David Cameron quebra o silêncio: "Sei que algumas pessoas nunca me vão perdoar"

Ex-primeiro-ministro britânico, responsável pelo referendo sobre o Brexit em 2016, afirma em entrevista ao Times que é contra um No Deal Brexit e não descarta a hipótese de uma segunda consulta popular

Numa altura em que se prepara para lançar o seu livro de memórias, o ex-primeiro-ministro britânico David Cameron quebrou o silêncio sobre o Brexit, a campanha para o referendo de 2016, o comportamento de alguns políticos, na altura e agora, bem como sobre o estado a que chegou o seu Partido Conservador.

"Sei que algumas pessoas nunca me vão perdoar por ter organizado um referendo. Outras por tê-lo organizado e perdido. Há ainda, claro, pessoas que queriam um referendo e que queriam sair que estão contentes que a promessa feita tenha sido mantida", declarou o ex-chefe do governo do Reino Unido, referindo-se à consulta de 23 de junho de 2016. Nela, 52% dos eleitores britânicos votaram pela saída do país da UE, 48% pela permanência. Em entrevista ao Times, antes de publicar For the Record (Para que fique Registado), Cameron, hoje com 52 anos, diz que o resultado daquela consulta popular o deixou "profundamente deprimido".

Na sequência daquele resultado, Cameron demitiu-se, dando lugar a Theresa May. Em julho do ano passado, May foi obrigada a demitir-se do N.º 10 de Downing Street depois de ver o seu acordo do Brexit com a UE27 ser chumbado três vezes pelos deputados da câmara dos Comuns. A seguir a ela, no governo e no Partido Conservador, veio Boris Johnson. E com ele o cenário de um No Deal Brexit - a 31 de outubro - tornou-se uma forte probabilidade. No meio de tudo isto, uma guerra entre o governo e o Parlamento, que levou à suspensão deste, pelo menos até 14 de outubro.

Na entrevista àquele jornal britânico, Cameron, que foi primeiro-ministro entre 11 de maio de 2010 e 13 de julho de 2016, afirma que Boris Johnson e Michael Gove [atualmente ministro] se portaram "terrivelmente mal" durante a campanha para o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. Sobre as guerras internas nos conservadores, o político que liderou a formação entre 6 de dezembro de 2005 e 11 de julho de 2016, afirmou-se desapontado: "Suponho que algumas pessoas diriam que no amor, na guerra e nas campanhas políticas vale tudo. Eu pensava que havia coisas que os conservadores não iriam fazer para se colocarem uns contra os outros e eles fizeram".

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Cameron diz que não apoia nem a expulsão do partido dos deputados conservadores rebeles que votaram contra Boris Johnson ao lado da oposição, nem a decisão deste em pedir à Rainha Isabel II a suspensão do Parlamento. "Não apoio nenhuma das duas coisas" e penso que "um No Deal Brexit não é uma boa ideia". Questionado sobre se um segundo referendo seria uma boa ideia, o ex-governante não descartou essa hipótese. "Não podemos descartá-la porque estamos bloqueados", admitiu.

O livro For the Record tem 752 páginas é publicado na próxima quinta-feira dia 19 de setembro. Cameron tem previsto dar outras entrevistas para promover o livro e falar do Brexit, nomeadamente na segunda-feira à noite, à ITV News. Os direitos de publicação foram comprados pela HarperCollins por 800 mil libras (725 mil euros). A editora acredita que o negócio vai compensar. Porém, reporta o Guardian, as pré-encomendas na Amazon não estão propriamente em alta e no Reino Unido algumas livrarias independentes recusam fazer stock do livro. Este será vendido a 25 libras (23 euros). Posto isto, Cameron tem provavelmente razão. Algumas pessoas provavelmente nunca lhe vão perdoar.

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