De Ronaldo a Bolsonaro: lições de fascismo no meu Facebook

A diferença entre duas timelines vistas por um brasileiro que vive em Portugal. O que pode Portugal aprender com as eleições no Brasil?

Na minha timeline portuguesa do Facebook, as polémicas das últimas semanas foram se Cristiano Ronaldo violou uma rapariga norte-americana, se é uma violência obrigar os netos a beijar os avós e se a polícia agiu corretamente em registar e divulgar imagens de criminosos algemados.

Polémicas aparentemente triviais, principalmente se comparadas à minha timeline brasileira, onde um candidato a presidente acha natural fazer ameaças de violar uma parlamentar, afirma que preferia o filho morto a sabê-lo gay e promete, caso seja eleito, dar carta branca aos polícias para matar.

O mais curioso, porém, é que as timelines na mesma rede social, por mais distantes que as polémicas surjam, dialogam entre si, separadas apenas por uma questão cronológica: foi exatamente do jeito português, há alguns anos, que começou a tomar corpo o atual cenário de um Brasil em relacionamento sério com o fascismo.

Por trás dos temas nas polémicas da timeline portuguesa está um trinómio muito caro ao discurso da extrema-direita: a cultura do machismo, os valores da família e as questões da segurança pública. Presentes também nas falas do candidato ultradireitista brasileiro, num tom bem mais radical.

"Foi exatamente do jeito português, há alguns anos, que começou a tomar corpo o atual cenário de um Brasil em relacionamento sério com o fascismo"

Lá atrás, no Brasil, as polémicas também já foram amenas. Até que alguém prestasse a atenção nelas e começasse a operar não com o propósito de explicar, mas de confundir.

Um exemplo é o caso envolvendo Ronaldo. Em vez de se ampliar o discurso e perceber como evitar as situações de assédio ou de falsas denúncias, o debate foi rasteiro, sobre se o jogador havia forçado a rapariga a manter relações sexuais ou se ela se aproveitou da fama do futebolista para faturar uma boa indemnização.

Entre a avalanche de opiniões divergentes, não se avançou um passo no debate em busca de soluções para proteger as pessoas de assédios ou denúncias falsas de assédio. Um impasse que só interessa a quem deseja estruturar um discurso com fins eleitorais baseado na lógica do senso comum.

A questão das imagens dos polícias algemados é bem didática. Na polémica, quem se opusesse ao vazamento era apontado como crítico ao trabalho da polícia e em defesa dos criminosos, o que acaba por enfraquecer os argumentos de um dos lados, pois é praticamente impossível defender quem andou a agredir idosos com martelos.

O problema é que nunca esteve em causa a defesa dos criminosos ou o trabalho da polícia, e sim, se era função dos agentes enviar fotografias à imprensa.

"Curiosamente, o atual candidato da polícia promete uma arma para que o cidadão seja responsável pela sua segurança e faça o trabalho da... polícia"

No Brasil, a polícia representa um grande contingente do eleitorado da extrema-direita, levada pelo sentimento de que a sociedade brasileira reprova o seu trabalho, quando, na verdade, o que há são críticas pontuais em relação a excessos no cumprimento da função, como as feitas no caso da polícia em Portugal.

Este sentimento de desprezo diante dos olhos da sociedade foi alimentado pacientemente, ano após ano, por quem não se interessa em construir um discurso de conciliação, mas de extremos. Começou em questões aparentemente menores, como a do vazamento das fotos em Portugal, até ganhar a atual amplitude.

Curiosamente, o atual candidato da polícia promete uma arma para que o cidadão seja responsável pela sua segurança e faça o trabalho da... polícia. Logo, quem gastará dinheiro com revólver e munição, e ainda terá que trocar tiros com bandido, chegará à conclusão de que o imposto pago para sustentar a polícia não faz sentido.

No caso brasileiro, tentar promover uma reflexão simples como esta é praticamente impossível, pois o debate não se dá nos meios tradicionais de comunicação, mas em redes sociais com utilizadores apartados em bolhas de interesses, corrompidas por um exército de perfis falsos e bots. Qualquer menção de sensatez é rapidamente sufocada.

Se o Brasil está entregue à sorte - ou à falta dela - talvez ainda seja possível frear um cenário semelhante neste lado do Atlântico. O que vejo na minha timeline portuguesa, porém, infelizmente é a sensação de que a situação em Portugal é diferente da brasileira e que o país está livre de passar pela mesmo pesadelo.

Exatamente como nós, brasileiros, pensávamos estar livres há alguns anos.

*Jornalista e escritor, autor de 'Meu Velho Guerrilheiro'

Exclusivos