"Em muitos países uma ONG é apenas um serviço de entrega de comida"

Numa passagem por Portugal para um curso de verão na Fundação Gulbenkian, Deborah Hardoon, responsável pela Investigação da Oxfam Reino Unido, destacou a importância de ter dados fiáveis para dar credibilidade ao trabalho de uma ONG

Quanto esforço é que uma ONG como a Oxfam coloca na investigação?

No nosso caso, o esforço que pomos na investigação é muito elevado. Se olhar para a nossa estratégia e falar com os dirigentes da organização, é muito claro que é crítico para a nossa credibilidade e para a gestão de riscos basearmo-nos em provas fortes. Quer olhemos para a resposta humanitária, para o desenvolvimento a longo prazo ou para a defesa de causas, a investigação que sustenta esse trabalho é fundamental. Como investigadora, acho que podemos sempre fazer mais. Mas, pelo menos, na Oxfam há vontade clara de investir na busca de provas que sustentem o que fazemos.

Quais os maiores desafios na investigação para uma ONG como a Oxfam?

Há muitos desafios. O primeiro é encontrar a pergunta à qual queremos responder. Porque estamos a lidar com situações muito complexas. E a complexidade e mudança sistémica significam que temos de olhar para os problemas de uma perspetiva multidinâmica. Isso torna muito difícil identificar uma pergunta específica para a nossa análise; uma pergunta que verdadeiramente ajude a gerir um programa e encontrar uma solução. O segundo é que quando fazemos investigação junto de uma comunidade, em países em desenvolvimento, com pessoas que vivem na pobreza, isolados e marginalizados, queremos saber a sua história. Queremos descobrir o que se passa, como estão a ser afetados e o que podemos fazer para ajudar. Mas também temos de respeitar que são indivíduos com vidas e histórias próprias. Por isso, temos de garantir que temos o consentimento de que precisamos da sua parte. Não basta que fique implícito que dão a sua autorização, têm de dizer especificamente que não se importam e até querem que fiquemos a saber as suas histórias. E que compreendem e autorizam que a sua fotografia seja usada em material que vai servir para chamar a atenção para a sua situação. Faz parte da ética da investigação. O terceiro desafio é que as respostas que obtemos tendem a ser muito matizadas. Nunca podemos ter a certeza de que, se agirmos de certa forma, teremos um determinado resultado. Depende sempre. Depende do contexto. E, em termos de campanhas, isso não vai convencer ninguém. Por isso, temos de encontrar uma forma de traduzir as conclusões a que chegamos e estão cheias de nuances e complexidades e torná-las suficientemente poderosas para impor a mudança.

Há muitas suspeitas quando se fala do trabalho das ONG. É difícil ter uma verdadeira força na sociedade?

O impacto da nossa investigação depende do que estamos a analisar e de quem queremos influenciar. Os relatórios que nos últimos três anos a Oxfam publicou em janeiro antes do Fórum de Davos são dirigidos a uma audiência global - os media, o seu público, os líderes mundiais, o Papa, toda a gente. Esses relatórios têm sido muito poderosos a chegar a estas audiências. Durante esse processo fomos desafiados por várias organizações, sobretudo as que questionavam o argumento central dos nossos relatórios - que a desigualdade é uma coisa má e que temos de encontrar formas alternativas de gerir a nossa economia de maneira a que os mais pobres não fiquem para trás. Há grupos nos extremos neoliberais que acham que esse argumento prejudica o modelo económico que lhes é querido. Mas ficamos felizes por poder discutir com quem nos questiona. Em vez de publicarmos um relatório e de ele desaparecer, os críticos mantêm o assunto vivo. A nossa estatística principal era que oito milionários tinham tanto dinheiro como a metade mais pobre do planeta. Alguns críticos achavam que na soma da segunda metade mais pobre do planeta não devíamos incluir a dívida. Foi neste ponto que surgiu a maior desconfiança em relação ao relatório. Noutros casos o desafio surge quando as ONG tentam fazer um trabalho que pareça mais político. A maioria dos governos não se preocupa que as ONG levem comida a pessoas esfomeadas mas começam a preocupar-se quando essas ONG se envolvem na política. Em muitos países em desenvolvimento uma ONG internacional não pode fazer campanha, é apenas um serviço de entrega de comida.

Dar dinheiro é muitas vez mais eficaz do que dar comida, mas essa estratégia não passa facilmente para o público. Há alguma forma de convencer quem quer ajudar que uma estratégia funciona?

Desde 1981, quando a ideia surgiu, evoluímos bastante. E hoje muitos concordam que dar dinheiro é melhor do que dar alimentos quando falamos de desastres humanitários. Eu não trabalho na resposta humanitária, não sei bem em que ponto estamos. Mas ao longo dos anos foi por provarmos que o dinheiro era o que melhor funcionava através dos dados que recolhemos que se conseguiu ultrapassar em parte essa relutância. Se os dadores insistissem em agir contra os factos iam parecer ignorantes. A investigação é muito importante. Mas temos de entender a para dinâmica, os interesses instalados e que algumas organizações estão relutantes em abandonar o que sabem.

Trabalhou para a Transparency International no Índice da Corrupção. Diria que este mudou a forma como a justiça lida com a corrupção na política?

O índice foi publicado pela primeira vez em 1994 e na altura ninguém falava em corrupção. O Banco Mundial dizia que não existia, era uma palavra proibida. Na altura, o índice pôs no papel que a corrupção existia e que podíamos medi-la. Foi um trabalho fantástico para chamar a atenção. Ao longo dos anos passou a cobrir mais países e a ter mais impacto mediático. Quando chegámos aos anos 2000, a corrupção já está na agenda e começou a haver esforços por parte das instituições para a conter. Comecei a trabalhar na Transparency International em 2011 e havia muitos doadores interessados em financiar esforços anticorrupção. Hoje o índice é uma referência, já não é revolucionário, como foi há 20 anos. Porque já cumpriu o seu papel.

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