"É uma humilhação que o Orçamento de Espanha seja negociado na prisão"

Líder do Ciudadanos critica encontro de sexta-feira, na cadeia de Lledoners, entre o líder do Podemos Pablo Iglesias e o líder da Esquerda Republicana da Catalunha Oriol Junqueras. Este está detido por causa do referendo ilegal de 1 de outubro de 2017 na Catalunha. Objetivo é conseguir mais apoios para que o governo socialista de Pedro Sánchez aprove, no Parlamento, o Orçamento de Estado para 2019

O líder do Ciudadanos, Albert Rivera, não esconde o seu mal-estar em relação à reunião que vai ter lugar esta sexta-feira na prisão catalã de Lledoners entre o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, e o líder da Esquerda Republicana da Catalunha, Oriol Junqueras, que se encontra detido na mesma.

"É uma humilhação para muitos espanhóis que o Orçamento do Estado (OE) seja negociado na prisão. Estão a dar as chaves para negociar temas como o da educação e o da saúde àqueles que tentaram liquidar a democracia", afirmou esta quinta-feira Rivera durante um encontro em Madrid com os correspondentes estrangeiros.

O dirigente do Ciudadanos, partido de âmbito nacional mas nascido na Catalunha contra o independentismo, lembra que esta é uma situação inédita e que não acontece em nenhum outro país europeu. "A política económica de um país deve ser discutida por aqueles que acreditam nesse país, os que acreditam na Europa, não pode ser um vale tudo. Pedro Sánchez deve pôr fim a este disparate e convocar eleições", afirmou Rivera, referindo ao primeiro-ministro e líder do PSOE, que governa em minoria depois de derrubar do poder o PP de Mariano Rajoy e precisa do apoio de partidos pequenos para aprovar o OE.

O que é feito do pacto Ciudadanos-PSOE?

Há dois anos o Ciudadanos assinou um acordo com o PSOE de Sánchez para governar em conjunto. O que mudou? "Sánchez decidiu abandonar o constitucionalismo, para ser primeiro-ministro a qualquer preço, pactuar com populistas e separatistas", sublinhou, nas declarações aos jornalistas estrangeiros, o líder de Ciudadanos.

"Eu agora posso subscrever quase todo o acordo, mas Pedro Sánchez não, ele tomou uma decisão para governar. Como não pode ganhar as eleições decide ser primeiro-ministro com apenas 84 deputados. Saiu da estrada para ir por outro caminho.

Sánchez afirmou, no passado, que nunca governaria com os separatistas e populistas e, sublinha Rivera, agora está a fazer "o contrário de muitas das coisas que decidimos". O dirigente do Ciudadanos sente que é "um erro para o país, um erro para o Estado, uma irresponsabilidade perante o risco de separatismo que existe".

No Ciudadanos lembram que "socialistas, liberais e conservadores deviam estar juntos na defesa da Constituição, mas o PSOE foi-se embora. Sánchez criou uma tensão política". O inimigo, o populismo, "é o veneno da Europa" e, para Albert Rivera, estamos perante "a fase de radicalização do independentismo, que está a mostrar a sua pior cara". O dirigente acredita que os socialistas não são separatistas mas "foi Sánchez quem saiu da estrada e faz tudo isto por ficar no poder".

Catalunha cada vez mais radical

Sobre a atual situação que se vive na Catalunha, Rivera diz sentir que o ambiente é cada vez pior, há cada vez mais tensão. "Marcam o negócio da minha mãe, como fizeram aos judeus, eu tenho que andar com escolta no meu território". A maior parte da culpa desta radicalização, sublinha, é do presidente da Generalitat. "[Quim] Torra é o principal radical, incita à violência, ele não é um democrata".

Na quarta-feira, na Suíça, o sucessor de Carles Puigdemont à frente do governo catalão voltou a defender "uma mediação internacional para encontrar uma solução política para a Catalunha" e criticou o Rei Felipe VI. "Como podemos confiar num governo que protege um rei que, em vez de ser árbitro, se comportou ao longo do último ano como um hooligan com coroa?".

Rivera, de 38 anos, sente que a maioria dos espanhóis "estão agora efetivamente preocupados com a situação da Catalunha, enquanto isso antes não acontecia". Na sua opinião, durante muitos anos, "não se levou a sério o nacionalismo". O líder do Ciudadanos critica que os diferentes governos espanhóis "pactuaram com eles [nacionalistas] porque estavam de olhos postos em deputados e poder". Desta forma "deixámos os nacionalistas ir demasiado longe, cedeu-se muito", sublinha.

A 2 de dezembro vai ter haver as eleições na Andaluzia, o primeiro teste do atual governo e para o resto de partidos. A Andaluzia é o bastião dos socialistas. "O Ciudadanos tem o 9 % votos e nove deputados, eu penso que vamos subir", afirma o líder do Ciudadanos

Rivera, cujo partido venceu as últimas eleições na Catalunha, mas por falta de maioria foi arredado do poder por uma coligação de independentistas, sente que o seu partido está a fazer uma corrida de fundo. "Nunca em democracia um partido tinha conseguido este crescimento, estamos a ficar fortes, o panorama é bastante bom para pensar em crescer no futuro". Depois de uns anos a ser uma força política que ajudou na formação dos governos, "agora queremos ser decisivos".

Albert Rivera lembra também que a política espanhola vive uma nova etapa, com líderes políticos "mais novos e com uma visão mais global".

Acordo com Podemos não chega


Sánchez fez um acordo com o Podemos de Pablo Iglesias para conseguir aprovar o OE, mas mesmo a assim não tem os votos suficientes. Daí que o líder do Podemos vá esta sexta-feira à cadeia à procura de mais alguns votos. Juntos, PSOE e Podemos somam 151 deputados e, para aprovar o orçamento para 2019, são precisos pelo menos 156.

Para conseguir o apoio de Iglesias, que tanto critica Sánchez como se põe ao lado dele, dependendo do momento, o governo socialista cedeu a aceitar um aumento do salário mínimo nacional para os 900 euros e mais apoios para a habitação.

O compromisso também inclui uma subida do IRS para os rendimentos superiores a 130 mil euros por ano e a aprovação de licenças de maternidade iguais e intransferíveis remuneradas e melhorias significativas nas ajudas às pessoas dependentes.

A prestação para quem tem filhos a cargo também sobe dos atuais 291 euros por ano para 473 euros, a fim de combater a pobreza infantil.

A data para a votação do Orçamento não foi, ainda, estabelecida.

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