E se o papel higiénico não for a melhor solução?

A pandemia de covid-19 trouxe com ela um fenómeno estranho: a corrida ao papel higiénico. Enquanto psicólogos tentam encontrar razões para esse comportamento, médicos avisam que a nível de saúde e limpeza o papel higiénico não é a melhor solução.

O pânico com que muitos nos vários cantos do planeta acorreram às prateleiras dos supermercados em busca do papel higiénico foi evidente. Apesar de não haver conhecimento de falta de abastecimento ou de sintomas que fizessem necessitar do dito papel: a covid-19 é predominantemente respiratória e não afeta o sistema gastrointestinal.

Por todo o mundo a corrida ao papel higiénico foi noticiada. Desde o assalto à mão armada de um camião que transportava papel higiénico em Hong Kong, em meados de fevereiro. Em Espanha, e segundo o El País, a correria aos supermercados em busca do papel higiénico foi automática quando o governo suspendeu as aulas nas escolas. As redes sociais com imagens de clientes com carrinhos cheios de rolos de papel higiénico contribuíram para a corrida desenfreada. E houve mesmo quem fizesse cálculos da quantidade de papel higiénico necessário em quarentena.

O mesmo se passou em Portugal. Nos primeiros dias de aconselhamento de isolamento social, e ainda antes do estado de emergência, os portugueses seguiram a tendência mundial. Segundo dados da consultora Nielsen, na semana entre 9 e 15 de março a procura por produtos de higiene pessoal e do lar aumentou 95%, estando o papel higiénico à cabeça, com um aumento do consumo em 229% - apenas superados pelas conservas (288%)

Mas tudo isto é ainda mais estranho quando o papel higiénico é considerado uma tecnologia antiquada e que muitos especialistas indicam não ser o mais eficiente nem o mais higiénico. De facto, já no século XI estudiosos chineses diziam para não usar papel para questões higiénicas.

Um artigo do The New York Times explica que antes do papel higiénico ser inventado, ou pelo menos mais disponível, usavam-se folhas, conchas, pelo de animal ou mesmo espigas de milho. Sabe-se que os antigos gregos e romanos usavam pequenos discos de cerâmica e também esponjas nas extremidades de paus, que, após o uso, eram colocados em vasos com vinagre e sal para que serem usados por outros.

Tudo isto é conhecido devido ao trabalho de Phillipe Charlier, arqueólogo e antropologista forense do Museu Du Quai Branly em Paris. O seu tratado de 2012 "A higiene no WC na era clássica" publicado no British Medical Journal, é provavelmente o texto mais divulgado sobre o tópico.

Os estudos de Charlier foram feitos por análise microscópica de fezes fossilizadas, os chamados coprólitos . "Não é nada sexy", contou àquela publicação, "mas quando estudamos fezes de 2000 A.C. ganhamos muita informação quer sobre alimentação, digestão, saúde, genética e migração das populações". E também informações de como as pessoas se higienizavam. Certamente que se os arqueólogos do futuro examinarem os coprólitos de 2020 ficarão perplexos ao encontrar resíduos de revistas e jornais que muitas pessoas têm usado pela atual escassez de papel higiénico.

A maioria dos historiadores que estudam o papel higiénico (há mais do que possa pensar) creditam Seth Wheeler por ter inventado o papel higiénico moderno, perfurado e num rolo. Uma ideia patenteada em 1891.

E apesar de os fabricantes terem acrescentado cores, desenhos, perfumes e amaciadores, o papel higiénico não sofreu grandes alterações desde a sua criação. Isto sem contar com a introdução das toalhitas húmidas. Originalmente criadas para bebés, são hoje usadas por adultos como alternativa ao papel higiénico. Só em 2019, as vendas, a nível mundial, alcançaram os 1,1 mil milhões de dólares, de acordo com o Euromonitor International. Todo esse consumo tem resultado no entupimento de muitos esgotos nas maiores cidades.

A melhor solução? Água

Vários estudiosos têm afirmado que água é definitivamente mais higiénica e melhor para o meio ambiente do que o uso de papel higiénico. Alguns médicos nos EUA aconselham o uso do bidé ou de sanitas com pequeno chuveiros. "Recebo muitos pacientes que apresentam irritações significantes que muitas vezes têm a ver com excesso de limpeza, porque limpam muito vigorosamente com papel higiénico ou toalhitas. Estas, como podem conter alguns químicos e fragrâncias, provocam irritações", indica Randolph Bailey, cirurgião da Universidade do Texas.

De acordo com alguns estudos recentes, a limpeza é melhor quando feita com água. O que é muito importante já que as fezes podem ser veículos de transmissão de doença graves como hepatites ou e.Coli, e provocar infeções urinárias. Aliás, recentemente encontrou-se o novo coronavírus nas fezes.

Psicólogos apontam que "as tendências compulsivas são exacerbadas quando as pessoas se sentam ameaçadas", indica Nick Haslam, professor de psicologia da Universidade de Melbourne na Austrália.

Muitas pessoas são acumuladoras mesmo em tempos mais calmos. E a pandemia pode ter despoletado esta tendência sobretudo porque, no inconsciente, o papel higiénico está ligado ao controlo de sujidade e doença. "Há evidências de que vários animais acumulam matérias para nidificação", diz Haslam. "Talvez o papel higiénico tenha algum componente de nidificação à medida que estamos forçados a estar em nossas casas".

Mas também pode ter a ver com uma questão de liberdade. Alguns sentem, inconscientemente, que ficar sem papel higiénico seria um grande problema, indigno, uma espécie de apocalipse como no filme 'Mad Max', uma descida a um mundo menos civilizado. O armazenamento de papel parece que vai continuar enquanto a pandemia durar. Apesar de alguns grupos defensores do meio ambiente estar a avisar que estamos a atirar as nossas árvores pela sanita, o mais importante, agora, parece continuar a ter rolos de papel higiénico disponíveis na casa de cada um.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG