Dilma Rousseff: "Se perder, sou carta fora do baralho"

Um dia após desembarque da 4.ª maior força parlamentar da base de apoio, presidente revê contas do impeachment. Temer também disse o que fará em caso de vitória ou derrota

Dilma Rousseff anunciou ontem, no dia seguinte ao desembarque da quarta maior força parlamentar, o PP, o que fará em caso de aprovação ou rejeição do processo de impeachment. "Caso o pedido seja rejeitado, o meu primeiro passo vai ser a nova repactuação do governo, sem vencidos nem vencedores, no pós-Câmara dos Deputados ou no pós-Senado, estendendo-a esse pacto à oposição. Se perder não haverá repactuação porque aí serei carta fora do baralho".

Em situação limite, após a saída do PP, que vale 47 votos, Dilma recusa-se a deixar de lutar até ao fim. "Vamos lutar até o último minuto da última parte do jogo contra aquilo que consideramos ser um golpe e contra um relatório que achamos ser uma fraude", disse a presidente, não colocando de lado a hipótese de recorrer aos tribunais da decisão.

"Nós agora [após o desembarque do PP] sabemos que vamos sofrer uma pressão psicológica enorme para que surja um efeito dominó mas é difícil dizer que um partido saiu do governo, às vezes, os partidos saem e as pessoas ficam".

Por seu lado, Michel Temer, o vice-presidente que herda o cargo se Dilma for destituída, também anunciou, à Globonews, o que fará nos dois cenários. "Se o destino me levar à função de presidente (...) é claro que estarei preparado, caso não leve, ao longo do período em que fui vice-presidente nunca tive um chamamento efetivo para participar das questões de governo, de modo que continuará tudo como dantes", afirmou, sorrindo.

PP e o Titanic

À porta da reunião onde na madrugada de ontem o grupo parlamentar de 47 deputados do PP decidia se ia apoiar ou não o impeachment contra Dilma um grupo de defensores da destituição ouvia Céline Dion no tema do filme Titanic: o PP, preparava-se para saltar do barco do governo. Agora, a oposição acredita - e o PT teme - que se sigam, em "efeito dominó", os desembarques de outros indecisos, como PR ou PSD, tornando quase impossível impedir os 342 votos necessários para a queda da presidente.

Ao núcleo de Dilma, que vai gerindo a crise a partir do Palácio do Planalto e da suíte no Hotel Golden Tulip onde Lula da Silva está hospedado, resta convencer, à base de cargos de segundo e terceiro escalões, a minoria dos deputados do PP que não ficaram satisfeitos com a decisão do seu grupo parlamentar.

O PP (sigla de Partido Progressista) foi fundado em 1993 em torno do deputado Paulo Maluf, que esteve na lista da Interpol e foi condenado a três anos de prisão pela justiça francesa. No Brasil, respondeu por improbidade administrativa e utilização de meios e dinheiro públicos para promoção pessoal enquanto prefeito de São Paulo, foi réu em ações por lavagem de dinheiro, por crimes eleitorais, por falsidade ideológica, por crimes contra o sistema financeiro e por participação em ocultação de cadáveres de militantes durante a ditadura militar.

Com o maior número (32) de envolvidos na Operação Lava-Jato, o PP faz parte, como o PMDB e os outros indecisos, PR e PSD, do bloco de partidos chamados no Brasil de "fisiológicos", ou seja, com vocação de poder mas vazios de ideologia. Um bloco cujo apoio nenhum candidato de centro-esquerda (como Lula e Dilma, pelo PT) ou de centro-direita (como Fernando Henrique Cardoso, pelo PSDB) desdenhou porque ajuda a engordar o tempo de antena na campanha eleitoral e, já depois da eleição, influi nos órgãos legislativos.

Entretanto, o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha definiu horários e procedimentos do impeachment. Decidiu que comecem a votar os deputados do sul, por norma mais hostis à presidente, e no final os do norte e nordeste, onde o PT tem mais apoio, para materializar o "efeito dominó". O deputado Afonso Hamm (PP), sob investigação da Lava-Jato no Supremo, será o primeiro chamado a votar - e apoia o impeachment.

São Paulo

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