Equipa de Jair Bolsonaro tem de cantor gospel a astronauta

Um general radical, um economista neoliberal, um ex-advogado do PT e os três filhos são os conselheiros de quem, excluído Lula, lidera as sondagens para as presidenciais.

"Ele vai ser presidente comigo ou sem migo [sic]", exclamou Magno Malta, segundo a reportagem do jornal Gazeta do Povo, na cerimónia que assinalou a filiação de Jair Bolsonaro ao Partido Social Liberal (PSL), a nona força política da sua carreira. O deputado, capitão na reserva e candidato às presidenciais de outubro, convidou para o evento o senador e pastor evangélico do Partido Republicano porque o deseja como candidato a vice-presidente na sua lista e desse modo agradar à numerosa comunidade protestante brasileira. Aos poucos, Bolsonaro, líder das sondagens com razoável avanço se excluirmos o provavelmente inelegível Lula da Silva, começa a compor o seu heterogéneo núcleo de conselheiros.

Sob os gritos de "vice, vice" da audiência, Magno Malta garantiu durante aquela solenidade que nada está decidido ainda a respeito do seu cargo - "o futuro está nas mãos de Deus", disse o vocalista da banda gospel Tempero do Mundo e marido de Lauriete, cantora cristã de sucesso desde O Segredo é Louvar, álbum de 2001. Uma coisa é certa: Malta e Bolsonaro concordam em tudo, disse o primeiro em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. E concordam no conteúdo - são anti-aborto, pró-armamento, céticos em relação às causas LGBT e radicais no tratamento a criminosos - e na forma como se exprimem - quase sempre desabrida.

"O Supremo [Tribunal Federal] votou agora que o macho que se sente transgénero pode entrar no banheiro da mulher e as minhas filhas e a minha mulher não podem falar nada para não constrangê-lo mas ele pode mijar de pé e respingar o vaso todo", afirmou nos últimos dias, via TV Senado.

Malta, que apoiou Lula e Dilma Rousseff porque foi "enganado", acredita "num país que volte a cantar o hino e que não "glamorize" os vagabundos". Faixa preta de jiu-jitsu, praticante quatro horas diárias de musculação, fã e amigo do ator Steven Seagal, recusa o rótulo de "extremista de direita". "Não sou de direita, sou endireita, vou endireitar o Brasil".

Na mesma sessão em que Malta foi aclamado como "vice", Bolsonaro anunciou que o seu governo terá 15 Ministérios, metade dos do executivo de Michel Temer, e que o titular da Ciência e da Tecnologia será Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro, sul-americano e lusófono, que participou na missão Soyuz TMA-8 à Estação Espacial Internacional, ao lado de dois colegas, um russo e um americano, em 2006.

Na economia, assunto sobre o qual Bolsonaro admite "não entender nada", avança Paulo Guedes, considerado um tubarão do liberalismo, para atrair os mercados, muito desconfiados da simpatia do presidenciável pelo regime militar de 1964 a 1985 e respetiva política económica estatizante. "Se privatizar tudo, a dívida passa a zero, se privatizar metade, a dívida passa a metade", sublinhou Guedes em entrevista ao site O Antagonista.

Bolsonaro, cujo forte é a segurança pública, já escolheu também o ministro da Defesa. "Será o General Augusto Heleno ou algum general quatro estrelas indicado por ele", afirmou naquela mesma cerimónia em que se filiou ao PSL, minutos antes de dizer que quer transformar a Bancada da Bala, grupo suprapartidário do Congresso Nacional composto por ex-militares e ex-polícias que defende os interesses das empresas de armamento, em Bancada da Metralhadora. Heleno, considerado um militar da linha mais radical do exército, diz-se "defensor dos direitos humanos mas só para humanos direitos".

Sem pasta atribuída mas influente nas decisões políticas de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, advogado, foi negociando a filiação do candidato aos diferentes partidos que se revelaram interessados em acolhê-lo. Optou pelo PSL, depois de namorar por meses o Partido Ecológico Nacional, que mudara o nome para Patriotas só para receber Bolsonaro. Despeitado, o líder do Patriotas Adilson Barroso culpou Bebianno pelo fracasso das negociações: "Foi ele que envenenou o deputado, logo ele, um advogado de um escritório ligado ao PT que defendeu [o ex-número dois de Lula] José Dirceu".

Os outros membros da equipa de Bolsonaro têm o mesmo apelido: são os seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro. O primeiro é deputado estadual no Rio de Janeiro e não acredita que pais possam ter orgulho em filhos homossexuais; o segundo foi o vereador mais jovem eleito na Cidade Maravilhosa, costuma fazer piadas com o casamento gay e defende a pena de morte e a tortura para traficantes de droga; e o terceiro, deputado federal e polícia, anda de arma à cintura em todas as circunstâncias. Na última quarta-feira, Bolsonaro publicou ainda vídeo onde convidava o ator de telenovelas e filmes pornográficos Alexandre Frota para a pasta da Cultura. Frota, apoiante impetuoso do candidato, levou a sério. Observadores quiseram acreditar que se tratava de uma brincadeira.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG