El Chapo condenado a prisão perpétua. Das fugas cinematográficas à prisão

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El Chapo condenado a prisão perpétua. Das fugas cinematográficas à prisão

O homem que liderou durante mais de 20 anos o cartel de Sinaloa foi condenado a prisão perpétua em Brooklyn, Nova Iorque, esta quarta-feira. Joaquín Guzmán, 62 anos, sempre se declarou inocente.

Joaquín Guzmán, mais conhecido como El Chapo, foi condenado esta quarta-feira a prisão perpétua.

A pena será cumprida numa prisão de alta segurança no Colorado.

O juiz Brian Cogan condenou El Chapo a prisão perpétua por tráfico de droga, mais 30 anos por violência com armas e outros 20 por branqueamento de dinheiro. Deverá ainda pagar uma indemnização de 12,6 mil milhões de euros.

Antes de conhecer a sentença, El Chapo teve oportunidade de falar. Criticou a reclusão nos EUA, para onde foi extraditado, e que classificou como "uma tortura psicológica, emocional e mental durante 24 horas", cita o El Pais. Manteve que este era um julgamento injusto. Foi preso em 2016 e extraditado em 2017.

"Uma vez que o governo dos EUA me vai mandar para uma prisão onde o meu nome não voltará a ser ouvido, uso esta oportunidade para dizer que não existiu justiça aqui", afirmou El Chapo, citado pelo The New York Times.

A sentença não foi recebida com surpresa dada a lista de crimes que lhe estavam imputados e que recuam às últimas três décadas - uma organização de tráfico de droga entre os EUA e o México. Exceto pela parte do próprio arguido, que ouviu a condenação através de um tradutor, e, relata o New York Times, se mostrou surpreso.

Quando a leitura da sentença terminou, continua o The New York Times, El Chapo virou-se para trás para olhar para a mulher, Emma Coronel Aispuro, que lhe levantou os polegares com lágrimas nos olhos.

Joaquín Guzmán deverá cumprir pena na prisão de maior segurança dos EUA, a United States Penitenciary Administrative Maximum Facility, também conhecida como ADX, em Florence, no estado do Colorado.

Ascensão e queda de El Chapo

Joaquín Guzmán nasceu em 1957 em La Tuna, nas montanhas Sierra Madre no estado mexicano de Sinaloa. Era um de 11 irmãos, filhos de um rancheiro alcoólico que cultivava papoilas para ópio e heroína. Tinha 15 anos quando começou também na apanha da papoila, trabalhando para o traficante local Héctor Luis Palma Salazar.

"É verdade que as drogas destroem. Infelizmente, onde cresci não havia outra forma e ainda não há de sobreviver, nenhuma forma de trabalhar na nossa economia e ser capaz de ganhar a vida", disse na entrevista que deu ao ator norte-americano Sean Penn, quando estava em fuga e que foi publicada na revista Rolling Stone em janeiro de 2016, já depois de ter sido recapturado. A entrevista foi feita em outubro de 2015 e terá ajudado à sua captura.

No início dos anos 1980, El Chapo (alcunha que significa baixinho, devido à sua estatura baixa - 1,68 metros - mas forte) já trabalhava para o cartel de Guadalajara, sob o comando de Miguel Ángel Félix Gallardo, mas tinha ambição de mais. Na altura era também conhecido como El Rapido, pela sua capacidade de entregar rapidamente a droga nos EUA.

Quando Gallardo foi preso, em 1989, os territórios do cartel de Guadalajara foram divididos em três, surgindo os cartéis de Tijuana, Juárez e Sinaloa, este último liderado por Guzmán, Salazar e Ismael El Mayo Zambada Garcia. El Chapo tornar-se-ia o mais poderoso narcotraficante do mundo, especialmente após a morte do colombiano Pablo Escobar, em 1993.

