Eixo franco-alemão unido em livro com crise dos refugiados na mente

Michel Sapin e Wolfgang Schäuble admitem que os seus países estão em situações diferentes, mas têm de ser fortes para, em cooperação, ajudar o bloco europeu. E são unânimes nos elogios ao primeiro-ministro Alexis Tsipras

No dia em que entrou em vigor a troca de migrantes entre a União Europeia e a Turquia, os ministros das Finanças de França e Alemanha foram entrevistados num programa da televisão francesa para falar do livro conjunto que irão lançar no final do mês. Mas a crise dos refugiados não foi esquecida por Michel Sapin e Wolfgang Schäuble.

O responsável pelas Finanças da Alemanha, o país do bloco com o maior número de pedidos de asilo, justificou o acordo da União Europeia com a Turquia, e respetiva ajuda financeira, como forma de reduzir a pressão migratória na Europa e reforçar as fronteiras externas, classificando-o como indispensável.

"Há que reforçar as fronteiras externas da Europa, é indispensável", afirmou Wolfgang Schäuble na entrevista dada ao programa Grand Rendez-vous, no qual ele e o homólogo francês responderam a perguntas feitas por jornalistas da Europe 1, iTelé e Le Monde. E sublinhou que "há que ajudar a Turquia" para que "ajude" a Europa "a baixar a pressão".

Questionado sobre se a Alemanha está preparada para receber este ano 1,1 milhões de refugiados como em 2015, o ministro de Angela Merkel frisou que "toda a Europa está a trabalhar para reduzir o número" e que até a Suécia, com a sua tradição de acolhimento, considera necessário pôr limites às entradas.

"Não é possível que qualquer cidadão do mundo que viva numa situação difícil venha para a Europa", argumentou o alemão, considerando ao mesmo tempo que a Europa "tem uma responsabilidade" para resolver estas situações noutros continentes.

Michel Sapin, o ministro das Finanças francês, partilha dos alertas deixados pelo homólogo alemão e acrescentou: "O que importa é se somos capazes de dar respostas em conjunto. É preciso haver solidariedade e construção política".

Este entendimento franco-alemão no que diz respeito aos refugiados estendeu-se ontem também à proposta de envio de 600 agentes, entre polícias e peritos, para ajudar a Grécia a pôr em marcha o acordo entre a União Europeia e a Turquia.

Os ministros do Interior de França, Bernard Cazeneuve, e da Alemanha, Thomas de Maizière, formalizaram a proposta numa carta em que justificam a iniciativa com "a urgência particular" que a Atenas enfrenta. França e Alemanha indicam que cada um dos países enviará até 200 polícias suplementares para a Frontex (agência europeia de controlo de fronteiras), assim como cerca de 100 peritos para o Organismo Europeu de Apoio ao Asilo.

Os dois responsáveis manifestaram ainda disponibilidade para prestar "assistência técnica à Grécia" para ajudar "no reforço dos procedimentos de retorno".

De acordo com os termos do acordo bilateral, desde ontem todos os migrantes e refugiados que cheguem de forma clandestina à Grécia devem ser expulsos de imediato para a Turquia, que se compromete a aceitá-los em troca de dinheiro - ficou acordada a atribuição de um montante de seis mil milhões de euros a Ancara até 2018 - e de que os europeus assumam a instalação em seu território de refugiados sírios agora em solo turco.

Vão encontrar solução

Michel Sapin e Wolfgang Schäuble responderam ontem às perguntas dos jornalistas a propósito do livro conjunto que lançarão no próximo dia 30 e que na edição francesa se chamará Jamais sans l"Europe! Entretiens croisés de deux Européens convaincus (Nunca sem a Europa! Entrevistas cruzadas de dois europeus crentes) e na Alemanha terá o nome de Anders gemeinsam. Ein deutsch-französisches Gespräch über Flüchtlinge, Griechnland, Europa den Euro und die schwarze Null (Juntos mas diferentes, um discurso franco-alemão sobre os refugiados, a Grécia, a Europa, o euro e o equilíbrio das contas).

Nesta demonstração da união do eixo franco-alemão, os dois ministros admitiram que os seus países têm prioridades diferentes, mas sublinharam que deve persistir um espírito de solidariedade. "Estamos em situações diferentes, principalmente em termos económicos. Para a França, o grande desafio é a guerra contra o terrorismo. Para a Alemanha, é principalmente a questão dos refugiados. Mas estou convencido que o presidente Hollande e a chanceler Merkel vão encontrar uma solução para estes problemas. A verdade é que a Europa está uma situação difícil e para a ultrapassar é preciso uma França forte, uma Alemanha forte e uma importante cooperação", sublinhou Schäuble.

Um dos pontos de discórdia entre os dois ministros no ano passado foi a atitude perante a crise grega, com Sapin a mostrar-se mais próximo de Atenas e Schäuble a personificar uma linha mais dura. Mas agora os dois parecem ser unânimes nos elogios a Alexis Tsipras. "Nós confiamos nele", disseram ontem em coro. O alemão mesmo assim chamou a atenção para a necessidade de "reformas estruturais", enquanto o francês saudou "os esforços" do primeiro-ministro grego.

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