Dentro de um túnel do Hezbollah, com Israel a preparar-se para nova guerra

Israel

Dentro de um túnel do Hezbollah, com Israel a preparar-se para nova guerra

Entre dezembro e janeiro, Forças Armadas de Israel descobriram e desmantelaram seis túneis de ataque do grupo xiita libanês. 13 anos depois, teme novo conflito.

Esta é a entrada - ou melhor, a saída - de um túnel escavado por militantes do Hezbollah, o grupo xiita libanês, e descoberto pelas Forças Armadas israelitas. "O Hezbollah hoje não é o Hezbollah de 2006. Nessa altura, eles esperavam que entrássemos no Líbano. Agora, o próximo conflito tem de ser o mais curto possível, com menos danos para o Hezbollah e com uma vitória moral." A explicação é dada por um oficial israelita que prefere não ser identificado. De camuflado e óculos de sol a protegê-lo do sol forte do verão, o militar explica que o objetivo do grupo liderado por Hassan Nasrallah é "mudar o conflito para o lado israelita e mandar os seus combatentes conquistar a Galileia".

Para chegar até ali, a poucos metros da fronteira com o Líbano, quem vem de Telavive segue pela autoestrada paralela ao mar. De vez em quando uma praia espreita do lado esquerdo. A paisagem árida, suavizada pela tecnologia de rega, depressa se transforma numa vegetação frondosa quando nos aproximamos de Metula e da fronteira. Mas o arame farpado que começa a surgir à nossa volta logo faz esquecer o cenário idílico e dá sinal de que aquela foi - e ainda é - uma zona de conflito. Se dúvidas houvesse, a pequena porta de madeira que dá acesso ao túnel, aberta numa parede de rocha da montanha, acaba com todas elas.

Surgido em 1982 como uma milícia em resposta à invasão do sul do Líbano por Israel, o Hezbollah nasce oficialmente em 1985. A sua ala armada, usando táticas de guerrilha, acabaria por conseguir expulsar Israel do sul do Líbano em 2000, apenas para voltarem a defrontar-se na guerra de 2006. Financiado pelo Irão xiita, que lhe dá também apoio militar, o Hezbollah tem sido um peão importante na guerra na Síria. Considerado um grupo terrorista pelos EUA e pela UE, a sua ala política é poderosa, muito graças ao apoio social que sempre deu às populações xiitas e a uma vasta rede de comunicações que inclui uma televisão e uma rádio. Já esteve no governo e nas últimas eleições elegeu 14 deputados.

Do outro lado da fronteira, as Forças Armadas de Israel estão convencidas de que o Hezbollah está a preparar um ataque iminente. Os seis túneis de ataque que descobriram em maio só reforçam essa ideia. "Temos informações dos nossos serviços secretos de que eles estão a fazer isso", garante o mesmo oficial. Este diante do qual nos encontramos chega aos 80 metros de profundidade. Um verdadeiro "desafio tecnológico", uma vez que a montanha é feita de uma rocha muito resistente e ainda tem gás natural no interior.

Foram seis os túneis detetados pelos israelitas entre dezembro e janeiro. No interior ainda encontraram roupas e ferramentas

Mas foram seis os túneis detetados pelos israelitas entre dezembro e janeiro. No interior ainda encontraram roupas e ferramentas. Agora a entrada está bem exposta, mas na altura ali só havia floresta. "Esta rampa foi escavada quando descobrimos o túnel. Antes aqui havia árvores", explica o militar. Depois de os tornarem intransitáveis, os israelitas chamaram a UNIFIL, a força da ONU criada em 1978 e que controla o sul do Líbano, para inspecionar os túneis. Israel, que trabalha junto à linha azul com a UNIFIL e com as Forças Armadas libanesas admite que não foi fácil encontrarem provas de que os túneis eram do Hezbollah. E lamenta que do lado libanês não tenha sido dado acesso à entrada dos mesmos.

Na estrada por trás de nós, o silêncio é quase total. Há várias aldeias ali à volta, mas por ali passam sobretudo veículos agrícolas - além dos militares. Estamos a 50 metros da Linha Azul traçada pela ONU para definir a fronteira entre Líbano e Israel, e bem perto do local onde foram raptados dois militares israelitas, dando lugar à segunda guerra do Líbano em 2006.

Um verdadeiro exército

As Forças Armadas de Israel garantem que todos os dias veem do outro lado da fronteira militantes do Hezbollah e acusam o grupo paramilitar de se esconder no meio dos civis. O grupo xiita libanês, sublinham, já não é "uma pequena força de guerrilha, como no passado. Funciona como um verdadeiro exército". O próprio Hassan Nasrallah o confirmou em julho, no 113.º aniversário do início da guerra. O líder do Hezbollah garantiu que um novo conflito será "maior" e deixará Israel "à beira da extinção". O homem que lidera o movimento desde 1992 explicou ter "armas capazes de mudar o jogo". "As nossas armas foram desenvolvidas tanto em quantidade como em qualidade. Temos mísseis de precisão e drones. Os 70 quilómetros de costa de Israel entre Betanya e Ashdod estão sob fogo da resistência", afirmou.

Este "túnel 6" foi o único que Israel deixou aberto do seu lado da fronteira, para ser estudado e poder ser visitado por delegações de políticos, diplomatas ou jornalistas estrangeiros. O interior, com as suas paredes lamacentas, ainda revela as marcas dos instrumentos usados pelo Hezbollah para o escavar. Estreito, baixo e escuro, num canto ainda se pode ver o barril e a bomba usada pelos militantes para retirar a água do interior.

Nesse sentido, estes túneis são muito diferentes dos escavados pelo Hamas entre a Faixa de Gaza e Israel. Aqui no norte, é fácil estabilizar a rocha, enquanto no sul o solo é de areia, impossibilitando os militantes do grupo integrista palestiniano de escavarem muito fundo e obrigando-os a colocar cimento nas paredes do túnel para o estabilizarem. Mas a ameaça e o objetivo são semelhantes - entrar em Israel para lançar um ataque no interior das fronteiras do Estado criado em 1948 e cuja destruição tanto o Hamas como o Hezbollah reivindicam.

Artigo publicado originalmente na edição impressa do DN de 24 de agosto

Exclusivos

Premium

Espanha

Bolas de aço, berlindes, fisgas e ácido. Jovens lançaram o caos na Catalunha

Eram jovens, alguns quase adultos, outros mais adolescentes, deixaram a Catalunha em estado de sítio. Segundo a polícia, atuaram organizadamente e estavam bem treinados. José Manuel Anes, especialista português em segurança e criminalidade, acredita que pertenciam aos grupos anarquistas que têm como causa "a destruição e o caos" e não a luta independentista.