Equador a um "sim" de acabar com a carreira política de Rafael Correa

Ex-presidente é o alvo da segunda pergunta da consulta proposta pelo sucessor e ex-aliado. Caso seja inviabilizada a reeleição ilimitada, não pode tentar voltar ao poder em 2021

Em dezembro de 2015, um ano e meio antes de sair do poder ao final de uma década na presidência no Equador, Rafael Correa assegurou que deixava uma porta aberta para o seu regresso. O Congresso aprovou uma emenda que permitia a reeleição ilimitada a partir de 2021 - evitava assim as críticas de que se queria perpetuar no poder. Para presidir aos destinos do país até lá, lançou o seu ex-vice-presidente Lenín Moreno. O mesmo que, após ser eleito por curta margem em abril de 2017, começou a virar as costas ao mentor. A rutura consolida-se amanhã, no referendo que, entre outras questões, pergunta sobre o fim da reeleição ilimitada. O "sim" significará o fim político de Correa.

"Para garantir o princípio da alternância, concorda emendar a Constituição para que todas as autoridades eleitas por voto popular possam ser reeleitas uma só vez?" Esta é a segunda de sete questões a que os 13 milhões de eleitores equatorianos terão de responder. Outras perguntas põem em causa mais medidas de Correa como reduzir a área de exploração petrolífera para proteger o ambiente ou alterar a lei das mais-valias. "Moreno queria um referendo, como no seu tempo fez Correa, para conseguir avançar com algumas reformas e entre as perguntas meteu uma destinada a eliminar a reeleição permanente, que caso seja aprovada acaba para sempre com a carreira política de Correa", de 54 anos, disse ao DN o investigador Carlos Malamud, do Real Instituto Elcano.

As sondagens apontam para a vitória do "sim" em todas as perguntas. "Seria um golpe brutal, sobretudo para uma pessoa com um ego tão grande como Correa. Temos que ver se se atreve a voltar ao Equador", referiu Malamud. Após uma década à frente dos destinos do país, como prometido, o ex-presidente foi viver para a Bélgica, terra natal da sua mulher - regressando apenas agora para fazer campanha. "Mesmo desde a Bélgica queria continuar a dirigir o país, como se fosse o presidente. Moreno também tem o seu carácter e negou subordinar-se às pressões", lembrou o investigador.

A rutura entre ambos intensificou-se com a decisão de Moreno de dialogar com a oposição, aproximar-se da comunidade empresarial e tomar medidas enérgicas contra a corrupção - que levaram à saída do seu vice, Jorge Glas, um grande aliado de Correa. Ou quando o presidente de 64 anos, em cadeira de rodas desde que levou um tiro durante uma tentativa de assalto em 1998, atacou o antecessor por causa da complicada situação económica que herdou. A divisão chegou à Aliança País, partido que foi criado em torno de Correa em 2006, que tentou expulsar Moreno da liderança. Os tribunais travaram-no e acabou por ser o ex-presidente a sair, levando consigo vários apoiantes.

"A derrota é muito amarga, especialmente para os políticos", disse Malamud, sugerindo que sem Correa o "correísmo vai converter-se em algo marginal". Em causa, alegou o investigador, está o controlo do grupo parlamentário da Aliança País - o maior do Congresso, com 74 deputados (em 137). "Com uma eventual derrota, é provável que alguns seguidores de Correa ou que mostraram a sua inclinação pelo ex-presidente acabem por voltar ao redil", disse.

A campanha para o referendo ficou marcada pelos ataques entre ambos, com Correa a acusar Moreno de desmantelar a sua "revolução cidadã". Além disso, os seus apoiantes dizem que é ilegal, já que foi convocado por decreto presidencial em novembro, numa altura em que o Tribunal Constitucional demorava em tomar uma decisão.

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