"É melhor morrer da doença do que morrer de fome". Angolanos desafiam restrições

As cidades angolanas confrontam-se com a escolha entre a contenção da pandemia, depois do estado de emergência decretado pelo governo, e a necessidade de trabalhar para conseguir comer.

"Como é que alguém pode ficar em casa sem nada para comer?", pergunta Garcia Landu, um motorista de moto-táxi na movimentada capital angolana, e citado pela Agência France Press (AFP). Landu aventurou-se para tentar ganhar a vida, desafiando as restrições impostas pelo governo angolano para combater a pandemia do novo coronavírus. "Temos responsabilidades em relação às nossas famílias. Temos que sair e buscar comida", afirma o motorista.

Garcia Landu insiste que "é melhor morrer desta doença ou um tiro do que morrer de fome". E assegura: "Para morrer de fome, nunca vou aceitar isso. Não posso".

Dias depois que o governo ter declarado estado de emergência e ter imposto restrições em 26 de março, as multidões continuam a amontoar-se nos mercados, em frente às lojas ou em pontos de água em Luanda. Ao abrigo das restrições, o presidente João Lourenço proibiu viagens, reuniões e atividades públicas, pois o país registou 10 infeções e duas mortes.

"A situação exige sacrifícios de todos os cidadãos, cujos direitos e vida profissional e social terão que ser restringidos", disse Lourenço num discurso transmitido pela televisão há uma semana passada.

Mas não a ponto de privar as pessoas de água, replica Quechinha Paulina, uma viúva que não tem água corrente no distrito municipal de Cazenga, densamente povoado. Ela é forçada a comprar água a particulares e ainda espera uma entrega. "Faz duas semanas e ainda não chegou", disse Paulina. "Então hoje levantei-me às 3 da manhã para comprar (noutro lugar). "Não tenho nada em casa. Tenho filhos", diz, reclamando que, quase uma semana, ainda não recebeu o pagamento do subsídio social.

Apesar do bloqueio imposto, muitos entendem que ganhar dinheiro, encontrar comida e buscar água são razões mais do que legítimas para sair de casa. Isto depois do governo angolano ter prometido, ao anunciar uma série de medidas para ajudar a manter as pessoas em casa, distribuir água nos bairros desfavorecidos.

As operadoras de telefone aderiram aos apelos e oferecem minutos de chamadas gratuitas para evitar filas de pessoas a tentarem carregar os seus telemóveis. Mas mesmo assim as ruas de Luanda não ficaram vazias. Na véspera do estado de emergência, o chefe de polícia, Paulo de Almeida, prometeu divulgar a mensagem sobre a gravidade do vírus. "Não toleraremos a desobediência", alertou. "É uma questão de saúde de todos."

"As pessoas são teimosas"

Na sexta-feira, o ministro do Interior Eugénio Laborinho informou que 1.209 pessoas foram detidas em apenas uns dias, mais de 1000 por terem entrado em Angola após o encerramento das fronteiras a 27 de março e 189 por violar o estado de emergência.

"A polícia não está no local para agradar (pessoas) ou distribuir chocolates", disse Laborinho aos jornalistas. "As pessoas são teimosas de qualquer maneira, elas sabem que precisam ficar em casa".

"A doença é perigosa, nós vemos isso. Todo mundo vê isso, todo mundo sabe", diz Domingos João, motorista de táxi. "Mas em casa não conseguiremos nada. É por isso que estamos nas ruas, trabalhando (e obedecendo às regras), como vê". Garante que "antes que os passageiros entrem, são desinfetados primeiro" e mostra uma garrafa de desinfetante para as mãos.

Ao fazer suas compras, o professor Geraldo Dala, teme que "se o covid-19 começar a se espalhar por aqui, milhares serão infetados".

"O estado de emergência não será respeitado enquanto as pessoas dependerem da rua para alimentar suas famílias", afirma Rafael Marques. O jornalista, uma voz habitualmente crítica dos poderes angolanos, concorda no entanto que as medidas de emergência "foram tomadas para o bem do povo".

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