merkel-exit, segundo analistas do Citigroup.

"Merkel ainda é a pessoa certa?" questionava este domingo a primeira página do Bild am Sonntag - o jornal mais vendido na Europa - enumerando aqueles que considera serem os principais problemas da chanceler: "falta de respeito, falta de autoridade, lutas de poder... terrorismo, criminalidade, autoridades sobrecarregadas" antes de acrescentar que "a política de refugiados de Merkel está prestes a falhar".

Ontem, numa carta enviada à chanceler, 44 deputados da sua União Democrata Cristã e da aliada bávara União Social-Cristã repetiram os apelos para que Merkel altere a política de portas abertas para os migrantes. "Estamos diante de exigências excessivas para o nosso país. Acreditamos que é urgente uma mudança nas atuais práticas migratórias com o regresso ao uso estrito da lei existente", escreveram.

Uma sondagem da ZDF revelou que a percentagem de pessoas que consideram que a política de refugiados de Merkel é boa caiu de 47% para 39% entre 15 de dezembro e 15 de janeiro, refletindo os eventos na noite da passagem de ano em Colónia e noutras cidades alemãs. Centenas de mulheres denunciaram alegados abusos perpetrados, na sua maioria, por migrantes do Norte de África e Médio Oriente.

Conservadores em queda

Ontem, a sondagem semanal do Bild mostrava que o apoio ao bloco conservador de Merkel caiu 2,5 pontos percentuais em sete dias, para os 32,5% - o mais baixo desde as eleições de 2013. Também a popularidade da chanceler está em queda - era 67% no verão de 2015 e é atualmente de 58%.

"Pela primeira vez numa década, o futuro político de Merkel está em causa", escreve a analista de política global do Citigroup, Tina Fordham, num relatório de 14 de janeiro. "Apesar de a chanceler ser capaz de sobreviver a este teste à liderança e ganhar um quarto mandato (a economia ainda está forte, não existe nenhum adversário óbvio e mobilizou o partido durante uma conferência no final de 2015), vemos o Merkel-exit antes das eleições alemãs (previstas para 2017) como um dos riscos políticos potencialmente mais desestabilizadores para a UE."

O Citigroup lembra que a chanceler tem atualmente menos amigos do que antes, com a derrota dos aliados na Polónia e em Portugal e a incerteza em Espanha (onde Mariano Rajoy tem a reeleição em risco): "Acrescente-se que os desacordos com o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi estão a aumentar, que o presidente francês é um aliado no mínimo incerto (e às vezes relutante), que o governo grego provavelmente quer explorar qualquer divisão interna na zona euro, que os aliados da Europa de Leste estão chateados por causa da sua postura em relação à crise dos refugiados e que vai ter dificuldades em ajudar a manter o Reino Unido na UE, e poucos desejarão mais que a chanceler alemã ver 2016 chegar ao fim."

O Citigroup não é o único a chamar a atenção para o ano difícil que aí vem. "A receção extraordinária de Merkel aos refugiados vai atrair menos seguidores dentro do próprio país e virtualmente nenhum fora dele. Isto vai minar a sua posição política e pode encorajar os opositores internos nos próximos meses. Isso cria uma mudança dramática na forma como a Europa interage entre ela e com o resto do mundo", lê-se nas previsões de risco da consultora Eurasia Group.

Eleições regionais

Um teste crucial para a chanceler são as eleições de março em três regiões - Bade-Vurtemberga, Renânia-Palatinado e Alta Saxónia. A Alternativa para a Alemanha (anti-imigração, eurocética e populista) tem vindo a crescer - há um ano tinha 7% na sondagem do Bild, agora tem 12,5% (mais um ponto que há uma semana). Presente em três parlamentos regionais, o partido espera conseguir entrar noutros três em março.

Contudo, ainda falta muito para as eleições gerais de 2017. E o apoio a Merkel pode voltar caso se cumpra a sua promessa de diminuir o número de migrantes. A chanceler espera que medidas como o acelerar do processo de vistos e o facilitar da deportação dos que não cumpram os requisitos possa possibilitá-lo, continuando a insistir na necessidade de outros países europeus aceitarem mais quotas de refugiados. Para travar novas entradas, a aposta é nos centros de receção nas fronteiras externas da Europa e nos pagamentos à Turquia para que mantenha os migrantes afastados do bloco.

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