"Se houver novas eleições em Espanha será um fracasso coletivo"

Entrevista ao eurodeputado Esteban González Pons, porta-voz do Partido Popular espanhol no Parlamento Europeu

São inevitáveis novas eleições em Espanha, depois de meses sem que os partidos tenham chegado a acordo para formar governo?

Tenho a esperança de que se poderá formar um governo em Espanha sem a necessidade de novas eleições. Há duas possibilidades: ou um governo de centro, com socialistas, populares e Ciudadanos, ou um de extrema-esquerda, com comunistas e socialistas como o governo de Portugal. No final, é o socialismo espanhol que vai decidir se quer um governo de extrema-esquerda, um governo de centro ou novas eleições.

Mas os socialistas têm recusado dialogar com o PP. O que pode mudar nos últimos dias do prazo?

Esperamos que mudem de atitude antes de termos de voltar às urnas e terem de ser os eleitores a repetir a mensagem das últimas eleições. Eles disseram-nos: a mudança é o pacto. A mudança que os eleitores querem é que os políticos cheguem a acordo. Creio que estamos a faltar ao mandato eleitoral ao não ser capazes de pactuar entre nós.

Nesse sentido, não terá Mariano Rajoy cometido um erro ao recusar ir ao debate de investidura, após o convite do rei Felipe VI?

Rajoy não tinha apoios suficientes para conseguir passar. Ir ao debate para fracassar é aumentar a crise. Assim, preferiu não submeter um fracasso ao Congresso.

Mas nem tentou negociar...

Desde o primeiro dia que os socialistas disseram que não queriam negociar com o PP e tornaram famosas duas frases: "Não é não" e "que parte do não é que não percebem". Com isso sobre a mesa, Rajoy não podia tentar uma negociação com o PSOE. O que esperamos é que a passagem do tempo os tenha levado a repensar ou que sejam os eleitores que os obriguem a repensar.

Se houver novas eleições, acha então que a culpa será do líder socialista Pedro Sánchez?

Se houver novas eleições em Espanha será um fracasso coletivo. Não faz sentido culpar ninguém de uma nova convocatória eleitoral. Teremos fracassado todos. Um pouco mais Pedro Sánchez porque não quis dialogar, mas não penso que os eleitores distingam entre uns partidos e os outros.

Sánchez negociou um pacto com o Ciudadanos, que o Podemos recusa apoiar e sobre o qual está a ouvir as bases. Como acha que vai correr este processo?

Penso que esse pacto é inviável porque entre Podemos e Ciudadanos há mais distância que entre PSOE e PP. Há uma brecha ideológica intransponível.

Então não acredita num volte-face nos últimos dias...

Penso que um governo tutti-frutti, como chamei a um executivo que sairia desse pacto, é impossível. Seria muito difícil uma política congruente porque as contradições superam as coincidências.

Poderá haver alguma surpresa na terceira ronda de consultas do rei?

Penso que não há lugar na atual política espanhola a salvadores da pátria. Não há lugar a terceiras pessoas que não tenham sido submetidas a eleições ou votadas pelos cidadãos.

Penso que não há lugar na atual política espanhola a salvadores da pátria

E se houver eleições e o resultado for o mesmo?

Se depois das eleições se repetir este resultado já não haverá desculpa para se continuar a ignorar o que o sentido comum está a dizer agora e não formar um governo de centro.

Rajoy será o candidato do PP? Não pensam numa nova liderança?

Rajoy ganhou as últimas eleições. Se estas eleições têm algo de segunda volta, o único que tem de estar seguro foi quem ficou em primeiro. Não estamos a pensar numa mudança de liderança.

De que forma os escândalos de corrupção que abalam o PP vão influenciar os eleitores?

Em Espanha há casos de corrupção, é verdade, mas em minha opinião não há mais do que no resto da Europa. Em Portugal há um ex-primeiro-ministro imputado, no Reino Unido, um primeiro-ministro apareceu nos Papéis do Panamá, em França, os ex-presidentes estão imputados... Em Espanha há um problema que envolve tanto o Partido Popular como o resto dos partidos, porque a corrupção não tem que ver com ideologia, tem que ver com pessoas. O PP pediu perdão, mudou as pessoas envolvidas, mudou as normas de funcionamento interno e as leis. Cometemos erros, mas não os vamos permitir nunca mais.

E que impacto terá a demissão do ministro José Manuel Soria, envolvido nos Papéis do Panamá?

O problema do ministro Soria não é um problema de contas no Panamá, mas da forma como geriu a resposta. É um problema de comunicação. Penso que nas próximas eleições os cidadãos, após seis meses de um governo em funções, vão pensar mais no que vai ser de Espanha do que nos políticos.

Os espanhóis veem o atual governo de Portugal com inquietude

Em Portugal, negociou-se um governo de esquerda. Como veem os espanhóis o caso português?

Os espanhóis veem o atual governo de Portugal com inquietude, porque é um governo que está a recuar nas reformas e que, aparentemente, não vai cumprir os seus compromissos com a Europa. E não queremos um governo assim para Espanha. As reformas não são uma imposição de Bruxelas. São um compromisso ao qual chegamos todos os países que formamos parte do euro para que o euro seja possível.

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