A procura de droga a norte da fronteira levou-o a desenvolver métodos inovadores, desde túneis com ar condicionado até ao recurso a uso de submarinos ou a uma frota de Boeing 747 personalizados. Não traficava apenas cocaína ou heroína, mas também marijuana e metanfetaminas. E os EUA não eram o seu único mercado.

"Forneço mais do que qualquer outra pessoa no mundo", disse El Chapo na entrevista à Rolling Stone. "Se não houvesse consumo, não haveria vendas. É verdade que o consumo, dia após dia, torna-se maior e maior. Por isso vende e vende", acrescentou, rejeitando contudo ser o líder do cartel. "As pessoas que dedicam a sua vida a esta atividade não dependem de mim."

Prisão e fugas

Em fevereiro de 1993, a polícia da Guatemala prendeu-o perto da fronteira e deportou-o para o México. Foi condenado a 20 anos de prisão, mas nada mudou: continuava a liderar o cartel atrás das grades, onde através de subornos garantia uma vida de luxo e conseguia passar as ordens ao seu irmão Arturo.

A 19 de janeiro de 2001, escapou da prisão de máxima segurança de Puente Grande, em Jalisco. O mito é que o fez escondido num cesto de roupa suja. Contudo, segundo Anabel Hernández, jornalista e autora do livro Os Senhores do Narco (2010), na realidade terá fugido envergando um uniforme de polícia, com escolta policial, depois de o guarda Francisco Javier Camberos Rivera lhe ter aberto a porta. 78 funcionários da prisão, incluindo o diretor Valentin Cardenas, foram detidos por alegadamente terem ajudado à fuga.

El Chapo esteve em liberdade durante 13 anos, continuando a construir o seu império, apesar da recompensa de cinco milhões de dólares por informações que pudessem levar à sua captura. Em 2009, a decisão da revista Forbes de o colocar na lista dos mais ricos do mundo gerou controvérsia, mas Guzmán ficou lá vários anos. Em 2012, a sua fortuna era estimada em mil milhões de dólares pela revista.

Em 2013, a Comissão do Crime de Chicago declarou-o "inimigo público número 1", o único a ter esse título depois do infame mafioso Al Capone.

Em plena guerra à droga, a captura de Guzmán em fevereiro de 2014, num resort de Mazatlán, foi um dos maiores triunfos do então presidente mexicano Enrique Peña Nieto, que recusou colocá-lo sob custódia dos EUA, dizendo que seria "imperdoável" que o governo não conseguisse tomar precauções para evitar que se repetisse uma fuga.

Mas, para embaraço do presidente, El Chapo voltou a fugir um ano depois, a 11 de julho de 2015, da prisão supostamente mais segura do México. Guzmán fugiu através de um túnel a quase dez metros de profundidade, que ia do duche da prisão de Toluca até uma casa em construção a 1,6 quilómetros. O túnel, iluminado e ventilado, incluía carris adaptados a uma moto, que era usada para ajudar a retirar o entulho.

A desconfiança nas autoridades era tal que só 46% dos mexicanos inquiridos numa sondagem acreditaram nesta versão dos factos: muitos acharam que ele teria apenas subornado os guardas e saído pela porta.

Os túneis

Não era a primeira vez que Guzmán usava túneis para escapar às autoridades. Acredita-se que tenha conseguido escapar a operações policiais, no último minuto, em pelo menos duas ocasiões: em Culiacán, em 2014, e em Los Mochis, em 2016.

Na primeira ocasião, sete casas estavam ligadas por túneis secretos com ligação aos esgotos. Numa das casas, a porta era reforçada e havia grades nas janelas, com as autoridades a gastar dez minutos só para conseguir entrar. Tempo mais do que suficiente para Guzmán escapar através de um alçapão debaixo da banheira.

Em Los Mochis, as autoridades acreditaram ter descoberto a casa em que Guzmán se escondia, mas quando entraram, ele já não estava lá. Tinha conseguido fugir com um dos seus seguranças através de uma passagem construída atrás de um espelho que levava ao sistema de esgoto na cidade. Mas desta vez os militares estavam preparados, detetando rapidamente a saída de esgoto (no meio de uma rua) pela qual tinham fugido e o carro que roubaram.

