"E porque não um duelo entre Sanders e Cruz em novembro?"

Mário Avelar, professor no Centro de Estudos Anglo-Americanos da Universidade Aberta, admite que começam a surgir dúvidas sobre a inevitabilidade da candidatura de Hillary Clinton. E aposta em Ted Cruz para contrariar favoritismo de Donald Trump

Algumas sondagens dão Bernie Sanders à frente de Hillary Clinton no Iowa e no New Hampshire. Valem o que valem, mas se se confirmarem pode ser o fim da campanha de Hillary? Ou ainda há muito tempo para recuperar?

Neste momento começa a emergir algum grau de incerteza em torno da inevitabilidade da sua candidatura, o que, ainda há alguns meses, era quase impensável. No entanto, importa recordar que Sanders não é propriamente um desconhecido; ele é um homem com larga experiência política, que, no passado, esteve presente na já distante marcha para Washington liderada por Luther King, e que vem tomando posições firmes face a temas polémicos, como a atuação da NSA no quotidiano dos cidadãos, e fraturantes, como os que envolvem as comunidades gay. Talvez por isso, é um homem que consegue granjear um acolhimento mais favorável junto dos setores mais jovens, porventura mais à esquerda, do eleitorado democrata.

Já vimos um cenário parecido em 2008 (ficou em terceiro no Iowa, mas depois ganhou no New Hampshire), o que voltou a falhar agora na campanha de Hillary?

Tal como Sanders, também Hillary Clinton anda há muito envolvida na atividade política. Com um inconveniente para ela: a da maior visibilidade e, consequentemente, a de ter sido confrontada, ao longo do tempo, com situações de difícil gestão, como, evidentemente, o caso Lewinsky. Uma mulher obviamente competente, Hillary Clinton criou uma imagem algo esfíngica, distante, eventualmente cínica, palavra que uso no sentido da contenção emocional. Para compreender este aspeto seria importante refletir um pouco sobre a forma como os americanos lidam com as questões éticas, com as emoções, com a espontaneidade, com a sinceridade. Isso levar-nos-ia longe, por certo às raízes de um protestantismo radical da sua cultura. Já reparou na facilidade com que um presidente americano solta uma lágrima perante uma música de um Pete Seeger (se for democrata) ou de uma Janet Greene (se for republicano)? Imagina um presidente português ou francês a fazê--lo, sem que se cobrisse de ridículo junto dos cidadãos dos seus países?

Do lado republicano, Trump conseguiu tornar-se quase inevitável. Com tantas declarações polémicas que acabariam com a campanha de qualquer um, como é que continua favorito à nomeação?

Uma vez mais, é preciso ter presente a história, a complexa identidade americana e o modo como ela se reflete, por exemplo, no partido conservador, nos republicanos. Há, pelo menos, duas grandes sensibilidades em confronto neste partido, que, de algum modo, podem ser representadas no outrora candidato a presidente, John McCain, e na sua candidata a vice-presidente, Sarah Palin: uma mais institucional, na linha de um dos Fundadores, o presidente John Adams, e outra mais radical e populista, ligada ao Tea Party e a setores evangélicos radicais. É óbvio o facto de Trump encontrar eco junto destes. Mas não é menos óbvio que a vertente institucional não se revê na sua agenda. Como é que esta divisão será superada? Bom... isso é uma das perguntas de um milhão de dólares.

Dos adversários de Trump, qual tem mais potencial para acabar com o favoritismo dele?

Outra pergunta de um milhão de dólares. Talvez Ted Cruz... A sua proximidade à imensa minoria hispânica não deve ser negligenciada num futuro embate com um - ou uma, claro - candidato democrata. O cenário no campo republicano é ainda muito difuso. Alguns estudos de opinião afirmam que um terço dos votantes republicanos nestas primárias ainda estão indecisos.

Vamos ter um duelo Hillary-Trump em novembro?

Mais uma pergunta de um milhão de dólares! E, porque não, entre Sanders e Cruz?

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