Do "estou f*****" de Trump à obstrução à justiça: as conclusões do relatório Mueller

Em 448 páginas, o relatório do procurador especial Robert Mueller analisa a ingerência russa na campanha para as presidenciais de 2016 nos EUA, a eventual cumplicidade da equipa de Trump e as alegadas tentativas de travar a investigação.

Após a divulgação do relatório do procurador especial Robert Mueller sobre a ingerência russa na campanha para as presidenciais americanas de 2016, os democratas aumentaram a pressão sobre o presidente. O objetivo? Levar Mueller a testemunhar no Congresso sobre as suas conclusões - isto depois de o documento ter revelado que o presidente Donald Trump ter tentado demitir o procurador.

Num comunicado conjunto, Nancy Pelosi e Chuck Schumer, os líderes dos democratas na Câmara dos Representantes e no Senado, afirmaram que o relatório "traça um retrato perturbador de um presidente que tem tecido uma teia de falsidades, mentiras e comportamentos impróprios".

O partido está a tentar obter uma cópia do documentos original e não a versão em que grandes partes foram riscadas. presidente da Comissão dos Assuntos Judiciários da Câmara dos Representantes dos EUA, o democrata Jerry Nadler, intimou o Departamento de Justiça a divulgar o documento completo.

"A minha comissão precisa e tem direito à versão completa do relatório e as provas subjacentes consistentes com as práticas do passado. As rasuras parecem ser significativas. Até agora não vimos nenhuma das provas reais que o Conselho Especial desenvolveu para chegar às suas conclusões", disse Nadler num comunicado.

"Até a versão rasurada do relatório descreve graves circunstâncias de transgressão da parte do presidente Trump e de alguns dos seus associados mais próximos", refere o texto.

O congressista quer que o Departamento de Estado forneça o documento original, completo, até 1 de maio. Nesse dia, o procurador-especial William Barr vai testemunhar diante de uma comissão no Senado, devendo um dia depois testemunhar na de Nadler. A intimidação é o passo de partida para uma longa batalha legal sobre o tema.

Os democratas tentam provar que o presidente fez obstrução à justiça. Alguns sectores do partido voltaram mesmo a falar em impeachment, mas Pelosi recusou comentar a hipótese de iniciar um processo de destituição contra Trump. Apesar de terem a maioria na Câmara dos Representantes, os democratas estão em minoria no Senado, onde, para passar, o impeachment teria de ser aprovado por dois terços.

O presidente considerou esta sexta-feira a existência de testemunhos "montados" no relatório de Mueller. "As alegações que me visam feitas por certas pessoas no hilariante relatório Mueller, escrito por 18 democratas em cólera e irritados contra Trump, são montados de todas as peças e totalmente falsos", escreveu Trump no Twitter.

A Rússia reagiu através do Ministério dos Negócios Estrangeiros que rejeitou todas as conclusões do relatório, garantindo que o procurador geral não conseguiu encontrar provas de que Moscovo se imiscuiu nas presidenciais americanas.

Para já aqui ficam algumas das conclusões presentes nas 448 páginas do relatório:

A reação de Trump: "Estou f*****"

A 17 de maio de 2017, foi com consternação que Donald Trump reagiu à notícia de que fora nomeado um procurador especial para investigar a ingerência russa na campanha para as presidenciais do ano anterior. "Oh meu Deus. É terrível. É o fim da minha presidência. Estou f*****", terá exclamado o presidente na Sala Oval da Casa Branca, quando o então responsável da Justiça, Jeff Sessions, lhe anunciou a nomeação de Mueller.

Segundo o relatório, Trump deixou-se cair numa poltrona: "Todos me dizem que quando temos um procurador geral temos a presidência estragada. Leva anos e anos, não vou poder fazer nada. É o pior que me podia ter acontecido".

Sem provas de conluio

O relatório de Mueller conclui que não houver conluio entre os membros da equipa de Trump e a Rússia, apesar dos inúmeros contactos mais ou menos discretos que tiveram durante a campanha.

O filho do então candidato republicano, Donald JR. recebeu mensagens da Wikileaks, pessoas próximas de Trumo retweetaram falsas contas naquela rede social criadas pelos russos e até houve uma reunião com russos na Trumo Tower de Nova Iorque. Mas a investigação não conseguiu provar que houve conspiração.

"Os indícios não foram suficientes para acusar membros da equipa de campanha de Trump de se terem coordenado com representantes do governo russo para influenciar o resultado das eleições", pode ler-se no relatório.

Mas houve obstrução à justiça?

Neste ponto o relatório de Mueller não iliba totalmente Trump. O documento explica que o presidente tentou, durante meses, em público e em privado, travar as investigações, mas falhou por uma razão: "As pessoas que rodeiam o presidente recusaram executar as suas ordens e dar seguimento aos seus pedidos".

O relatório mostra que Trump ordenou ao chefe dos serviços jurídicos da Casa Branca que demitisse Mueller, mas Don McGahn recusou obedecer. O presidente pressionou ainda Jeff Sessions e várias testemunhas, levando os colaboradores a mentir aos media ou nos comunicados que emitiam.

"Ver os atos no seu conjunto pode trazer alguma luz", escreveu Mueller.

A bola está com o Congresso

"Se tivéssemos a certeza, após uma investigação rigorosa, que o presidente não cometeu qualquer obstrução à justiça di-lo-íamos ", lê-se no documento.

Mas o procurador geral lembra que um presidente em funções não pode ser acusado penalmente pela justiça comum. Logo, mesmo que tivesse conseguido provas, não podia ter iniciado os procedimentos judiciais normais.

Cabe portanto ao Congresso perseguir o presidente por obstrução à justiça, diz o procurador geral sem contudo usar a palavra impeachment.

Ingerência russa

Este é um assunto que não deixa dúvidas a Mueller: "O Estado russo imiscuiu-se nas eleições presidenciais de 2016 de forma vasta e sistemática", escreve. "Primeiro, uma organização russa organizou uma campanha nas redes sociais que favoreceu" Trump e "denegriu" a sua rival democrata Hillary Clinton.

Depois, hackers russos, do GRU, os serviços secretos militares da Rússia, piratearam mensagens do partido democrata e de um próximo de Hillary Clinton, divulgados de seguida na Internet por sites anónimos e pela WikiLeaks que receberam as mensagens diretamente dos russos.

"Cinco horas" para atacar Hillary

Mueller escreve que responsáveis do GRU "atacaram pela primeira vez o gabinete pessoal de Hillary cerca de cinco horas após uma declaração de Trump", a 27 de julho de 2016, quando o republicano apelara à Rússia para encontrar os emails da rival.

"Rússia, se me estás a ouvir...", exclamou Trump na altura. Uma frase que o próprio presidente, numa resposta por escrito ao procurador geral, garante não ter passado de uma brincadeira.

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