"É preciso uma terceira via para Moçambique"

José Castiano, professor na Universidade Pedagógica de Maputo, assinou com o colega Severino Ngoenha, um manifesto por uma terceira via no país, num equilíbrio entre justiça social e liberdades individuais

Depois de Moçambique ter sido assolado pelos ciclones e pela força devastadora do processo das dívidas ocultas, dois professores universitários assinaram um "Manifesto por uma Terceira Via" no país, uma tese que começa a vingar nos círculos académicos moçambicanos e que consiste em misturar a justiça social do socialismo com as liberdades individuais.

José Castiano, professor de Filosofia na Universidade Pedagógica de Maputo, e Severino Ngoenha, reitor da Universidade Técnica de Maputo, são os autores desta revolução ideológica. "A terceira via tentaria recuperar a justiça social mas com o reforço das liberdades individuais num país onde tem havido capitalização financeira com as minas, o petróleo e o gás natural", explica José Castiano ao Plataforma, a partir de Maputo. "A primeira via foi a socialista e vigorou desde 1977 até 1984/5. A segunda via foi a que surgiu da democracia liberal com a Constituição de 1990 mas que, em minha opinião, se perverteu em neoliberalismo, com o capitalismo financeiro".

O Professor de Filosofia só concebe o caminho da terceira via com a reconciliação nacional, que ainda é um processo em marcha. "Temos que acionar a reconciliação por causa do escalonamento da violência física e psicológica no país". José Castiano admite "ter simpatia pelo Presidente Filipe Nyusi por ter pacificado as desavenças entre o governo da Frelimo e a Renamo". Mas admite que ainda faltam passos cruciais como integrar na sociedade os elementos da autoproclamada Junta Militar da Renamo.

"O primeiro passo é desarmar as mãos para depois desarmar as mentes", observa o Professor. "Tem de se institucionalizar o diálogo entre instituições fundamentais como o Parlamento, o governo e os tribunais".

O processo de democratização de Moçambique desde o acordo de paz de 1992. Por isso, apesar das ameaças que foram feitas a este processo eleitoral, admiro a tenacidade que houve em manter as eleições gerais na data de 15 de outubro".

Para o filósofo, os "grandes desafios" do próximo Presidente e governo estarão nas áreas da "Saúde e Educação". "Ao nível da Educação, está a ser feito um esforço para expandir o ensino superior, técnico-profissional e na requalificação dos profissionais que estão no setor informal que é muito forte em Moçambique: as pequenas indústrias, os comerciantes, os canalizadores, carpinteiros e alfaiates, onde há um potencial muito grande".

No "Manifesto pela Terceira Via" que assinou com Severino Ngoenha não se escolheu uma força política para preconizar esse novo caminho ideológico. "Engajámos todas as camadas sociais, políticas e filosóficas porque evitamos ter uma determinada conotação política. O que defendemos é uma ideia de construção de sociedade".

A Frelimo "tem condições para esse primeiro desafio de paz e reconciliação mas tem por causa da ação particular do Presidente". No conjunto, considera que os temas que os três principais partidos trouxeram à campanha são válidos: "A Renamo trouxe os temas da justiça social, o emprego e a corrupção. O MDM trouxe os temas da agricultura e do emprego". O "espírito para aceitar a terceira via está distribuído pela classe política e pela sociedade".

José Castiano chegou a ponderar "com alguma ingenuidade" que seria possível uma "distribuição de pastas para o partido perdedor destas eleições, numa espécie de governo de unidade nacional". Mas os atos violentos da campanha já o fizeram "perder a esperança". "Não se pode pôr de lado o risco de uma nova guerra civil, embora eu não queira acreditar nisso".

Exclusivos