Após um tiroteio, acabaria por ser recapturado a 8 de janeiro de 2016. "Missão cumprida. Apanhámo-lo", escreveu então Peña Nieto no Twitter.

El Chapo seria então extraditado para os EUA, pouco antes da tomada de posse de Donald Trump, o que alguns viram como uma "prenda" para o novo presidente norte-americano, que tinha sido um forte crítico do México na campanha.

As acusações e o julgamento

Apesar de ser procurado por várias jurisdições nos EUA, o processo centralizou-se em Nova Iorque, por se considerar ser o que tinha mais hipóteses de avançar. Ao todo, Guzmán era acusado de uma dezena de crimes, dizendo-se inocente de todos. Arriscava a pena de prisão por liderar uma organização criminosa (mesmo depois de estar preso), matar pelo menos 30 pessoas (incluindo dois membros do cartel dos Zetas, que terá alegadamente executado com um tiro na cabeça), e outros crimes relacionados com o narcotráfico, como lavagem de dinheiro e uso de armas de fogo.

Do lado da defesa, os advogados Eduardo Balarezo e Jeffrey Lichtman, procuraram convencer os jurados de que Guzmán não é tão mau como o pintam e foi vítima de uma conspiração para o apresentar como um monstro. Também questionaram a credibilidade das testemunhas, muitas das quais terão direito a penas mais leves em troca de denunciar o ex-patrão. O objetivo: reduzir a sentença. Já que ninguém duvidava de que fosse ser considerado culpado -- o que aconteceria ao fim de 11 semanas de julgamento e sete dias de deliberação dos jurados.

Os jurados eram anónimos

Os 12 jurados que julgaram El Chapo ficaram no anonimato, com os seus nomes, moradas e empregos a ficarem secretos tanto para Guzmán e os seus advogados, como para os procuradores e a imprensa.

A decisão foi do juiz Brian Cogan, concordando com o argumento do procurador de que era necessário evitar que os jurados tivessem receio de represálias ou fossem alvo de intimidação. A defesa ficou desapontada com a decisão, alegando que isso dva a falsa impressão de que Guzmán é perigoso.

Além de ficar anónimo, cada um dos jurados era escoltado de e para o tribunal pelos US Marshals (responsáveis pelo programa de proteção de testemunhas). O júri ficará também afastado do público.

Na audiência a assistir ao julgamento, além dos jornalistas, esteve a mulher de El Chapo. A norte-americana Emma Coronel Aispuro, antiga rainha de beleza, casou com Guzmán quando tinha apenas 18 anos, em novembro de 2007. Em 2011, nasceram as duas filhas gémeas do casal, mas o líder do cartel de Sinaloa terá pelo menos 13 filhos de três mulheres diferentes.

As testemunhas

No banco das testemunhas sentaram-se cerca de 40 pessoas, cuja identidade não foi à partida revelada e com recurso a nomes falsos. Isso inclui agentes dos serviços de informação, especialista do FBI e da DEA, assim como ex-membros do cartel. Houve pelo menos 16 testemunhas cooperantes, como Dámaso López Núñez, conhecido como El Licenciado.

Antes de se juntar oficialmente ao cartel de Sinaloa, tornando-se no "homem do dinheiro", Núñez trabalhou no sistema de prisões mexicano, tendo sido um dos organizadores da fuga de Guzmán em 2001 da prisão de Puente Grande (da qual se tinha demitido uns meses antes). O ex-confidente de Guzmán participou em parte das decisões do cartel de Sinaloa durante 15 anos e assumiu o controlo após ele ter sido detido em 2014.

Atualmente detido numa prisão da Virgínia, depois de se ter declarado culpado do crime de importação de cocaína para os EUA, está à espera de conhecer a sua sentença. Que poderá ser reduzida, graças à informação que irá fornecer em julgamento contra o ex-patrão.

O seu filho, Damaso López Serrano, também terá testemunhado. Em julho de 2017, entregou-se às autoridades norte-americanas na fronteira com o México, declarando-se culpado de tráfico de cocaína, heroína e metanfetaminas. Na altura, segundo os media mexicanos, estaria envolvido numa luta de poder com os filhos de Guzmán.

Outras testemunhas foram os irmãos gémeos Pedro e Margarito Flores, dois dos maiores traficantes de Chicago. Foram condenados a 14 anos de prisão em 2015 e não foram vistos em público desde então. Os irmãos já eram traficantes há quase uma década quando, em 2005, conheceram um amigo de Guzmán, que os recrutou para trabalhar com ele.

Em 2008, temendo ser presos, viraram-se contra El Chapo, trabalhando com as autoridades de forma a gravar Guzmán a falar sobre os detalhes do seu negócio. O pai de ambos, Margarito Flores Sr., foi assassinado em 2009, por uma equipa do cartel, num aparente ato de vingança. As mulheres de ambos estão sob proteção do governo, tendo escrito um livro de memórias no ano passado (Cartel Wives).

Cultura pop

Em Sinaloa, há muito que El Chapo é um herói. Quer seja porque costumava aparecer de surpresa nas festas locais e distribuía dinheiro ou porque agia como uma espécie de Robin dos Bosques, construindo estradas e pagando os tratamentos hospitalares para os doentes, quando o governo mexicano não era capaz de fazer nada para ajudar as aldeias mais remotas. Isto apesar do rasto de sangue que também deixou na região.

Nas lojas locais, segundo a reportagem da revista Time, há chapéus de basebol com as palavras Chapo ou CDS (Cartel de Sinaloa).

No resto do mundo, graças às suas fugas e à forma como desafiou as autoridades, músicas, filmes, livros e uma série de televisão ajudaram a dar a Guzmán o estatuto de lenda, apenas igualável à do rei da cocaína colombiana, Pablo Escobar.

A série El Chapo, uma coprodução da mexicana Univision e da Netflix, que acompanha o crescimento de Guzmán desde os tempos em que era El Rapido até à última captura, teve três temporadas (35 episódios) e passou entre abril de 2017 e abril de 2018. O ator mexicano Marco de la O interpretou o líder do cartel de Sinaloa.

"Após a sua captura cinematográfica no ano passado, a indústria do entretenimento aproveitou a oportunidade de colocar El Chapo na nossa cultura pop como a nossa mais recente obsessão com um fora-da-lei", disse Robert J. Thompson, especialista em media na Universidade de Syracuse, à Rolling Stone. "Dos Sopranos a Breaking Bad ou House of Cards, nós como cultura acostumámo-nos com a dissonância que implica ver uma série em que o personagem principal é um homem mau", acrescentou.

A entrevista de El Chapo a Sean Penn terá sido possível graças à atriz mexicana Kate de Castillo, de quem Guzmán era fã. O líder do cartel queria fazer um filme biográfico e pensou que ambos pudessem ajudar. O filme nunca chegou a avançar, e Castillo é procurada pelas autoridades mexicanas para ser interrogada (não pode voltar ao México).

A série da Netflix não é a única série ou livro sobre Guzmán. Os direitos do livro "Caçar El Chapo", de Andrew Hogan e Douglas Century, sobre o agente da DEA que liderou a caça e a captura final de Guzmán, já foram comprados e haverá mais projetos.

Em 2017, Martín Corona, um dos assassinos de um cartel rival, escreveu Confissões de Um Assassino de Cartel. Contou como matou o cardeal Posadas Ocampo, no aeroporto internacional de Guadalajara, em 1993, depois de o ter confundido com Guzmán.

Depois há os narcocorridos, tradicionais canções que contam as histórias de episódios da vida de conhecidos narcotraficantes. El Chapo tem várias, como esta El Primer Ministro, de Gerardo Ortiz.

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