Dr. M saiu da reforma aos 92 anos para voltar ao poder

Antigo primeiro-ministro Mahathir Mohamad passou-se para a oposição, tendo vencido as eleições desta quarta-feira.

"Sim, sim, estou vivo", garantiu ontem Mahathir Mohamad numa conferência de imprensa após a sua vitória nas eleições de quarta-feira na Malásia. Primeiro-ministro entre 1981 e 2003, o homem que liderou o país com mão de ferro e que os malaios tratam por Dr. M, volta agora ao poder aos 92 anos, tornando-se o líder eleito mais velho do mundo.

Mas não é só a idade de Mahathir que torna estas eleições históricas. O homem que nos 22 anos que passou no poder fez da Malásia um dos Tigres Asiáticos, desenvolvendo a economia e promovendo o desenvolvimento do país, trocou a coligação Barisan Nasional (BN), que governava a Malásia desde a independência em 1957, para se juntar à Pakatan Harapan (Aliança da Esperança). Foi como candidato da Aliança que derrotou o seu antigo protegido, Najib Razak.

No poder desde 2009, o sexto primeiro-ministro malaio é suspeito de corrupção. Najib terá recebido 700 milhões de dólares do 1Malaysia Development Berhad, um fundo de investimento estatal que ele criou em 2009. O ex-chefe do governo negou as acusações e foi considerado inocente pelas autoridades malaias, mas o fundo continua a ser investigado por vários países. Najib tem sido acusado de interferir na investigação malaia, ao retirar alguns responsáveis dos seus cargos.

Confrontado com estas acusações contra o antigo protegido, em 2016 Mahathir decidiu sair da BN para se juntar à Aliança da Esperança, afirmando-se "envergonhado" por estar ligado a "um partido que é visto como apoiante da corrupção".

Longe de ser uma figura consensual, Mahathir destacou-se no passado pelo autoritarismo, sendo acusado pelos opositores de aprovar leis securitárias com a finalidade de se livrar dos rivais políticos.

Uma das suas decisões mais controversas foi afastar o seu vice-primeiro-ministro Anwar Ibrahim, suspeito de corrupção e sodomia - acusação especialmente grave num país de larga maioria muçulmana mas com fortes comunidades chinesa e indiana. Detido em 1999, Anwar passou cinco anos na prisão antes de sair em 2004 para liderar a oposição. O que fez entre 2008 e 2013, mas dois anos depois regressou à prisão, sob nova acusação de sodomia. Está neste momento a cumprir uma pena de cinco anos.

Nos últimos meses houve, contudo, uma aproximação entre Mahathir e Anwar. Antes das eleições, o agora primeiro-ministro prometeu governar apenas dois anos e perdoar Anwar, abrindo caminho a que este assuma a chefia do governo. Resta saber se cumpre a promessa.

Militante da Organização Nacional dos Malaios Unidos (UNMO) desde os 21 anos, Mahathir exerceu medicina na sua cidade de Kedah durante sete anos antes de ser eleito para o Parlamento em 1964. Se foi saudado nas ruas por verdadeiras multidões, o seu regresso ao poder está a causar também alguma preocupação. Tudo porque enquanto os seus apoiantes acreditam que o novo primeiro-ministro conseguirá apostar na economia, repetindo os bons resultados que obteve nos anos 90, já os seus opositores temem que as suas promessas populistas ponham em causa o desenvolvimento do país.

Apesar da vulnerabilidade em algumas áreas, a economia malaia cresceu 5,8% em 2017, beneficiando do aumento do consumo interno, da melhoria das condições de trabalho e do reforço da procura externa de bens produzidos no país. Para 2018, a previsão de crescimento é de 5,2%. Mas o país pode perder uma das duas grandes fontes de rendimento se Mahathir cumprir a promessa de acabar com o imposto sobre bens e serviços e de aumentar o salário mínimo.

Para já, foi sob os aplausos dos apoiantes que Mahathir prometeu ontem "restaurar o Estado de direito" e não procurar vingança em relação aos adversários políticos. Mas a própria coesão da coligação que agora chega ao poder, constituída por partidos que têm na oposição a Najib o seu único ponto comum, está a ser questionada pelos analistas. O ex-primeiro-ministro disse "aceitar o veredicto do povo", abrindo caminho para que a primeira transição política no país decorra de forma pacífica.

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