"Já é tempo de os EUA terem uma mulher presidente"

Escolhido para estar na convenção democrata em julho, o lusodescendente Tony Cabral acredita na vitória de Hillary Clinton. Esteve em Lisboa há dias para uma conferência na FLAD.

Vai estar na convenção democrata em Filadélfia em julho...

Sim. Fui eleito para ser delegado à convenção por Hillary Clinton.

A vitória está à vista? Como a própria Hillary disse em Nova Iorque?

Acho que sim. Mas matematicamente, o senador Bernie Sanders ainda tem hipótese de conseguir os delegados suficientes antes da convenção. Para isso, teria de ganhar o resto das primárias com uma vantagem de cerca de 70%. Portanto, é quase impossível.

Sanders ter chegado aqui foi uma surpresa. Qual o seu contributo para a campanha democrata?

É uma surpresa boa. Veio dar uma oportunidade para Hillary aperfeiçoar o discurso e a leitura dos desafios enfrentados. O senador Sanders forçou até certo ponto a campanha de Hillary Clinton a enfrentar estes assuntos, tornando-a uma melhor candidata para as gerais de novembro. O discurso tem sido bom. A ponto de inspirar grande parte da juventude que participa nas primárias e nos caucus democratas. É interessante que um candidato de 74 anos tenha esse tipo de inspiração nos mais jovens.

Isso pode ter que ver com o facto de ele se assumir como socialista? Uma palavra que muitos americanos, sobretudo mais velhos, associam a comunismo?

Ele não se considera socialista, considera-se "socialista democrático"...

Muitos ficam-se pelo "socialista"...

Talvez, mas ele tem apoio também noutras faixas etárias. Está a apresentar uma solução diferente. Uma solução que geralmente não é boa para as eleições gerais, quando é preciso um discurso mais centrista. Aí, Hillary está muito melhor situada. O discurso de Sanders veio fazer que ela se posicionasse um pouquinho mais à esquerda. É bom. Há imensos desafios que não podem continuar a ser resolvidos como tem acontecido no passado.

Vê muitas diferenças entre Hillary Clinton em 2008 e em 2016?

Há grandes diferenças. Não só Hillary se assumiu mais como mulher - que eu acho importante para grande parte do eleitorado, inclusive para mim. Já é tempo de os Estados Unidos terem uma mulher presidente. Nasci e fui criado numa casa com sete irmãs, a minha mãe, a minha avó. No meio das mulheres. Era só eu, o meu irmão e o meu pai. Em geral elas tomavam boas decisões. Acho que é isso que podemos esperar de Hillary Clinton como presidente. Por outro lado ela está a apresentar um lado mais humano. Uma das críticas em 2008 é que era muito fria. Na própria mecânica da campanha há diferenças. Ela foi buscar coisas da campanha de Obama, especialmente nas redes sociais.

Bill Clinton ficar na sombra ajuda?

Bom, Bill Clinton continua envolvido na campanha. Tem sido usado nos estados e nas regiões onde é mais popular. O ex-presidente não funciona em todo o lado.

Do lado republicano, Trump parece inevitável. Foi subestimado pelo partido?

Bom, nem o partido republicano esperava que Trump conseguisse o que já conseguiu. Mas, analisando bem a situação, o problema aqui é do próprio partido. Está dividido. Nenhum dos candidatos é uma boa alternativa: seja Ted Cruz ou Donald Trump. Cruz é de extrema-direita mesmo. E não conseguirá ganhar umas eleições. Nem tem apoio dos próprios colegas no Senado. E depois temos Trump. Está a dizer o que eles querem ouvir. É contra o establishment. E este está a fazer tudo para que ele chegue à convenção com menos do que os 1237 delegados necessários. Vai ser uma convenção provavelmente aberta, e aí quem sabe o que pode acontecer.

Acredita que possa aparecer um candidato de última hora?

Um John Kasich talvez... Ele está a apostar tudo nisso. Mas é quase impossível, mesmo que seja uma convenção aberta. Se isso acontecer, vai dividir ainda mais o eleitorado e o partido. Seria uma derrota total dos republicanos, não só para a Casa Branca mas também para o Congresso. Perderiam a maioria que têm. Pode acontecer um total descalabro. Mesmo que Trump chegue à convenção com 1100 delegados, vai ser difícil não ser ele o nomeado. E se isso acontecer, o que é que Trump vai fazer?

Acredita que avance como independente?

Ah! sim. Ele deixa isso no ar. Se acontecer, qualquer que seja a escolha do Partido Republicano, não tem hipóteses. Porque Trump tem um bloco de votos importante. Tem uma base sólida, na casa dos 35% a 45% dos votos. Estas pessoas não votam em mais ninguém. E vão com ele para uma campanha independente.

Trump insultou os mexicanos, ameaçou banir os muçulmanos e atacou as mulheres. O que pode ele dizer que acabe com a sua candidatura?

Nada. Aquela base que ele tem é um grupo grande do eleitorado frustrado com o sistema e fica com ele.

Amanhã vão a votos mais cinco estados na Costa Leste. Isso vai favorecer Hillary e Trump?

Em teoria sim, e as sondagens indicam isso. Nos próximos estados, Ted Cruz não tem hipóteses de ganhar a Trump. No caso de Hillary, acho que vai ganhar todos, mesmo com primárias abertas a independentes. E há também primárias abertas a todos, como as da Califórnia a 7 de junho, em que os eleitores podem decidir se votam republicano ou democratas. Esta campanha é complicada mas tem dois benefícios: para o candidato, que ao longo destes meses vai melhorando o seu discurso, a sua análise dos desafios e se vai tornando melhor, e para o próprio eleitorado. Chegado ao fim das convenções, tem um grande conhecimento dos candidatos. Não só de assuntos mais pessoais, como reage a nível humano, mas também das posições políticas, que soluções apresenta para os desafios.

Imaginemos um duelo Hillary-Trump. Que desafios impõe à ex-primeira-dama, racional e fria, enfrentar alguém tão imprevisível como Trump? Afinal ela própria reconhece que não é uma natural como o marido...

Não, não é. E quem já esteve com os dois teve a oportunidade de comprovar as diferenças. Eu já tive essa experiência. Com ele, podem estar mil pessoas na sala que se ele falar connosco, é como se não houvesse há mais ninguém na sala. Olhos nos olhos. Gosta de tocar. É o estilo huggy-huggy. E há pessoas que gostam. Já ela não é assim. Mas está muito melhor. Já dança salsa.

Mas como é que uma pessoa mais racional reage a Trump?

Se for Trump, e deve ser, vai ser uma campanha feia. Trump vai atirar tudo. Vai usar o próprio Bill Clinton contra ela. Agora, ele também tem muito para se falar, mesmo nesse ramo. Talvez tenha uma bagagem maior do que o próprio Clinton. Tudo é jogo. Mas no fim, ela é que vai ganhar.

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