Desemprego e insegurança levam a primeiro ataque dos piratas somalis em cinco anos

Autoridades explicam que após anos de uma relativa tranquilidade na zona, os capitães dos navios tornaram-se mais descuidados.

No auge da sua atividade, em 2011, os piratas somalis atacaram 237 navios ao largo do país. Mas desde 2012 os ataques abrandaram de tal forma que os peritos atribuem ao descuido do capitão o sequestro do petroleiro Aris 13 na segunda-feira - o primeiro dos piratas da Somália contra um navio de grande porte desde 2012. Ontem, a Força Naval da União Europeia deu conta de um pedido de resgate apresentado pelos atacantes em troca da libertação dos oito tripulantes naturais do Sri Lanka.

Após anos de acalmia, em 2015, responsáveis somalis alertavam para o facto de, se a comunidade internacional não aumentasse os esforços para criar empregos e garantir a segurança na costa, os ataques de piratas poderem recomeçar em breve. Num país mergulhado na anarquia desde 1991, onde o governo apoiado pela ONU controla apenas poucas zonas da capital, Mogadíscio e onde são frequentes os ataques das milícias Al-Shabab, ligadas à Al-Qaeda, as autoridades pediam ainda apoio para combaterem a pesca ilegal.

Muitos pescadores viraram-se para a pirataria após o seu meio de sustento ser destruído pela pesca ilegal praticada por barcos estrangeiros que aproveitavam a ausência de uma guarda costeira num país minado por décadas de conflito.

Com o reforço da vigilância marítima internacional - Portugal chegou a ter a fragata Álvares Cabral na região -, muitos piratas desistiram de atacar os navios estrangeiros que passam pelo golfo de Adém vindos de ou a caminho do canal de Suez, que liga o Mediterrâneo ao mar Arábico. Estima-se que os ataques dos piratas tenham provocado prejuízos de cerca de oito mil milhões de dólares.

Os antigo piratas depararam-se então com outra dificuldade: como ganhar a vida? Em 2013, a AFP falava com Mohamed Abdi Hassan, um dos mais famosos piratas somalis, que se reciclara em formador de antigos companheiros que agora trabalhavam como "agentes antipirataria". "Convencemos os jovens a deixar a pirataria. Tenho influência e tenho mobilizado a comunidade, explicava Hassan, também conhecido como Big Mouth (Boca Grande), diante de uma chávena de chá num hotel de Mogadíscio. Três anos mais tarde, em janeiro de 2016, o diário britânico The Telegraph confirmava esta tendência. Num artigo assinado por Colin Freeman, o jornal conta como muitos desses homens agora ganhavam a vida a escoltar navios de pesca estrangeiros junto à costa da Somália.

A pirataria no golfo de Adém deu origem ao filme, Capitão Phillips, com Tom Hanks no papel do capitão do cargueiro MV Maersk Alabama, atacado pelos piratas ao largo da Somália e depois resgatado por SEAL da marinha americana.

No caso do Aris 13, petroleiro registado no Panamá mas gerido por uma empresa dos Emirados Árabes Unidos, foi levado pelos piratas para o porto de Alula, na região semiautónoma de Puntland. O navio vinha de Djibuti e ia para Mogadíscio. Ontem, a Força Naval da UE confirmou ter recebido um pedido de resgate, sem adiantar o valor pedido. A EU Navfor enviou um avião de patrulha da sua base no Djibuti, mas foi a sede em Londres que conseguiu contactar o capitão do Aris 13, que confirmou o sequestro.

Segundo a organização Oceans Beyond Piracy, o petroleiro dirigia-se para a rota conhecida como Socotra Gap, entre a Somália e a ilha de Socotra, que os navios por vezes usam apesar dos perigos para poupar tempo e custos.

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