De voluntária para ajudar crianças a uma morte brutal em São Tomé

A portuguesa assassinada de forma brutal na segunda-feira chegou a São Tomé há 12 anos como voluntária para ajudar as crianças de rua. Catarina Barros de Sousa, 51 anos, por lá ficou, sendo conhecida pela simpatia, educação e "andar sempre de motinha".

O homicídio da portuguesa Catarina Barros de Sousa, 51 anos, deixou toda a nação de São Tomé e Príncipe em choque. "A Catarina? Como é possível?" Quase todos a conheciam. Há 12 anos, a portuguesa chegou ao arquipélago africano numa ação de voluntariado com crianças de rua. Acabou por ficar em São Tomé, tendo já a dupla nacionalidade, sendo uma pessoa muito ativa na comunidade e conhecida de todos. Na segunda-feira ao fim da tarde, pouco depois das 18.00, foi assassinada de forma brutal no seu gabinete de trabalho na unidade hoteleira Mucumbli, onde trabalhava desde 2018.

Era a mulher da motorizada. Todos conheciam Catarina por "andar sempre de scooter" pela ilha de São Tomé, algo raro para uma mulher. Depois do voluntariado, trabalhou em várias empresas e instituições, como a empresa de aviação Africa's Connection. Foi durante anos a guia turística na Corallo, a empresa de chocolate. Fazia as visitas guiadas "e era, por isso, conhecida de todos e de muitos turistas que passaram por São Tomé." Há dois anos foi trabalhar para o Mucumbli, um hotel de turismo rural e ecológico na zona norte da ilha, propriedade um casal amigo de italianos.

"Isto caiu de repente, foi um choque. Surpreendeu tudo e todos. Estamos num sítio muito reservado e tranquilo mas nunca tivemos problemas", contou ao DN Tiziano Pisoni, o italiano que há mais de 30 anos está radicado em São Tomé, sendo já cidadão nacional. Conhecia a portuguesa "há mais de dez anos", mesmo antes de Catarina ir para o Mucumbli. "Quase toda a gente a conhecia." O Mucumbli fica em Ponta Figo, a 50 km da capital.

"Era uma pessoa muito conhecida. Era muito boa, dava-se bem com toda a gente, estava sempre disponível. Fazia muito voluntariado junto de crianças, era simpática", disse Tiziano Pisoni, ainda abalado com a brutalidade do crime para o qual ainda não tem uma explicação.

O dono do hotel diz que tem acompanhado as autoridades. Há suspeitas, difundidas na imprensa local, que o autor do crime seja um funcionário. Aponta-se mesmo, na peça do correspondente da RTP África, que o funcionário da segurança do hotel que deu o alerta após ter encontrado o corpo, é suspeito, tendo ficado detido. Tiziano Pisolin diz não saber as conclusões a que chegou já a investigação da Polícia Judiciária de São Tomé. Apenas refere que, do que conhece, "o autor do crime ainda não está detido" mas está convencido que "a polícia vai encontrar o responsável".

Não se tratou de um roubo já que nada desapareceu. Circularam mesmo imagens do corpo estendido no gabinete onde são visíveis vários objetos como telemóvel, computador portátil. As suspeitas sobre um funcionário devem-se a alegadas ameaças que terá lançado após a portuguesa lhe ter movido um processo disciplinar e descontado no salário por faltas ao trabalho.Tiziano Pisoni não confirma. "Por enquanto não é possível avançar nada. A investigação policial está em curso."

"A investigação prossegue. Tomamos contacto com a ocorrência, deslocamos ao local e confirmamos que se trata de uma cidadã estrangeira de nacionalidade portuguesa", afirmou Maribel Rocha, directora da Polícia Judiciária de São Tomé e Príncipe, citada pelo jornal Téla Nón. Oficalmente a Judiciária ainda não anunciou qualquer detenção.

Catarina Barros de Sousa terá sido atacada com uma catana, de forma muito violenta, tendo o corpo ficado desfigurado. Segundo Tiziano Pisoni, quarta-feira à tarde será realizada uma missa em São Tomé e o corpo será depois trasladado para Portugal.

"Não tem nada a ver com racismo"

Entre os portugueses a surpresa e o choque. "Não é só a comunidade portuguesa que está abalada, é toda a comunidade são-tomense. Era uma pessoa muito querida no país", disse Cristina Sorte, professora que vive há cinco anos na ilha. Não sendo uma amiga próxima de Catarina Sousa, esta professora conhecia-a como a portuguesa que "tinha sempre um sorriso", que "fazia muito voluntariado, ajudava os miúdos de rua" e andava "sempre na motinha dela para todo o lado". Catarina tinha uma scooter que usava como meio de transporte.

Cristina Sorte foi alertada para o crime por uma amiga, "Logo na segunda-feira começaram a dizer que uma portuguesa foi decapitada. Pensamos que fosse uma turista. Só depois comecei a receber mensagens e fique a saber quem tinha sido. Depois ainda vi as imagens horríveis e nem consegui dormir", contou.

Esta portuguesa diz que "este tipo de crime é raro" em São Tomé e Príncipe. "A ilha é pacata. Há assaltos e a criminalidade tem subido mas não são crimes deste género. Também não há racismo, não tem nada a ver. Por vezes aqui dizem que a forma como se fala pode originar ações mais violentas de revolta, mas no caso da Catarina isso não é possível. Era sempre afável e muito educada."

Edu Guerra, são-tomense que agora vive em Portugal, conhecia bem Catarina. "Fui professor de surf dela. Nunca imaginei que alguém pudesse fazer mal à Catarina. Era uma pessoa sempre amigável, que fazia montes de coisas, ajudou imenso São Tomé e sobretudo as crianças", disse ao DN.

O DN tentou contactar a embaixada e secção consular de Portugal, sem sucesso. Os portugueses ouvidos e Tiziano Pisoni dizem que as autoridades portuguesas têm acompanhado o caso, com o oficial de ligação e segurança, coronel Pedro Costa Lima, a acompanhar todos os passos que têm de ser dados para a entrega do corpo à família.

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