Dilma sobre o golpe militar: "Não há nada a comemorar neste dia, só rezar pelos mortos"

No dia em que passam 55 anos em que os militares instalaram uma ditadura no Brasil, a antiga presidente recorda "uma ferida aberta na história política do país". E diz que é duro ver "agora uma comemoração forjada" por Bolsonaro.

Quando passam 55 anos do golpe militar que instalou uma ditadura no Brasil, a antiga presidente Dilma Rousseff, que foi presa e torturada às mãos dos algozes, recusou que haja motivos de comemoração. "Não há nada a comemorar neste dia. Só rezar pelos mortos e manter a certeza de que resistiremos ao autoritarismo para construir uma nação sem ódios, mágoas e perseguições", afirmou, num texto enviado à Folha de S. Paulo.

Se esta data é, para Dilma, "uma ferida aberta na história política do país", a antiga presidente regista que "para surpresa dos democratas comprometidos com a soberania nacional e os direitos sociais, para estarrecimento da imprensa, os elogios descarados do atual Presidente da República ao golpe de 64 mostram que estamos distantes da pacificação sonhada".

Jair Bolsonaro apelou às "comemorações devidas" deste dia, num ato que motivou duras críticas, incluindo de apoiantes seus. Para Dilma, "é duro ver que após a incansável luta pela democracia, pagamos com dor e sacrifício para assistir agora uma comemoração forjada pelo chefe de Estado do golpe de 1964". E acrescenta: "Todos sabemos que brasileiros e brasileiras foram assassinadas pela ditadura e estão 'desaparecidos' até hoje. Amigos e familiares guardam a dor da ausência de muitos de seus filhos e pais."

Dilma Rousseff recorda que tempos sombrios foram aqueles que se viveram no Brasil de 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985. "São tempos que evocam prisão, tortura, morte e exílio. Tempos em que a ação do governo ditatorial levou ao fechamento do Congresso Nacional, ao cancelamento de eleições diretas para presidente, governador e prefeito [presidente da câmara], à cassação de ministros [juízes] do STF [Supremo Tribunal Federal]. Instituíram a censura à imprensa e desencadearam a mais violenta repressão às greves de trabalhadores e às manifestações estudantis. A gente brasileira passou a falar de lado e olhar para o chão."

Dilma foi presa em 16 de janeiro de 1970 e torturada pelos militares durante 22 dias com palmatória, socos, choques elétricos e "pau de arara". Bolsonaro evocou estes episódios, em abril de 2016, quando da sessão de impeachment de Rousseff, ao anunciar o seu voto: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim."

Nos seus tempos de deputado federal, de 2001 a 2018, o agora chefe de Estado - que está de visita a Israel - mencionou a ditadura pelo menos 252 vezes, de acordo com uma recolha do Estadão. Segundo este jornal, Jair Bolsonaro referiu-se ao regime militar a cada quatro pronunciamentos que fez no plenário da Câmara enquanto era deputado.

Nesses discursos, Bolsonaro tanto se referia à ditadura como a acontecimentos relacionados, nomeadamente ao golpe de 31 de março, cujo aniversário se assinala este domingo, a promulgação do AI-5 - um ato institucional do governo, em 1968, que dava "poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados" -, a Lei da Amnistia ou a Comissão da Verdade.

Agora como presidente, Jair Bolsonaro insiste em passar uma esponja pelos quase 21 anos de ditadura. Dilma replicou, no texto deste domingo: "Passados 55 anos, mais uma vez nos afastamos da democracia. E, hoje, infelizmente, o país não está pacificado. Longe disso. Depois do golpe de 2016, que me tirou da Presidência da República, vivemos novamente tempos sombrios de ódio e intolerância."

A antiga presidente lembra que, "em 2012, na instalação da Comissão Nacional da Verdade", avisou "que a ignorância sobre a história não pacifica". Pelo contrário, "mantêm latentes mágoas e rancores", uma vez que "a desinformação não ajuda a apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância".

É neste ponto que Dilma afirma que "não há nada" para comemorar neste domingo. É tempo, diz, de construir uma nação "cheia de cidadania, direitos sociais e humanos e soberania nacional". "Para isso", aponta, "precisamos continuar a lutar por um Brasil mais solidário, mais justo e menos desigual". E remata o texto com um assertivo "Ditadura nunca mais!"

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